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Ilusões de Identidade
Fonte: The Frontal Cortex
Autor: Jonah Lehrer
Link: http://scienceblogs.com/cortex/2009/08/identity_delusions.php
Tradução: Joana Alencastro
Data: 13/08/2009
 
Benedict Carey do Times tem um artigo interessante sobre a história angustiante de Adam Lepak, que vem lutando com ilusões de identidade desde 2007, quando se envolveu em um sério acidente de moto:

O diagnóstico [dado a Adam] foi lesão axonal difusa (LAD). “O conceito que está nos livros é essencialmente esse: um golpe que fecha o pacote de fios responsáveis por nos manter conscientes,” diz Dr. Jonathan Fellus, neurologista do Instituto de Reabilitação de Kessler em West Orange, Nova Jersey, e que supervisionou a recuperação gradual de Adam.  "É como se as estradas principais tivessem sido acertadas e agora o cérebro tivesse que usar estradas secundárias. Mas cada cérebro responde de forma diferente. Eu já desisti de fazer previsões."

Pesquisadores que coletaram imagens do cérebro enquanto ele processava informação relacionada à identidade pessoal perceberam que muitas áreas estavam ativas. As chamadas linhas corticais estruturais intermediárias: elas funcionam como o centro de uma maçã - dos lóbulos frontais perto da testa e correndo através de todo o centro do cérebro.

A área frontal e as áreas intermediárias se comunicam com regiões do cérebro que processam a memória e a emoção -  no lóbulo temporal médio, enterrado profundamente debaixo de cada orelha. E as experiências sugerem veementemente que, em casos de ilusão de identidade, esses centros emocionais não estão bem conectados às áreas de intermédio frontal e nem fornecendo boa informação. Mamãe soa e se parece exatamente como mamãe, mas a sensação de sua presença se perde. Ela parece de alguma maneira irreal.

A clássica ilusão de identificação é chamada de Síndrome de Capgras, depois que o psiquiatra francês Dr. Jean Marie Joseph Capgras, com quem Dr. Jean Reboul-Lachaux descreveu em 1923 o caso de uma paciente de 53 anos de idade “que transformou todos de seu séquito – mesmo os mais próximos a ela, como o marido e a filha – em vários e numerosos dublês.”

Em uma análise de casos como esse publicada em janeiro pelo periódico Neurology, Dr. Orrin Devinsky, um neurologista da Universidade de Nova York, documentou que pessoas que sofrem de ilusão normalmente têm o hemisfério direito do cérebro mais danificado do que o esquerdo. Raciocínio linear e linguagem tendem a ser predominantemente funções do hemisfério esquerdo do cérebro, enquanto que julgamentos holísticos – de entonação, de ênfase – tendem a ser processados mais pelo lado direito. Dr. Devinsky argumenta que quando as pessoas sentem falta de um brilho emocional familiar quando na companhia de parentes ou de pessoas amadas, o hemisfério esquerdo - sem a checagem do hemisfério direito, que se encontra danificado - resolve o conflito com sua lógica categórica. Essa pessoa só pode ser uma impostora.

Isso me lembra da maravilhosa citação de Virginia Woolf, na qual ela descreve o ego como o nosso exclusivo “tema, recorrente, metade lembrado, metade adivinhado”. A citação capta a natureza misteriosa da identidade emergindo de alguma invenção alquimista da memória, da emoção e da sensação. O ego sente como algo singular  - eu sou eu – e ainda assim não vem de parte alguma do cérebro e depende de uma vasta rede de neurônios, distribuídos através do cérebro. Isso significa que não somos um lugar: somos um processo. Como escreveu Daniel Dennett, a nossa mente é feita “de múltiplos canais nos quais circuitos especiais tentam, em pandemônios paralelos, fazer todas as suas variadas coisas, criando Múltiplas Correntes enquanto passam.”

O que sujeitos como Adam demonstram é a fragilidade do ego. É impossível para mim imaginar a realidade de uma perspectiva que não seja a minha própria – eu sou o observador exclusivo de todas as minhas percepções. E ainda assim, e ainda assim...tudo o que precisa é de um golpe na cabeça e esse delicado fantasma desaparece. Repentinamente sou outra pessoa, convencido de que minha mãe é não é minha mãe. (Se você quer saber mais sobre a Síndrome de Capgras, recomento altamente The Echo Maker, por Richard Powers.)

Dado o fundamental papel do ego na experiência humana, é soberbo o quão pouco sabemos sobre isso. (O fato de que chamamos a isso de uma propriedade emergente é um sinal de que ninguém entende realmente o que o ego significa ou de onde ele vem.) Na maioria das vezes, somos forçados a nos maravilharmos com seus efeitos através da atenção, enquanto o ego escolhe quais sensações iremos utilizar para prestar atenção em que quer que seja. Essas células sensoriais então demonstram uma sensibilidade crescente e uma descarga acentuada, fazendo com que fiquem mais inclinadas a entrarem na estreita corrente da consciência. (Isso é conhecido como atenção seletiva ou atenção executiva. Aqui vai um artigo recente sobre isso: http://arjournals.annualreviews.org/doi/abs/10.1146/annurev.neuro.30.051606.094256).

Pense por um momento no quão profundamente estranho é isso tudo: o ego, uma frágil ficção produzida por todos esses diferentes processos mentais, está causando verdadeiras mudanças na atividade neural. Uma propriedade emergente está alterando as células elétricas das quais ela emerge. (Douglas Hofstadter sempre foi bastante eloqüente quanto a esse paradoxo.) É como se o fantasma estivesse controlando a máquina.
 
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