BioFilosofia
 
 
Blogs Científicos
Freud e Neurologia
Fonte: ScienceBlogs
Autor: NeuroPhilosophy
Link: http://scienceblogs.com/neurophilosophy/2009/03/brain_mechanisms_of_freudian_repression.php
Tradução: Heloisa Cavalcanti de Souza
Data: 16/03/2009
 
Meus amigos psicanalistas bem sabem de nossas discordâncias. Pois hoje vou lhes dar uma "colher de chá"...(Rabujo)

A teoria de Freud é a de que, embora alguém possa bloquear a lembrança de algo desagradável, este algo sempre vai estar espreitando e trazendo consequências em suas atitudes e em suas relações, embora a pessoa não perceba isso. Portanto, não adianta ter memória seletiva (autodefesa inconsciente). Isso não vai curar suas neuroses. Mas atuais estudos revelam que a codificação de determinada informação pode levá-la ao esquecimento. Isso me remete àquele maravilhoso filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, com direção de Michel Gondry e roteiro de Charlie Kaufman, ganhador do Oscar de melhor roteiro original em 2004. Se não viram, vejam, vale a pena, muito! Heloisa.

Há  mais de 100 anos, Sigmund Freud, o pai da psicanálise, propôs um mecanismo chamado repressão, em que desejos e impulsos são ativamente empurrados para o inconsciente. Para Freud, a repressão é um mecanismo de defesa - as memórias reprimidas são frequentemente de natureza traumática, mas, embora ocultos, eles continuam a exercer um efeito sobre o comportamento.

Muitas das teorias de Freud têm sido, desde há muito, desacreditadas, mas elas continuam influentes nos nossos dias. A repressão, em particular, tem provado ser extremamente controversa. Ela tem atraído muita atenção no contexto dos inúmeros processos judiciais envolvendo alegações de abuso sexual na infância, especialmente tendo em conta o conhecimento de que as falsas memórias podem ser criadas com facilidade.

No entanto, sabemos, agora, que memórias indesejadas podem efetivamente ser ativamente esquecidas, e alguns dos mecanismos cerebrais subjacentes de supressão de memória voluntária foram identificados. Agora, um grupo de pesquisadores alemães relata que a antecipação da supressão de uma memória está associada a padrões específicos de atividade elétrica no cérebro, e que esses padrões podem ser usados para prever, com precisão, o esquecimento.

Há uma série de razões pelas quais se deve querer prevenir a entrada de memórias na consciência. A maioria obviamente, memórias de certos eventos, podem ser extremamente emocionais, e suas lembranças pode, portanto, contribuir para o estresse pós-traumático ou outras condições similares. Menos obviamente, a informação irrelevante é reprimida quando se está realizando uma tarefa cognitiva, de modo que não interfira na informação necessária para essa tarefa.

Em 2004, um grupo de pesquisadores liderados por Michael Anderson, que estava então na Universidade de Oregon, investigou as bases neurais da supressão da memória voluntária usando ressonância magnética funcional (RMf). Aos participantes pediu-se para que aprendessem os pares de palavras não associadas. Eles foram, então, colocados dentro do scanner cerebral, e foi pedido para que realizassem uma tarefa "pensar / não pensar”. Em cada experimento, mostraram a um membro um dos pares de palavras e pediram que lembrassem ou refletissem sobre a palavra associada a eles, ou para evitarem a palavra associada da entrada de sua consciência.

Esse estudo mostrou que a supressão de uma memória foi associada ao aumento da atividade em uma difusa rede de regiões cerebrais no córtex frontal, incluindo o córtex pré-frontal dorsolateral e ventrolateral (VLPFC e DLPFC, respectivamente),o córtex cingulado anterior e o córtex pré-motor suplementar. Em contrapartida, a atividade no hipocampo, uma região do lobo temporal medial conhecido por ser crucial para a formação de memória, mostrou-se reduzido. Isso sugere que todos as supressões ativas podem substituir ou interferir com a memória da lembrança - o envolvimento da rede nos lobos frontais inibe as atividades do hipocampo, de modo a que a memória não possa ser recuperada e, em vez disso, esquecida.

O novo estudo, realizado por Karl-Heinz Bäuml do laboratório do Departamento de Psicologia Experimental na Universidade de Regensburg,levanta estas conclusões iniciais. Em uma modificação do mesmo paradigma, 24 participantes foram primeiramente apresentadas a 27 pares de palavras não associadas (como em um jogo da memória, tipo cavaco-panela,etc.) em uma tela e, em seguida, foram mostradas algumas das faces uma por uma, e pediram para que dissessem as palavras associadas a cada uma. Nessa fase de ensaio, os participantes recordaram bem os pares de palavras, obtendo uma pontuação média de quase 81% no teste de lembrança.

