No mundo da terapia, o Dr. Aaron T. Beck é uma estrela.
Considerado o pai da terapia cognitivo-comportamental, uma forma de tratamento psicológico que vem se espalhando pelo país nas últimas décadas, ele tem sido tão famoso por tanto tempo que alguns ficam surpresos ao descobrir que, aos 87 anos, ele ainda está firme no trabalho.
Beck apareceu recentemente com uma nova e abrangente teoria sobre a depressão, o humor sombrio que, em um dado ano qualquer, atinge um número estimado de 5% dos americanos (e, provavelmente,vai atingir uma percentagem mais elevada este ano).
Mais de uma geração atrás, Beck ajudou a derrubar a clássica ideia de que a depressão era a “raiva voltada para dentro”, uma forma de auto-punição. Em vez disso, ele sugeriu um modelo cognitivo da depressão - que é um problema de viés negativo e hábitos de pensamento. Qualquer falha significa, “Eu sou um perdedor”. Uma rejeição sugere, “Ninguém me ama.”
Agora, ele atualizou o seu modelo cognitivo com os mais recentes avanços nas ciências do cérebro e da genética, e os publicou no American Journal of Psychiatry. Beck,que é professor de psiquiatria da Universidade da Pensilvânia, adverte que grande parte da pesquisa que ele cita ainda é preliminar, mas esboça uma visão global e coerente da convergência entre psicologia e biologia.
Comece com genes. Beck e outros especulam sobre um “gene azul”. Os investigadores estão, agora, começando a identificar genes específicos que possam tornar o cérebro “hiperativo para experiências negativas”, levando à depressão. Por exemplo, um gene que afeta a serotonina parece influenciar o modo como a probabilidade de um grande evento estressante irá conduzir à depressão. Estudos sugerem que o gene da serotonina também está vinculado a uma tendência direcionada ao pensamento negativo.
Como um gene poderia levar a pensar negativamente? Bem, para continuar o exemplo, o gene da serotonina parece levar hiperatividade à amígdala, (que fique claro que é a amígdala cerebral !!), que é um centro emocional do cérebro.
Estudos constataram que uma amígdala hiperativa está ligada à sensibilidade extra para estímulos negativos, tais como imagens ou acontecimentos desagradáveis. As pessoas acabam vendo o mundo de uma forma negativa - percebendo somente as ervas daninhas e não as flores.
Outros estudos sugerem que uma via biológica para a depressão envolve os hormônios do estresse, que Beck resume desta forma: "Eventos estressantes desencadeiam a hipersensibilidade exagerada da amígdala, produzindo uma reação negativa distorcida, gerando excesso de hormônios de estresse, levando à depressão. "
Há também uma peça de de cabeça para baixo no enigma:: mapeamentos cerebrais (tomografia,ressonância) encontraram que, em pessoas deprimidas, o córtex pré-frontal, conhecido como a sede do pensamento racional, tende a ser hipoativo.
Estas pessoas deprimidas não estão percebendo o necessário registro da realidade que diz: "As coisas não são realmente tão ruins”. Isso pode ajudar a explicar como a terapia que incentiva as pessoas deprimidas a "reavaliarem" as coisas pode levantar o humor. A terapia cognitivo-comportamental tem como objetivo ajudar os doentes incidindo sobre problemas no seu pensamento e ensinando-lhes formas de melhorá-los.
O que Beck diria hoje, se um doente perguntasse: "Por que estou deprimido?"
Sua resposta: "Eu diria que existe uma interação da genética, do desenvolvimento, e de fatores estressantes, e a contribuição de cada um destes fatores varia de indivíduo para indivíduo. Alguns indivíduos, por exemplo, ficam deprimidos apenas se houver um estresse muito grande. Outros são mais vulneráveis, devido à sua constituição genética, e tornam-se deprimidos com menor estresse."
