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| Autor:
Carmen |
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03/02/2006 |
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Completamos hoje a contratação de uma nova gerente para nossa loja, a Ex Libris. Escolher pessoas é complicado, pelo menos para mim. Gosto de conversar sem compromisso, sem pressão, descobrindo aos poucos o que o outro tem a dizer. Entrevistar objetivamente, emitindo uma saraivada de perguntas, analisando as respostas, procurando pontos fortes e fraquezas escondidas me é atividade penosa e desconfortável. Por isso, desta vez, terceirizei as entrevistas. Mas vamos aos poucos...
O processo começou com a colocação de um pequeno anúncio na edição de domingo de um jornal local, a Zero Hora. Anúncio pequeno, para não chamar muita atenção. Anúncio modesto, deixando claro que se tratava de um sebo, uma empresa pequena. Que os candidatos não esperassem grandes salários, que tivessem nível superior, que gostassem de livros e conhecessem o básico de informática. Deveriam ainda, os corajosos candidatos a esta vaga, nos enviar uma cartinha, um email, dizendo porque desejavam se aventurar neste mundo de autores esquecidos, bestsellers e ácaros. Apenas os mais persistentes deveriam ler o despretensioso reclame. Somente os que tivessem mais afinidade com o ramo deveriam se interessar pelo emprego e apenas aqueles realmente dispostos deveriam investir seu tempo em preparar currículo e escrever apresentações. Tais precauções tinham uma razão: receávamos ser invadidos por um dilúvio de currículos. Apesar da insistente propaganda governamental, o quadro de desemprego na classe média aqui em Porto Alegre é grave.
Apesar do salário moderado, da poeira e do exercício diário de carregar livros, o trabalho em um sebo tem seus encantos. Convive-se com pessoas que, regra geral, são interessantes e agradáveis. O ambiente de trabalho costuma ser leve, sem grades pressões e metas rígidas a cumprir. E há os livros, claro. Que mudam todo dia, que se oferecem a seu toque, a seus olhos, a sua curiosidade. Trabalhar em sebo enriquece sua vida, embora não seu bolso. Acho que o texto do Jeferson no blog do dia 30/01/2006 diz muito sobre a atividade. Sabíamos que teríamos muitos candidatos, talvez uns cem.
Mas não tantos. Recebemos mais de quatrocentos currículos. Gente das qualificações mais variadas, de PhDs a diplomados na “escola da vida”. Mestres, professores universitários, bibliotecários, arquivologistas. Amantes da literatura e escritores aprendizes. Profissionais de vendas, representantes comerciais, burocratas e ex-detentores de cargos políticos. De jovens procurando um primeiro emprego a precoces aposentados precisando voltar a trabalhar. Pessoas querendo mudar sua vida. De advogados a contadores a historiadores. Até um engenheiro e uma dentista. Já empreguei, em quase vinte anos, pessoas com todos estes perfis, algumas com muito sucesso.Como escolher?
Iniciamos definindo alguns critérios básicos: que viessem de uma formação básica em Ciências Humanas, que não fossem tão jovens, que tivessem alguma experiência em lidar com pessoas, mesmo que não necessariamente em vendas. Deveriam ainda ter escrito boas apresentações pessoais, texto correto, coerente, e com um toque de criatividade e bom humor. Estas opções facilitariam nossa escolha, mas também fechariam as portas a muitas pessoas potencialmente surpreendentes, ao acaso feliz. Há uma certa tristeza no processo, uma perda em cada currículo “descartado”. Mas vamos em frente. Feita esta primeira seleção, ainda restaram quarenta candidatos. De novo, como escolher?
Dividimos os candidatos em dois grupos. O vinte “favoritos” seriam entrevistados primeiro. Se não encontrássemos nosso futuro gerente entre eles, passaríamos ao segundo grupo. Então, deleguei a entrevista inicial para alguém com mais habilidade do que eu nesta seara. A idéia era selecionar cinco ou seis pessoas para a etapa final, quando eu participaria. Ao longo das entrevistas, iríamos conversando, refinando nossas idéias e avaliando os candidatos. Alguns destes candidatos, apesar de serem, possivelmente, excelentes profissionais de vendas, não tinham tanta afinidade com livros como gostaríamos. Em contrapartida, outras pessoas claramente tinham qualificação em excesso. Não seria possível mantê-las a longo prazo, fatalmente procurariam o famoso vôo mais alto. Precisávamos de alguém com a qualificação necessária e com a disposição de espírito adequada. E algo um tanto surpreendente aconteceu, antes mesmo da rodada final: acabamos convergindo para um nome: Janice. Pois Janice já está iniciando seu período de treinamento, e que seja benvinda!
Quero agradecer a todos os que participaram, especialmente os que aqui estiveram para a entrevista.
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