Aos participantes foram mostrados alguns dos mesmos pares de palavras não relacionadas no mesmo esquema da fase pensar / não-pensar do experimento. Nesses ensaios, os participantes, primeiro, fixaram-se em uma pequena cruz preta que apareceu na tela imediatamente antes de cada par de palavras, e a cor foi modificada. Uma mudança de preto para verde indicou aos participantes que eles deveriam tentar se lembrar das palavras associadas com uma face; no estímulo eles estavam prestes a ver (a condição do "pensar"), enquanto que uma mudança para vermelho indicou que eles deviam evitar pensar sobre isso (a condição "não-pensar”).

Nesses ensaios, a cruz colorida, portanto, permitiu aos participantes prepararem-se ativamente, lembrar ou suprimir a palavra associada com a face de cada um dos ensaios. Posteriormente, outro teste foi realizado e, como esperado, as lembranças foram significativamente reduzidas pela condição do “não pensar”, o que confirma que, instruindo os participantes a fim de evitar o pensamento em um par de palavras não relacionadas, eficazmente é promovido o esquecimento. Essa supressão induzida por esquecimento não ocorre em todos os ensaios, e foi observado em alguns participantes mais do que em outros.

Quando os participantes realizaram essas tarefas, os pesquisadores usaram eletroencefalograma (EEG) para monitorar a atividade elétrica do seu cérebro. Desta forma, eles identificaram dois potenciais eventos relacionados(ERPs), ou assinaturas eletrofisiológicas , que foram associados com as condições do “não-pensar”. Uma delas ocorreu em torno de 300 milissegundos após a apresentação do exemplo "não-pensar" (a cruz vermelha), mas antes do aparecimento do exemplo de memória, a partir de eletrodos sobrejacente do lobo frontal direito e parietal esquerdo. A outra foi gravada a partir do mesmo eletrodo, no momento em que o próprio exemplo de memória foi apresentado.

Os pesquisadores descobriram a presença desses ERPs foi um antecessor no fato de saber se os participantes posteriormente recordariam as palavras associadas com as faces em cada ensaio. O mais recente ERP foi consistentemente seguido pelo mais antigo, e ambos os efeitos foram específicos para a condição “não-pensar". Esse estudo mostra, portanto, pela primeira vez, que existem mecanismos neurais que antecipam a supressão da memória voluntária. A fonte dos ERPs não pôde ser determinada com EEG; contudo, a RMf poderá ser utilizada no futuro para investigar a localização exata da atividade observado aqui.

Esse estudo também confirma alguns dos resultados de uma série de estudos anteriores. Em primeiro lugar isso confirma que repetições ativam a supressão de determinada informação codificada e podem levar a um subsequente esquecimento dessa informação. Aqui, como nos estudos anteriores, a supressão induzida por esquecimento só ocorreu após um grande número de ensaios, indicando que no cérebro são ativados mecanismos envolvidos com repetidas supressões. O novo estudo também mostrou que a segunda ERP foi ligeiramente mais forte do que a primeira, isto sugere que o exemplo "não-pensar" induz a mecanismos antecipados que, mais tarde, aumentam a força quando a informação a ser reprimida é apresentada.
 
