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Muitos é igual a nenhum?
Fonte: NeuroNarrative
Autor: Entrevista com John Cacioppo
Link: http://neuronarrative.wordpress.com/
Tradução: Heloisa Cavalcanti de souza
Data: 18/03/2009
 
Esta entrevista é uma constatação do que temos visto no mundo atual e real (pois o mundo virtual já é um fato). A doença física causada pela dor emocional. As pessoas estão cada vez mais solitárias e interagindo cada vez mais com um maior número de pessoas. E cada vez mais doentes. Triste e assustador, não? (Heloisa)

Você apresentou recentemente, no encontro anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, descobertas convincentes sobre as ligações entre solidão e problemas fisiológicos. Quais foram algumas dessas mais surpreendentes descobertas?

As implicações da solidão na saúde realmente estão no cerne do nosso recente livro. Percebemos que a solidão está associada ao aumento da resistência do fluxo sanguíneo em todo o corpo; na elevação da pressão arterial com a idade; crescimento da atividade hipotalâmico pituitária adrenal
como o desenvolvimento de altos níveis  do hormônio adrenocorticotrófico e maiores altas de hormônio do estresse, cortisol, pela manhã; sono menos salubre; uma menor capacidade de exercer o auto-controle e evitar tentações pessoais, maior sintomatologia depressiva mesmo quando há controle para a depressão;  saúde pobre de comportamento tais como dieta e exercício, e maior carga alostática -marcadores biológicos periféricos  de uso e desgaste do corpo.

Mas o mais surpreendente achado pode ser o de que a solidão está associada com expressões do gene alterado no núcleo das células imunológicas, especificamente com a sub-expressão dos genes que ostentam a resposta anti-inflamatória de elementos glucocorticoide  (GRES) e sobre-expressão dos genes que ostentam transcrição de fatores de elementos de resposta pró-inflamatórias NF-κB/Rel. Estes efeitos podem ser mediados pelos efeitos da solidão na atividade neuroendócrina, que, por sua vez, atua sobre as células imunológicas.

Uma revelação sobre a solidão, para mim, é que ela está sujeita à variação genética. Que papel importante isso representa?

A solidão é cerca de 50% hereditária, mas isso não significa que a solidão é determinada por genes. Um montante igual é devido a fatores situacionais. O que parece ser hereditária é a intensidade da dor sentida quando alguém se sente socialmente isolado. Ser sensível ou insensível é necessidade individual, mas o  importante é a criação de um ambiente social que corresponda a uma predisposição voltada a sentir a dor social. Pessoas que são sensíveis a eventuais cortes sociais tendem a ser solitários mais frequentemente ou mais intensamente do que as pessoas que são relativamente insensíveis à ação social de desconexão. No entanto se alguém é ou não socialmente desconectado depende do contexto social e do mundo social que cria para si. Se alguém é especialmente sensível, então ele pode beneficiar a saúde e o bem-estar para priorizar o desenvolvimento e a manutenção de um pequeno número de relacionamentos de alta qualidade.

Nos próximos anos, você vê a nossa sociedade cada vez mais propensa à solidão ou menos? Se mais, há algo que possamos fazer para acertar o rumo?

As pessoas interagem com mais pessoas agora do que no século 20, e as distâncias nas quais as pessoas interagem são maiores do que nunca. Mas a solidão é mais fortemente relacionada com a qualidade do número de interações. Consideramos que a solidão é uma construção biológica, um estado que tem evoluído como um sinal para mudar o comportamento - muito semelhante à fome, sede, ou dor física - que serve para ajudar a evitar um dano e para promover a transmissão de genes para o poço gênico. No caso da solidão, o sinal é uma solicitação para renovar as conexões que precisamos para sobreviver e prosperar. Visto desta forma, a solidão – quer seja a nossa ou dos nossos amigos e familiares - pode transmitir-nos um sinal para reavaliar como estamos  gastando o nosso tempo para que possamos nutrir nossas conexões com aqueles que são especialmente significativos em nossas vidas.

No que você está trabalhando agora?
 
A metáfora dominante, para o estudo científico da mente humana durante a segunda metade do século 20, foi o computador - um dispositivo solitário com enorme capacidade de processar informação. Nossos estudos sobre solidão nos deixaram insatisfeitos com esta metáfora. Computadores são hoje maciçamente interligados a dispositivos com capacidades que vão muito  além do residente hardware e software de um computador solitário. Tornou-se evidente para nós que os telereceptores do cérebro humano têm fornecido banda larga sem fios aos seres humanos, para a interconectividade, há milênios. Tal como os computadores têm capacidades e processos que são transformados, mas vão muito além do hardware de um único computador, o cérebro humano evoluiu para a promoção das capacidades sociais e culturais e dos processos que são transformados, mas que se estendem para além de um solitário cérebro.

Para compreender a plena capacidade dos seres humanos, precisamos apreciar não só a memória e o poder computacional do cérebro, mas a sua capacidade de representação, de compreensão, e de ligação com outros indivíduos. Ou seja, uma necessidade de reconhecer que temos desenvolvido um poderoso propósito de tornar o  cérebro social. Este cérebro social, no entanto, nem sempre é um benevolente cérebro. Nossa pesquisa diz que os seres humanos certamente têm a capacidade de ser impulsionados pela implacável concorrência e reduzir o auto-interesse, mas também mostra que temos uma adicional e fantástica capacidade de cooperar, de nos preocupar com outros, assim como nós, e competir de justas e mútuas benéficas maneiras. Como uma sociedade, isso pode ser importante para encontrar formas de promover o último sobre o primeiro (o menos importante sobre o mais), nos indivíduos. Estamos agora tentando obter uma melhor compreensão do cérebro social e que normas socioculturais, regras ou sanções promovem ações coletivas que sejam adequadas para os problemas que estamos enfrentando no século 21.
 
Comentários...
Data:19/03/2009
Nome:Maira
O último parágrafo é assustador, não pela ciência envolvida, mas sim pelas intenções do pesquisador. Engenharia social? Eu hein??????
Data:19/03/2009
Nome:Rabujo avisa
Devido a problemas nos servidores da Traça, passamos grande parte do dia sem postagem de comentários.
Data:19/03/2009
Nome:wanilson
Deprimente. Até minha tendência ao isolamento pode ser atribuída a fatores, a rigor, fora de mim, já que os genes eu herdo, não escolho. O espaço para o livre arbítrio está desaparecendo.
Data:19/03/2009
Nome:o cético
Este texto também também deveria ser lido por psicanalistas...
Data:18/03/2009
Nome:Walkíria
Verdade e tristeza nessas constatações, pois devido aos sentimentos de isolamento social, os indivíduos solitários são levados a buscar um certo conforto em prazeres não sociais como comer e beber, por exemplo. Aí aparecem as doenças.
 
 
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