O texto de hoje é o complemento do que apresentamos ontem. Mostra essencialmente que não atuamos de maneira racional em presença da possibilidade de ganho, se definirmos racionalidade no sentido estrito tradicionalmente usado pela Economia. Se considerarmos, entretanto, a necessidade evolutiva de nos mantermos relativamente à frente de nossos rivais, a coisa muda de figura. Não procuramos apenas lucro, procuramos mais lucro do que nossos concorrentes. Mostra também que não temos a capacidade inata para avaliarmos situações complexas que mudam as condições de contorno continuamente, como os mercados financeiros. Por isso, velhas regras não funcionam em mercados novos. A especulação não é só uma questão de moral ruim ou de regulação frouxa como querem alguns. Ela faz parte da nossa natureza. (Rabujo)
Em experimentos de laboratório realizados com participantes sem conhecimento do mercado financeiro, o aumento da experiência dos participantes acaba eliminando a ocorrência de bolhas especulativas. Seria de se esperar que, no mundo real, operadores mais experientes produzissem menos crises financeiras. Como crises periódicas continuam ocorrendo, seria de se atribuir os problemas destes mercados ao excesso de participantes inexperientes: day-traders, gente que opera a partir de casa, MBAs recém-formados. Como Alan Greenspan disse ao Congresso Norte-Americano: “O fracasso em atribuir preços adequados a ativos arriscados precipitou a crise”. O que os mercados necessitariam seriam mãos mais experientes.
Novamente, porém, a situação não é tão simples. Mesmo operadores experientes podem cometer grandes erros quando as condições mudam. Em pesquisa publicada na edição de junho de 2008 da American Economic Review, Vernon Smith e colaboradores aplicaram primeiramente o teste padrão (ver o blog de ontem) a um grupo de voluntários, por duas séries de quinze rodadas. A seguir, mudaram três condições: misturaram os grupos, de maneira que os participantes não mais negociavam com conhecidos, aumentando o número de possíveis resultados, duplicando o dinheiro envolvido e cortando pela metade o número de ações disponíveis para negociação.. Estas modificações foram baseadas em experiências anteriores, que mostravam que mais dinheiro e maiores diferenças entre os resultados possíveis exacerbavam as bolhas. Os participantes fizeram então uma terceira rodada
Sob as novas condições, os participantes, embora já experientes, produziram uma bolha tão grande como se nunca tivessem praticado o jogo antes. Não durou tanto nem envolveu tanto volume, entretanto. “Os participantes pareciam entender que haveria uma bolha e, consequentemente, saíram do mercado (vendendo seus ativos) mais cedo”. Mesmo assim, os preços foram muito acima do valor fundamental. “Bolha é o o fenômeno imprevisível e engraçado que acontece quando o ambiente é mantido por tempo suficiente”.
Para aqueles que investem dinheiro de verdade, fora do laboratório, a pesquisa traz duas implicações.
A primeira: cuidado com mercados com excesso de dinheiro, em busca de um pequeno número de bons negócios. Quando os juros caem, mais dinheiro é efetivamente liberado para a compra de ativos financeiros. Muito dinheiro encoraja erros de investimento.
A segunda: grandes mudanças podem transformar mesmo operadores experientes em novatos ignorantes. Estas mudanças podem ter sido a ascenção de novas indústrias, como as ponto-com nos anos 90 e os novos derivativos baseados em hipotecas, mais recentemente. Cherles Platt, um dos pioneiros da economia experimental diz que é “uma boa tese” a idéia de que a crise recente tenha vindo deste tipo de inexperiência. Com tantos novos instrumentos, “é possível que inexperientes não sejam só os indivíduos, mas também as próprias organizações. Elas ainda não aprenderam a identificar e a quantificar os riscos envolvidos”.
Os experimentos sobre bolhas encontram, aqui, um grande corpo de pesquisa experimental desenvolvido por Platt e colaboradores. Este trabalho explora como os mercados especulativos reúnem informação de muitas pessoas (“a sabedoria das massas”) para chegar a predições acuradas – por exemplo, quem vai ganhar as eleições ou um campeonato de futebol. Estes mercados funcionam, na visão de Plott, porque as pessoas com boas informações posicionam-se cedo, levando os preços a refletirem o que eles sabem, e definindo a trajetória que outros seguirão. “É como uma cascata”. Mas, às vezes, os processo pode “endoidar” e criar uma bolha, geralmente quando informação de boa qualidade é escassa e as pessoas seguem líderes que, de fato, pouco sabem.
Isto pode ser o que acontece em Wall Street. Quando temos novos instrumentos, temos “líderes” que imaginamos que sabem muito sobre o processo, agindo agressivamente e levando outros a os seguirem – como já o fizeram no passado e é normal que os mercados o façam. Mas, neste caso, pode haver uma bolha. E, quando uma há bolha, haverá um colapso.
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| Comentários... |
| Data:12/02/2009 |
| Nome:Wal |
| Realmente, dependendo da pessoa, a ganância tira a racionalidade. |
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| Data:11/02/2009 |
| Nome:Helena |
| Em posts anteriores, especialmente sobre sexualidade, predominavam comentaristas mulheres. Nestes posts sobre finanças predominam os homens. O fato, em si, já sugere algumas coisinhas, ou não? |
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| Data:11/02/2009 |
| Nome:castro |
| Keynes já dizia que o que importa é a opinião média do mercado. A pesquisa confirma a tese do velho mestre. |
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| Data:11/02/2009 |
| Nome:carlos b. |
| Ganância é a palavra. |
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| Data:10/02/2009 |
| Nome:natu |
| Que não somos racionais com dinheiro já dizia minha falecida avó. Mas é interessante de certa forma podermos "medir" este grau de cobiça, e entender o quanto dele já vem com a gente. |
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| Data:10/02/2009 |
| Nome:o cético |
| Estas pesquisas parecem dar razão aos analistas "técnicos", vejam só. e eu que pensava que estes caras eram apenas dinossauros perdidos na contemporaneidade complexa dos mercados atuais! |
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