BioFilosofia
 
 
Na Imprensa
Compreendendo a Depressão
Fonte: The Boston Globe
Autor: Carey Goldberg
Link: http://www.boston.com/news/health/articles/2009/01/19/an_evolving_view_of_depression/?page=full
Tradução: Heloísa Cavalcanti de Souza
Data: 26/01/2009
 
No mundo da terapia, o Dr. Aaron T. Beck é uma estrela.

Considerado o pai da terapia cognitivo-comportamental, uma forma de tratamento psicológico que vem se espalhando pelo país nas últimas décadas, ele tem sido tão famoso por tanto tempo que alguns ficam surpresos ao descobrir que, aos 87 anos, ele  ainda está firme no trabalho.

Beck apareceu recentemente com uma nova e abrangente teoria sobre a depressão, o humor sombrio que, em  um dado ano qualquer, atinge  um número estimado de 5% dos americanos (e, provavelmente,vai atingir uma percentagem mais elevada este ano).

Mais de  uma geração atrás, Beck ajudou a derrubar a clássica ideia de que a depressão era a “raiva voltada para dentro”,  uma forma de auto-punição. Em vez disso,  ele sugeriu um    modelo cognitivo da depressão - que é um problema de viés negativo e hábitos de pensamento.     Qualquer falha significa, “Eu sou um perdedor”. Uma rejeição sugere, “Ninguém me ama.”

Agora, ele atualizou o seu modelo cognitivo com os mais recentes avanços nas ciências do cérebro e da genética, e os publicou no    American Journal of Psychiatry. Beck,que é professor de psiquiatria da Universidade da Pensilvânia, adverte que grande parte da pesquisa que ele cita ainda é preliminar, mas esboça uma visão global e coerente da convergência entre   psicologia e biologia.

Comece com genes. Beck e outros  especulam sobre um “gene azul”. Os investigadores estão, agora, começando a identificar genes específicos que possam tornar o cérebro “hiperativo para experiências negativas”, levando à depressão.
 
Por exemplo, um gene que afeta a  serotonina parece influenciar o modo como a probabilidade de um grande evento estressante irá conduzir à depressão. Estudos sugerem que o gene da serotonina também está vinculado a uma     tendência direcionada ao pensamento negativo.

Como um gene poderia levar a pensar negativamente? Bem, para    continuar o exemplo, o gene da serotonina parece  levar hiperatividade à amígdala, (que fique claro que é a amígdala cerebral !!), que é um centro emocional do cérebro.  

Estudos constataram que uma amígdala hiperativa está ligada à sensibilidade extra para  estímulos negativos,  tais como imagens ou acontecimentos desagradáveis. As pessoas acabam vendo o mundo de uma forma negativa - percebendo somente as ervas daninhas e não as flores.

Outros estudos sugerem que uma via biológica para a depressão envolve os hormônios do    estresse, que Beck resume desta forma: "Eventos estressantes  desencadeiam a hipersensibilidade exagerada da amígdala, produzindo uma  reação     negativa distorcida,  gerando excesso de  hormônios de estresse, levando à depressão. "

Há também uma peça de de cabeça para baixo no enigma:: mapeamentos cerebrais (tomografia,ressonância) encontraram que, em pessoas deprimidas, o córtex pré-frontal, conhecido como a sede do  pensamento racional, tende a ser hipoativo.

Estas pessoas deprimidas  não estão percebendo o necessário registro da realidade que diz:  "As coisas não são realmente tão     ruins”.  Isso pode ajudar a explicar como a terapia que incentiva as pessoas deprimidas a  "reavaliarem" as coisas pode  levantar o humor. A  terapia cognitivo-comportamental tem como  objetivo ajudar os doentes   incidindo sobre  problemas no seu pensamento e ensinando-lhes  formas de melhorá-los.

O que Beck diria hoje, se um doente perguntasse: "Por que estou deprimido?"

