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Injustiça e Desigualdade
Fonte: Frontal Cortex
Autor: Jonah Lehrer
Link: http://scienceblogs.com/cortex/
Tradução: Heloisa Cavalcanti de Souza/Rabujo
Data: 19/03/2009
 
Este é um textinho de aparência modesta. Mas é muito revelador.  Vale mais do que tratados inteiros de sociologia e psicologia social. Revela muito sobre nosso senso de justiça e, se pensarmos bem, até porque o capitalismo é mais aceitável do que o comunismo

Eu sei, eu sei: todos estão cansados de ouvir sobre os bônus da AIG. Mas suporte comigo mais uma postagem no blog, porque acho que o aumento de raiva populista pode realmente iluminar algo interessante sobre a resposta humana à desigualdade.

Considere o jogo chamado ultimato, em que uma tarefa simples é atribuída a uma pessoa (o proponente): são dados dez dólares e se diz para que os compartilhe com outra pessoa (o que responde). O proponente pode dividir o dinheiro de qualquer forma,  mas, se o que responde rejeita a oferta, ambos os jogadores acabam com nada.

A teoria econômica clássica faz duas previsões sobre o resultado do jogo ultimato: as ofertas serão sempre desleais, e as ofertas desleais serão sempre aceitas. Uma vez que ambos os jogadores são racionais, compreendem que uma pequena quantidade de dinheiro é melhor do que nenhum. Razão e ganância devem superar as noções éticas de lealdade.

Mas não é isso o que acontece. Experimento após experimento têm demonstrado que a maioria dos proponentes oferecem cerca de US $ 4, quantia bastante justa e absolutamente irracional. Porque os proponentes se engajam em tal generosidade? Porque eles são capazes de imaginar como o que responde se sentirá se fizerem uma oferta desleal. Proponentes sabem que uma proposta baixa deixará o que responde zangado, o que irá levá-los a rejeitar a oferta e vai deixar todo mundo com nada. Assim, os proponentes suprimem sua ganância, e dividem equitativamente os dez dólares. Eles entendem que a manutenção da aparência de equidade é o melhor para todos.

No entanto, há uma maneira fácil de alterar o comportamento das pessoas durante o jogo. Quando a todos os participantes é aplicado um teste antes de o dinheiro ser distribuído - e não importa o que o teste é - e, em seguida, aos melhores colocados  são dados $ 10 para distribuir, os respondentes estão dispostos a aceitar ofertas injustas. Em outras palavras, as pessoas estão dispostas a tolerar a desigualdade, quando acham que é merecida. Esta é a razão pela qual as pessoas não se revoltam quando Wall Street distribuiu obscenos prêmios no ano passado - as pessoas aceitavam que os  executivos mereciam o prémio. Mas, agora, já somos mais espertos.

Quando este senso de justiça desaparece, coisas ruins começam a acontecer. Um exemplo poderoso vem de Franz de Waals e Sarah Brosnan, que treinaram macacos capuchinhos para lhes dar seixos em troca de pepinos. Quase que do dia para a noite, desenvolveu-se uma economia dos capuchinhos, com macacos famintos colhendo pequenas  pedras. Mas este mercado foi perturbado pelos cientistas, que tornaram-se desonestos: ao invés de dar a cada macaco um pepino em troca dos seixos, eles começaram a dar, a alguns macacos, gostavas uvas (macacos preferem uvas a pepinos). Após presenciarem tal injustiça, os macacos que recebiam pepinos entraram em greve. Alguns começaram a jogar seus pepinos nos cientistas; a grande maioria simplesmente parou de coletar seixos. A economia dos capuchinhos parou. Os macacos estavam dispostos a perder comida fácil simplesmente para mostrar sua raiva com o pagamento arbitrário.

O desconforto trabalhista dos macacos ilumina nosso senso inato de justiça. Não é que os macacos demandassem igualdade – alguns capuchinhos coletavam menos pedras do que os outros, e isto nunca criara problemas – mas sim que eles não podiam suportat que a desigualdade resultasse de uma injustiça. Humanos agem da mesma maneira. Quando os “proponentes” fazem alguma coisa para merecer sua remuneração, ninguém reclama. Mas quando são recompensados por nada e se recusam a distribuir com justiça o que receberam, as pessoas ficam furiosas. Elas começam a duvidar da integridade do sistema e se tornam mais sensíveis às desigualdades percebidas, rejeitando as premissas mesmo do jogo.
 
Comentários...
Data:20/03/2009
Nome:Rabujo avisa
Continuamos sem poder postar comentários. Espero ter tudo resolvido segunda-feira.
 
 
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