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| Imprensa Especializada |
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Verdade na Mentira
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| Fonte: Psychology Today |
| Autor: Jonah Lehrer |
| Link: http://www.psychologytoday.com/articles/200907/unlocking-the-mysteries-the-artistic-mind |
| Tradução: Joana Alencastro |
| Data: 28/07/2009 |
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Considere aquela coisinha marrom fofinha que não voa, outrora conhecida como filhotes de gaivotas. Desde que eles são totalmente dependentes de suas mães no que se refere a alimentação, eles nasceram com um instinto poderoso. Toda vez que eles vêem um bico de passarinho, freneticamente começam a bicá-lo, implorando pela sua comida favorita: uma refeição regurgitada.
Mas esse reflexo pode ser manipulado. Exponha os filhotes a um bico falso – digamos, um graveto de madeira com um ponto vermelho como aquele que uma gaivota adulta tem no fim do bico – e eles vão bicar vigorosamente nesse “protótipo” também. Se os filhotes vissem um pedaço de madeira com três pontos vermelhos, eles bicavam ainda mais rapidamente. Abstrair e exagerar as características salientes da mamãe gaivota reforçam a resposta. O fenômeno é conhecido como “efeito mudança de bico”, já que a bicada no bico como resposta vem de um estímulo trocado. Nisso reside um dos princípios centrais da arte visual.
Em 1906, Pablo Picasso estava determinado a reinventar o retrato e levou o realismo até os limites, e um dos seus primeiros temas foi Gertrude Stein. Depois de meses em seu estúdio em Paris, cuidadosamente trabalhando e refazendo a pintura na tela, Picasso ainda não havia se dado por satisfeito. Ele somente terminou a pintura depois de ter feito uma viagem a Espanha.
O que Picasso viu lá que o afetou tão profundamente foi tema de inúmeros debates – a arte Ibérica anciã, os rostos desgastados dos camponeses espanhóis – mas seu estilo mudou para sempre. Quando ele retornou a Paris, ele deu a Stein a cabeça de uma máscara primitiva. A perspectiva foi achatada e o rosto dela tornou-se uma série de ângulos dramáticos. Picasso intencionalmente representou de forma incorreta diversos aspectos da aparência de Stein, tornando o retrato um dos primeiros de caricatura cubista.
Apesar da licença artística, a pintura ainda é reconhecível como Stein. Picasso utilizou as características mais distintivas dela – aqueles olhos tampados e pesados e o nariz aquilino – e as exagerou. Através de uma cuidadosa distorção, ele encontrou uma maneira de intensificar a realidade. Como Picasso colocou, “arte é a mentira que revela a verdade.”
O que é surpreendente é que tais distorções muitas vezes facilitam a enxergar e decifrar o que estamos olhando - particularmente quando elas são executadas por um mestre. Estudos demonstraram que somos aptos a reconhecer paródias visuais das pessoas – como retratos de cartum de Richard Nixon – mais rapidamente do que uma fotografia real. O fusiform gyrus (?), uma área do cérebro que envolve o reconhecimento facial, responde mais ansiosamente a caricaturas do que a rostos reais, já que os cartuns enfatizam as muitas características que usamos para distinguir uma face da outra. Em outras palavras, as abstrações são como o efeito da mudança de bico, tornando o trabalho da arte ou o cartum político um “super estímulo”.
A dissimulada conexão entre os instintos dos filhotes de gaivota e a arte abstrata é o trabalho de V.S. Ramachandran, neurocientista e diretor do Centro do Cérebro e da Cognição da Universidade da Califórnia em San Diego. Ramachandran acredita que o efeito da mudança de bico explica uma ampla variedade da arte, desde pinturas abstratas expressionistas até esculturas religiosas anciãs, como uma escultura religiosa indiana do século 12 da deusa Parvathi com feições femininas exageradas. Essas criações são todas exemplos de uma “hipérbole deliberada” que define o processo artístico, diz Ramachandran.
Nesse sentido, o trabalho de um artista é pegar formas mundanas da realidade – seja uma expressão facial ou uma tijela ou uma fruta – e fazer com que elas se tornem irresistíveis ao cérebro humano. Como Ramachandran colocou, “Se gaivotas tivessem uma galeria de arte, elas pendurariam um longo graveto com três pontos vermelhos na parede; iriam venerá-lo, pagar milhões de dólares por ele, chamá-lo de Picasso, mas não entenderiam porque foram enfeitiçados pelo mesmo. Isso é o que qualquer amante da arte está fazendo quando compra arte contemporânea: se comportando exatamente como essas gaivotas.” Ramachandran é um líder em neuroestética, um novo campo da ciência que usa as ferramentas da neurociência moderna, como tomografia cerebral, para desembaraçar os mistérios da arte.
Enquanto a maior parte dessa pesquisa é focada na arte moderna – é mais fácil estudar “hipérbole” visual em um Picasso do que em um Veermer – os cientistas acreditam que suas descobertas se aplicam a todos os artistas, até mesmo os chamados realistas. “Um Marciano que viesse a Terra ficaria muito curioso sobre o porque de toda essa gente ir a museus e olhar para representações bidimensionais,” diz Ramachandran. “Por que a arte funciona? Essa é a pergunta que estamos tentando responder.” |
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| Comentários... |
| Data:29/07/2009 |
| Nome:Vânia |
| Lindo texto! |
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