Cresce a evidência de que os cérebros decidem antes de seus donos.
Toda as pessoas já tiveram a experiência. Você se confronta com um problema complexo, com uma solução não tão óbvia. Você reflete sobre ela, absorto, mas a resposta não virá. Temendo que fique preso para sempre, você vai dar um passeio. Então, de repente, do nada, Eureka!
Mas ela realmente vem do nada? Um trabalho de investigação a ser publicado no Journal of Cognitive Neuroscience, por Joydeep Bhattacharya no Goldsmiths College, em Londres, e Bhavin Sheth da Universidade de Houston, no Texas, sugere que, embora as pessoas não estejam conscientemente cientes disso, seus cérebros têm que estar em um determinado estado para um insght acontecer. Além disso, o estado pode ser detectado, eletricamente, vários segundos antes do momento "aha!".
A questão sobre de onde provêm os insights se tornou um tema quente em neurociências, apesar do fato de eles não serem fáceis de induzir experimentalmente em um laboratório. Alguns pesquisadores utilizam uma linha de programação de enigma como um exemplo de resultado perspicaz. Os críticos reclamam, porém, que isso é menos um insight do que um "outsight". Outros experimentos utilizam palavras tarefas. Assim como estes: a uma pessoa apresentam-se três palavras que, aparentemente, não têm a ver umas com as outras, como "saias", "preto" e "posto", e pede-se para virem com uma quarta palavra que pode criar uma ligação para cada uma das outras três. (Neste caso, "fora"). Porém, essas tarefas podem dizer mais sobre capacidade lexical do que sobre o verdadeiro insight (a verdadeira introspecção).
O Dr. Bhattacharya e o Dr. Sheth tomaram uma terceira abordagem. Eles selecionaram alguns cérebros provocando alguns problemas práticos, mas na esperança de que estes se aproximassem mimetizando o real insight. Para se qualificar, um enigma tinha que ser simples, não muito conhecido e amplamente metódico, sem uma solução. Os pesquisadores então pediram a 18 adultos jovens que tentassem resolver estes problemas, enquanto as suas ondas cerebrais eram monitoradas através de um electroencefalograma (EEG).
Um típico brain-teaser foi assim. Há três interruptores de luz na parede, perto do chão, de uma casa de três andares. Dois dos interruptores não funcionam, mas um deles controla uma lâmpada no segundo andar. Quando você começa, a lâmpada está desligada. Você só pode ir ao segundo andar uma vez. Como é que você conclui qual é o único interruptor que controla a luz?
Este problema, ou um equivalente a ele, foi apresentado em uma tela de computador para um voluntário que, quando este pressionava um botão. A atividade elétrica do cérebro do voluntário (seu padrão de ondas cerebrais, em linguagem comum) foi registrada pelo EEG a partir da pressão do botão. A cada voluntário foram dados 30 segundos para ler o enigma e outros 60 a 90 segundos para resolvê-lo. Se eles não tivessem feito isso no tempo previsto, uma dica aparecia. No caso do enigma do interruptor de luz, a sugestão é que você ligue um interruptor por um tempo e, em seguida, desliga-o.
Algumas pessoas deduzem isso, outras não. O ponto relevante, porém, foi que o EEG iria predizer sobre quem abandonaria onde. Esses voluntários, que passaram a ter um insight (neste caso com apenas uma visita ao segundo andar eles poderiam recorrer não só à luz, mas ao calor produzido por uma lâmpada como prova de um interruptor ativo) tiveram diferentes atividades de ondas cerebrais daqueles que nunca tiveram. No córtex frontal direito, uma parte do cérebro associado com a mudança de estados mentais, houve um aumento de ondas gama de alta frequência (com 47-48 ciclos em um segundo). Além disso, a diferença foi perceptível, de até oito segundos, antes de o voluntário perceber que ele tinha encontrado a solução. O Dr. Sheth pensa que esta pode ser a captura do "pensamento transformacional" (o momento de luz, como se fosse) em ação, antes que o cérebro do "dono" esteja conscientemente ciente disso.
Existe um precedente para essas observações do pensamento inconsciente em ação. Na década de 1980, Benjamin Libet, da Universidade da Califórnia, San Francisco, mostrou que simples decisões como, por exemplo, quando mover um dedo, são feitas cerca de três décimos de segundo antes de o dono do cérebro estar consciente delas, e um trabalho posterior verificou que as raízes de tais decisões podem ser vistas até dez segundos antes de se tornarem conscientes. Mas esta é a primeira vez que um prazo de execução tão longo foi mostrado para processos de pensamentos mais complexos.
Esta constatação, aliada a Libets, levanta fascinantes questões sobre como o cérebro realmente funciona. O pensamento consciente, ao que parece, não resolve problemas. Em vez disso, uma inconsciente transformação acontece, em segundo plano, e só fornece a resposta para a consciência, uma vez que ela já tenha chegado. A alimentação para uma maior reflexão, na verdade.
Nota do tradutor: brain-teaser – uma questão levantada para consideração ou solução; um problema difícil. |
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| Comentários... |
| Data:29/04/2009 |
| Nome:o cético |
| Só hoje li o blog. O Carlos foi ao ponto. Cada vez mais nos damos conta da extensão em que somos governados pelo inconsciente. |
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| Data:27/04/2009 |
| Nome:carlos b. |
| Não quero ser chato, mas como fica mesmo o livre arbítrio? Esta questão já esteve presente em posts anteriores e me parece das mais relevantes, filosoficamente, dentre todas as suscitadas pela evolução da ciência neural. |
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