BioFilosofia
 
 
Imprensa Especializada
Dor e Empatia
Fonte: ScienceNews
Autor: Laura Sanders
Link: http://sciencenews.org/view/generic/id/40302/title/I_feel_your_pain%2C_even_though_I_cant_feel_mine
Tradução: 
Data: 03/02/2009
 
Está explicado porque vemos tanta gente fazendo caretas ao assistirem outras pessoas se machucando e o porquê de tantas pessoas chorarem copiosamente ao assistirem filmes, novelas e até inauguração de padaria (que não é a delas...). (Heloísa)

 
Em 1985, numa noite de segunda feira, os fãs de futebol observaram como o quarterback (zagueiro de futebol americano), Joe Theismann foi derrubado. A colisão foi tão violenta que rachou a perna de Theismann. Quebrou como um "palito", disse um fã,.A maioria das pessoas que assistiam provavelmente foi empática a Theismann e sentiu a sua dor, incluindo aquelas que sofrem com uma doença rara que as impede de sentirem dor em si mesmos, sugere um novo estudo.

Em vez de utilizarem experiências passadas de sensação de dor para se lamentar, essas pessoas contam com uma capacidade de imaginar a dor dos outros, sugere os estudos com imagens do cérebro, publicado, on-line, em 28 de janeiro na Neuron (revista de notícias sobre neurociências). "Esse fascinante e bem conduzido estudo" oferece novas perspectivas sobre a relação entre dor e empatia, comenta Marco Loggia, do Athinoula A. Martinos Center for Biomedical Imaging, em Charlestown, Massachussets.

O estudo sugere que várias regiões cerebrais, incluindo as regiões envolvidas em emoções, podem ser acionadas para sentir empatia pela dor dos outros. Em estudos futuros, diz Loggia, seria interessante examinar outros casos, por exemplo, quando as pessoas ficam expostas às sensações de outra pessoa (sentindo-as) sem nunca ter tido essa sensação antes. "Como os seres humanos podem ter empatia com um cão que machucou o rabo? Como pode um homem compreender a dor menstrual?" Loggia indaga. As respostas, ele mesmo propõe, podem estar nas mesmas regiões do cérebro que permitem às pessoas insensíveis à dor, simpatizarem com a dor alheia.

O co-autor do estudo, Nicolas Danziger, queria saber se uma pessoa pode ter empatia com um estado emocional desconhecido. Compreender outros estados emocionais das pessoas, tais como dor, acredita-se que é baseado em um sistema do cérebro chamado de sistema espelhado. Quando alguém vê um quarterback quebrar uma perna, um grupo específico de células no cérebro do espectador é ativado. Essas células nervosas são as mesmas que seriam ativadas se o espectador quebrasse sua própria perna.

Chamadas de neurônios espelho, essas célula estimulam uma espécie de reação de movimento reflexivo no cérebro (parecido com aquele quando se toca no nervo do joelho), em resposta a ver a dor dos outros, um fenômeno chamado pelos pesquisadores de repercussão automática. Simplificando, estas células cerebrais espelhadas não fazem a distinção entre o que um macaco vê e o que um macaco faz.

A atividade de grupos inteiros de neurônios interligados em uma pessoa,pode refletir grupos inteiros de células cerebrais interconectadas em outra pessoa, um processo chamado "espelho emparelhado." Agora, os cientistas sabem que sistemas inteiros de neurônio espelho podem responder as emoções dos outros, como,´por exemplo, repugnância. Ver uma pessoa enojada produz o espelho emparelhado no cérebro do observador, onde o mesmo grupo de células nervosas é ativado, como se o observador estivesse, ele mesmo, enojado.

Alguns pesquisadores haviam proposto que os neurônios espelho não existissem ou não respondessem corretamente quando uma pessoa vivencia uma sensação desconhecida. Para testar essa idéia, Danziger, um neurologista do Centro de Dor do Hospital Pitié-Salpêtrière, em Paris, recrutou um único grupo de indivíduos.

Algumas pessoas nascem com defeitos genéticos raros que as tornam completamente insensíveis à dor física. A equipe de Danziger usou técnicas de ressonância magnética para estudar as respostas cerebrais dessas pessoas, de como elas encaravam as situações dolorosas.