Comentários...
Data:19/03/2009
Nome:Vera
O bloqueio da lembrança de algo desagradável em nossa vida pode ser esquecido ou recalcado, que são duas coisas diferentes. Concordo com o comentário do romulo.
Só queria encontrar algo que explique quando um fato é esquecido se voltamos a lembrá-lo quando passamos por situação idêntica. E qual seria o nome dado pela Psicanálise do esquecer/apagar realmente algo na nossa vida?
Data:17/03/2009
Nome:romulo
"Se só nos lembrássemos de coisas que nos trouxessem felicidade." - E é justamente assim que acontece a repressão (ou recalque) de que Freud fala: quando não queremos, não sabemos ou não podemos encarar, enfrentar ou lidar com algo que nós é desagradavel ou mesmo traumatico: então, reprimimos esse conteudo no inconsciente. É obvio que a memória é seletiva, e faz seleção o tempo todo, sem necessariamente REPRIMIR o q ESQUECE. Há o esquecer, e há o recalcar, são duas coisas muito diferentes e o texto me parece incoerente ao comparar a teoria de Freud, que fala da repressão, com esses testes científicos, q falam do esquecimento. Aliás, para efetivamente esquecer algo q é ruim, vc deve encarar e estar bem resolvido com tal coisa: só então, vc esquece tal coisa. A repressão, ao tirar o conteúdo da consciência, ao contrário de fazer você ESQUECER, no sentido de FICAR LIVRE de tal memória, faz você LEMBRAR DEMAIS: sendo que, agora, esse conteúdo ja esta disfarçado, sob outras formas, já que vc nao quer e resiste a vê-lo. O filme fala sobre isso: ele quer esquecer q amou a mulher p/ não sentir a dor de nao te-la mais, e ela faz o mesmo: mas isso só faz com que eles se reencontrem e vivam tudo de novo, o mesmo amor e a mesma dor, repetidamente, várias vezes, ciclicamente: e não se resolvem efetivamente. Mas os testes descritos no textos são bem interessantes... Parecem joguinhos divertidos. : )
Data:17/03/2009
Nome:Rafaella
Nossa, como seria bom se existisse, na mente consciente, essa coisa de memória seletiva, mas seletiva mesmo. Se só nos lembrássemos de coisas que nos trouxessem felicidade.
Data:17/03/2009
Nome:Maria
Ele procurava causas fisiológicas e ajudava com a psicanálise.
Data:17/03/2009
Nome:Wal
Acho que deveria ser um trabalho em conjunto,pois há causas fisiológicas que os remédios podem ajudar junto com a ajuda psicanalítica.
Data:17/03/2009
Nome:Claira
É bonito isto, ver as teses do Freud respaldadas agora.
Data:17/03/2009
Nome:martin
Vamos com calma. Freud criou um modelo funcional com a ciência da época. O que já está de bom tamanho.
Data:17/03/2009
Nome:Rabujo comenta
Pessoalmente, embora deteste o raciocínio contrafactual, penso que, vivesse Freud hoje, neurologista seria. É bom não esquecer que parte do trabalho do homem do charuto procurava causas orgânicas para os males da mente.
Data:17/03/2009
Nome:carlos b.
Este debate/combate entre psicanálise e neurologia chega a ser engraçado - os psicanalistas fazem que não vêem ou, quando não podem não ver, tentam desqualificar a neurologia. Poucos são os que realmente procuram englobar as descobertas recentes.
Data:17/03/2009
Nome:Célia
Seria bom escolhermos as lembranças que quiséssemos ter. Magina!! Isso existe? Vou ver o filme, pois já ouvi falar muito.
Data:16/03/2009
Nome:o cético
Aí Rabujo, eles vão dizer que não precisam da sua colher de chá e que você está querendo mesmo é ser castrado por sua ousadia!
 
 
 Mês Março
31/03/2009 Falha na Matrix
30/03/2009 Guerra dos Sexos
27/03/2009 O Valor da NeuroCiência
26/03/2009 Prazer Eletrônico
25/03/2009 Lombroso: O Retorno!
24/03/2009 Música
23/03/2009 Perdas e Perspectiva
20/03/2009 Intervenção Cerebral
19/03/2009 Injustiça e Desigualdade
18/03/2009 Muitos é igual a nenhum?
17/03/2009 Contágio Moral
13/03/2009 Multidão e Violência
12/03/2009 Perfeccionicmo
11/03/2009 Todos Amam um Líder Morto
10/03/2009 Interruptus
09/03/2009 Você é o seu Cão!
06/03/2009 Beleza e Neurônios
05/03/2009 Só Amanhã
04/03/2009 Cores
03/03/2009 De boas e de más intenções
02/03/2009 Inveja!
 
Posts anteriores:
2009
 Janeiro 12 13 14 15 16 19 20 21 22 23 26 27 28 29 30
 Fevereiro 3 4 5 6 9 10 11 12 16 17 18 19
 Março 2 3 4 5 6 9 10 11 12 13 16 17 18 19 20 23 24 25 26 27 30 31
 Abril 2 3 6 7 13 14 15 17 20 22 23 24 27 28 29 30
 Maio 4 6 7 8 11 12 13 14 16 19 20 21 22 25 27
 Junho 1 2 3 4 5 8 9 10 15 16 17 18 19 22 23 25 29 30
 Julho 6 7 9 10 14 15 16 17 20 21 23 24 27 28 29 30 31
 Agosto 3 4 5 6 12 13 14 19