Sua resposta: "Eu diria que existe uma interação da genética, do desenvolvimento, e de fatores estressantes, e a contribuição de cada um destes fatores varia de indivíduo para indivíduo. Alguns indivíduos, por exemplo, ficam deprimidos apenas se houver um estresse muito grande. Outros são mais vulneráveis, devido à sua constituição genética, e tornam-se deprimidos com menor estresse."

E como  essas respostas seriam dadas, digamos, 20 anos atrás? Naquela época, então, ele teria enfatizado apenas os fatores psicológicos, e deixaria os fatores genéticos e biológicos "no ar”.

Ele acredita que mesmo um paciente que é biologicamente mais vulnerável à depressão pode ser auxiliado por terapia eficaz. Para pacientes gravemente deprimidos, ele recomenda a terapia cognitiva, juntamente com a medicação.

O modelo de Beck para a depressão evoluiu admiravelmente, mas isso não torna o problema da depressão mais simples, disse Philip Levendusky, diretor do departamento de psicologia do Hospital em Belmont. O modelo reflete o fato de que a depressão é complexa e tem muitas dimensões, disse Levendusky.

A ciência relativa ao cérebro fez incríveis avanços nos últimos anos, mas ainda está a anos-luz da compreensão da doença mental. A teoria de Beck é um instantâneo fotográfico do estado da ciência – isso é, disse Levendusky , "um grande salto além de onde nós estávamos, no “era uma vez” e, provavelmente, três grandes saltos para onde iremos finalmente estar."

Ainda assim, Beck termina seu artigo do American Journal of Psychiatry,  em agosto de 2008,dizendo que trouxe, com otimismo, uma resposta muito maior do que qualquer outra coisa que ele já tivesse escrito.

"Tenho razões para esperar que a futura pesquisa irá fornecer, talvez, um novo paradigma que, pela primeira vez, pode integrar os achados de estudos psicológicos e biológicos para construir uma nova compreensão da depressão", ele escreveu.

E, no entanto, disse Michael W. Otto, diretor da Boston Universitys Center for Anxiety and Related Disorders,(Centro Universitário para Tratamento de Ansiedade e  Doenças Relacionadas), a depressão pode ser tratada, mesmo sem um pleno entendimento de suas origens.

De qualquer forma que a depressão comece, ganha vida própria. "É um padrão que precisa ser quebrado", disse ele,"e há evidências de que  pode ser quebrado."
 
Comentários...
Data:26/01/2009
Nome:mara
O problema é que já nascemos com genética para depressão, mas ainda nào existe nem indício de uma terapia genética para tanto. Estas descobertas aliviam nossa consciência (não nos sentimos culpados por sermos doentes, nem inventamos coisas para fugir de um mundo ruim)mas não aliviam aquele aperto no peito nem o cinzento do mundo que pesa em nós.
Data:26/01/2009
Nome:Walkíria
Caro Aluizio,seus comentários são sempre de grande teor reflexivo.Faça-os sempre.
Data:26/01/2009
Nome:Renata
Os artigos estão cada vez melhores,bem esritos,de fácil compreensão e de conteúdo sério,informativo,Parabéns!
Data:26/01/2009
Nome:Rosângela
Muito bom o artigo de hoje.Imagina,em cada família não conheço uma que não haja alguém soferendo de depressão,isso é coisa muito séria!!
Data:26/01/2009
Nome:Walkíria
Essa coisa de rejeição é papo de Freudiano.Acho que a depressão tem mesmo a ver com liberação hormonal.
Data:26/01/2009
Nome:castro
Cada vez mais mais, a psicanálise parece um mecanismo de racionalização a posteriori do que uma causa real para nossos males psicológicos.
Data:26/01/2009
Nome:gabrielle
quer dizer que depressão não é mais rejeição pela mamãe ou algo do gênero? os psicólogos estão aprendendo então. rsrsrsrs.
Data:26/01/2009
Nome:Aluísio o cético
Me dá um grande alívio ver a depressão tratada com seriedade.
Data:26/01/2009
Nome:Aluísio o cético
Vi que andaram comentando meus comentários! Muito bom isso, e nesses assuntos espinhentos é melhor ainda.
 
 
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