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| Epstein e as Livrarias Independentes |
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| Autor:
Carmen |
| Data:
03/04/2006 |
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Domingão clássico: almoço com a família numa galeteria e cinema - A Idade do Gelo. Parece meio caipira (não é!), mas dá um orgulho ver o nome do diretor na tela: Carlos Saldanha, um carioca gente boa. Depois da maratona, pude sentar e pegar para ler um livro que estava me esperando há algum tempo. Trata-se de “O Negócio do Livro” de Jason Epstein. Epstein é um editor norte-americano com uma história e tanto: entre outras coisas, inventou as edições de alta qualidade em brochura (anos 50!), fundou The New York Review of Books (que deu certo) e foi o pioneiro (bem antes da Amazon) na venda de livros online com The Reader's Catalogue (que não deu certo). Ele conviveu com toda a evolução (tecnológica e comercial) do setor na segunda metade do século 20, cultivando uma ambivalência inevitável em relação à inovação. Experiência muito rica, especialmente agora, que vivemos uma era de inovações frenéticas e onde os futuros do livro e da cadeia de distribuição não estão claros.
Mas não é do livro como um todo que quero falar aqui, mas de uma partezinha. Lá pelo final do livro ele aborda a questão das livrarias independentes, que discutimos aqui durante a semana passada. Vou transcrever abaixo um trecho, como um complemento ao que disse naqueles posts:
“As poucas livrarias de qualidade independentes, fortes o bastante para terem sobrevivido até os meados da década de 1980, eram os últimos membros de uma espécie em extinção. A Elliott Bay em Seattle, a Powell's em Portland, a Book Soup e a Button's em Los Angeles, a Black Oak e a Cody's em Bay Area, a Books and Co. Em Coral Gables, a Coliseum em Nova York, a Square Books em Oxford, Mississippi, a maravilhosa Northshire Books em Manchester, Vermont, estavam vigorosas e bem enraizadas em seus habitats, mas era improvável que se reproduzissem. Deste grupo, a mais impressionante era a Tattered Cover, de Denver, cujos 12 mil metros de espaço varejistas continham em meados da década de 1980, quando a visitei, mais de 100 mil títulos de inúmeras categorias, muitas das quais abarcando tudo o que existia impresso sobre um dado assunto, títulos tão esotéricos em alguns casos, que ficava impossível imaginar para quem haviam sido escritos. Os clientes podiam ler à vontade em sofás e poltronas, e os esclarecidos vendedores permaneciam a distância até serem requisitados. O setor infantil assemelhava-se a uma escola com uma única sala de aula, onde crianças de várias idades sentavam-se em banquetas ou no chão para ler. Denver jamais fora uma cidade muito livresca, porém num prazo de vinte anos a Tattared Cover havia se transformado de uma livraria típica de rua transversal com um nome tímido em uma das maiores livrarias do mundo. Criara um mercado para livros que nunca havia existido ou sido imaginado antes em Denver.
A Tattared Cover mostrou que existia um público potencialmente grande para as miríades de livros de catálogo que não podiam ser encontrados nos shoppings à época e que as editoras cada vez mais tinham dificuldade de manter em publicação. Ademais, Denver é uma típica cidade do Oeste, sem uma população universitária ou a reputação livresca de cidades tais como San Francisco e Boston. Fiquei matutando por que, se a Tattered Cover florescera em Denver, o seu sucesso não poderia ser reproduzido em outras cidades. Uma das grandes razões era óbvia. O proprietário da Tattered Cover é um gênio do marketing que escolheu vender livros em vez dos bens mais lucrativos pelos quais os outros iluminados como ele se sentem atraídos. Um tal talento dedicado aos livros é raro. Quando visitei a Borders original em Ann Arbor umas poucas semanas depois, descobri que havia uma outra razão para algumas lojas prosperarem sob certas condições locais e outras não.
Por causa de sua localização universitária, a Borders tinha uma aparência mais erudita que a Tattered Cover, mas suas categorias eram tão numerosas quanto as da outra, e seus estoques, quase tão abrangente. Diferente da Tattared Cover, a Borders não expunha pilhas dos últimos best sellers, mas em uma pequena estantes próxima à entrada deixava à mostra uma seleção semanal de títulos, novos e velhos, obscuros e atuais, que a equipe julgava que podiam interessar a seus clientes. De resto, o estoque era disposto com lombada à mostra em milhares de metros de prateleiras das quais Joe Gable, o gerente que me levou pela loja, podia selecionar um livro de olhos fechados. A Tattared Cover dava a impressão de uma mágica feira do livro, onde todos os livros do mundo podiam ser encontrados pela mera enunciação do nome de seu autor, porém a Borders era como uma biblioteca particular de um mítico polímata determinado a devorar toda a sabedoria do mundo.
Eu visitei a Borders com meu amigos Mort Zuckerman, também amante de livros e, por acaso, do ramo imobiliário. Minha idéia era de que poderia ser possível abrir uma loja como a Borders ou a Tattared Cover em Nova York, onde nada comparável existira desde a Eighth Street fechar dez anos antes. Viajar para Denver com Mort para esse fim teria implicados um pernoite. Uma viagem a Ann Arbor responderia a nossas perguntas em uma tarde. Acabou que nossas perguntas responderam a si mesmas quando Tom Borders declarou que precisava de mais espaço, mas que não podia pagar pela área recém-vaga que ocupava um canto de seu próprio prédio e pertencia a outro dono. Tom confirmava a conhecida lei do trade-off entre aluguel e estoque: um aluguel alto exige uma alta rotatividade e esta requer best sellers. A natureza do estoque de Tom impossibilitava que ele aceitasse a troca exigida pelo caro espaço adicional. Eu nada sabia de estrutura financeira da Tattared Cover, mas o mercado imobiliário em Denver à época de minha visita estava em baixa. A Tattared situava-se a pouco mais de um quilômetro e meio do distrito financeiro da cidade, em uma antiga loja de departamentos independente. Obviamente não pagava aluguel como os de Nova York, tampouco a Borders. Isto ajudava a explicar seus grandes estoques.” |
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