Aos indivíduos foram mostradas imagens de um dedo cortado por tesouras e um rosto de um homem com expressão de dor. O controle do cérebro de indivíduos que sentem dor normalmente apresentou padrões de ativação em duas regiões cerebrais de sensações, uma estrutura do córtex médio anterior circulado e a insula anterior(uma área triangular  do córtex cerebral formando o assoalho da fossa cerebral lateral).

 Como elas se concentram, estas regiões de sensações de dor foram similarmente ativadas nos indivíduos que não podiam sentir dor. "Nossa primeira intuição era a de que nós estávamos esperando uma enorme diferença entre os dois grupos, mas vimos o contrário", disse Danziger.

Os resultados sugerem que estas respostas cerebrais não são um sistema de espelho emparelhado (correspondente) em relação à dor. No entanto, a semelhança de ativação cerebral nessas regiões não exclui possíveis espelhos emparelhados (correspondentes) em outras regiões cerebrais, diz Danziger.

Regiões cerebrais como a amígdala,importantes no processo emocional, poderiam abrigar um sistema de espelho emparelhado para a dor, diz ele. Os investigadores não puderam avaliar a ativação da amígdala , devido à interferência da ressonância magnética próxima ao osso.

Foi na linha mediana das estruturas cerebrais que a equipe notou diferenças entre indivíduos com insensibilidade à dor e indivíduos controlados. Quando eles tinham empatia com a dor alheia (isso tudo avaliado por um questionário), as pessoas insensíveis à dor se basearam fortemente em atividades nestas regiões (regiões do córtex pré-frontal e do córtex posterior ventral circulado) envolvidas na formulação de perspectivas emocionais. Apenas os indivíduos insensíveis à dor, com alto poder de empatia, tinham alta atividade nessas regiões cerebrais, enquanto que em indivíduos controlados, a atividade nessas regiões tinha pouco a ver com a quantidade de empatia.

As pessoas insensíveis à dor "só podem invocar as regiões emocionais", disse Danziger. "Isso está longe de ser automático."Essas pessoas podem estar relacionando a dor física que presenciam com a dor emocional que elas sentem.

Provavelmente, as estruturas cerebrais médias (ou a linha mediana das estruturas cerebrais), os locais onde Danziger diz ser onde o "trabalho emocional" é feito, e o sistema de  espelho emparelhado (combinado,correspondente), ambos  desempenham um papel na empatia das pessoas normais.

"Acho que ambas, as áreas de neurônio espelho e as áreas medianas são importantes para a intersubjetividade", comenta Marco Iacoboni, um neurocientista que estuda os sistemas de neurônio espelho na Universidade da Califórnia,em Los Angeles.
 
Comentários...
Data:04/02/2009
Nome:carlos b.
Quer dizer então que não nos emocionamos com a dor alheia porque somos bonzinhos, isto é, por razões morais. Nos emocionamos porque alguns neurônios nasceram com esta característica. O que quer dizer que quem não se emociona também não tem falha de caráter nem é malvado e insensível. UAU!!! A HUMANIDADE VAI TER QUE REPENSAR A SI PRÓPRIA!!!
Data:03/02/2009
Nome:Célia
Realmente, nem todo mundo e portador dessa doença,mas acho que todos nós somos empáticos com a dor alheia.Digo todos nós, generalizando, usando como exemplo as pessoas de bem. Já reparou quando vemos uma notícia trágica nós nos colocamos no lugar da pessoa que foi vitimada? Acho que todos temos algo assim.
Data:03/02/2009
Nome:Renata
Aluísio, adorei o seu comentário e concordo plenamente.
Data:03/02/2009
Nome:Anselmo
Tenho acompanhado alguns artigos do blog, interessantes. Deixo uma sugestão - façam-nos mais curtos.
Data:03/02/2009
Nome:Célia
Vou comentar com uma amiga,pois acho que ela deve portar essa rara doença. Esse pessoal descobrecada coisa.
Data:03/02/2009
Nome:Walkíria
Que interessante,eu não sabia que existia esse tipo de doença. É doença mesmo?
Data:03/02/2009
Nome:Aluísio o cético
Serei menos cético: se fosse possível desenvolver a empatia, resolveríamos metade dos problemas de relacionamento de uma só tacada.
 
 
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