E como essas respostas seriam dadas, digamos, 20 anos atrás? Naquela época, então, ele teria enfatizado apenas os fatores psicológicos, e deixaria os fatores genéticos e biológicos "no ar”.
Ele acredita que mesmo um paciente que é biologicamente mais vulnerável à depressão pode ser auxiliado por terapia eficaz. Para pacientes gravemente deprimidos, ele recomenda a terapia cognitiva, juntamente com a medicação.
O modelo de Beck para a depressão evoluiu admiravelmente, mas isso não torna o problema da depressão mais simples, disse Philip Levendusky, diretor do departamento de psicologia do Hospital em Belmont. O modelo reflete o fato de que a depressão é complexa e tem muitas dimensões, disse Levendusky.
A ciência relativa ao cérebro fez incríveis avanços nos últimos anos, mas ainda está a anos-luz da compreensão da doença mental. A teoria de Beck é um instantâneo fotográfico do estado da ciência – isso é, disse Levendusky , "um grande salto além de onde nós estávamos, no “era uma vez” e, provavelmente, três grandes saltos para onde iremos finalmente estar."
Ainda assim, Beck termina seu artigo do American Journal of Psychiatry, em agosto de 2008,dizendo que trouxe, com otimismo, uma resposta muito maior do que qualquer outra coisa que ele já tivesse escrito.
"Tenho razões para esperar que a futura pesquisa irá fornecer, talvez, um novo paradigma que, pela primeira vez, pode integrar os achados de estudos psicológicos e biológicos para construir uma nova compreensão da depressão", ele escreveu.
E, no entanto, disse Michael W. Otto, diretor da Boston Universitys Center for Anxiety and Related Disorders,(Centro Universitário para Tratamento de Ansiedade e Doenças Relacionadas), a depressão pode ser tratada, mesmo sem um pleno entendimento de suas origens.
De qualquer forma que a depressão comece, ganha vida própria. "É um padrão que precisa ser quebrado", disse ele,"e há evidências de que pode ser quebrado." |
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| Comentários... |
| Data:26/01/2009 |
| Nome:mara |
| O problema é que já nascemos com genética para depressão, mas ainda nào existe nem indício de uma terapia genética para tanto. Estas descobertas aliviam nossa consciência (não nos sentimos culpados por sermos doentes, nem inventamos coisas para fugir de um mundo ruim)mas não aliviam aquele aperto no peito nem o cinzento do mundo que pesa em nós. |
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| Data:26/01/2009 |
| Nome:Walkíria |
| Caro Aluizio,seus comentários são sempre de grande teor reflexivo.Faça-os sempre. |
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| Data:26/01/2009 |
| Nome:Renata |
| Os artigos estão cada vez melhores,bem esritos,de fácil compreensão e de conteúdo sério,informativo,Parabéns! |
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| Data:26/01/2009 |
| Nome:Rosângela |
| Muito bom o artigo de hoje.Imagina,em cada família não conheço uma que não haja alguém soferendo de depressão,isso é coisa muito séria!! |
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| Data:26/01/2009 |
| Nome:Walkíria |
| Essa coisa de rejeição é papo de Freudiano.Acho que a depressão tem mesmo a ver com liberação hormonal. |
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| Data:26/01/2009 |
| Nome:castro |
| Cada vez mais mais, a psicanálise parece um mecanismo de racionalização a posteriori do que uma causa real para nossos males psicológicos. |
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| Data:26/01/2009 |
| Nome:gabrielle |
| quer dizer que depressão não é mais rejeição pela mamãe ou algo do gênero? os psicólogos estão aprendendo então. rsrsrsrs. |
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| Data:26/01/2009 |
| Nome:Aluísio o cético |
| Me dá um grande alívio ver a depressão tratada com seriedade. |
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| Data:26/01/2009 |
| Nome:Aluísio o cético |
| Vi que andaram comentando meus comentários! Muito bom isso, e nesses assuntos espinhentos é melhor ainda. |
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