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Série Colaboradores
O Fim da Criatividade
Autor: Júlia Rosa
Data: 04/03/2008
 
O cinema foi inventado em 1895.
Reza a lenda que pelos os irmãos Lumière, que viram que na sua maravilhosa sociedade capitalista, faltava um pouco mais de “movimento”. Abençoados sejam eles, afinal.
Inicialmente depreciado como um passatempo vergonhoso e desconsiderado como arte, de uns tempos pra cá o cinema já foi elevado à sétima arte. Diretores como Hitchcock, Eisenstein e Fellini são tão aplaudidos quanto Van Gogh, Da Vinci e Shakespeare.
Desde então, o cinema viu surgir a proveitosa idéia de adaptar para a telona as grandes obras literárias. Afinal, quem não gostaria de ver seus personagens favoritos em carne e osso ao invés de se contentar só com a imaginação? Imaginação cansa alguma hora.


O dramaturgo William Shakespeare, por exemplo, que possui 300 adaptações de suas peças para cinema e televisão. Dessas 300, é seguro dizer que mais de 70 são apenas de “Hamlet” (e dentre essas, muitas deploráveis). Peça esta, que inclusive inspirou um desenho animado de um filhote de leão que queria ser rei. Pois bem, só recentemente que fui perceber que o desenho de Walt Disney é livremente baseado em “Hamlet”. Os elementos estão lá: o tio cruel e invejoso que mata o irmão para poder tomar o trono (apesar de não ter a cumplicidade da rainha, o que ia pegar mal num desenho transformar a mãe do protagonista numa cúmplice de assassinato), e o fantasma do papai que vem assombrar o filho, querendo vingança. Terminando o último ato em uma matança generalizada do elenco maligno (ops, contei o final!).


Aliás, Walt Disney era grande fã de adaptações literárias e poucos de seus roteiros eram originais. Desde fábulas de Hans Christian Andersen (“A Pequena Sereia”, que na realidade é um conto extremamente trágico) até Lewis Carroll e sua “Alice no País das Maravilhas”, passando por Victor Hugo e “O Corcunda de Notre Dame” (apesar de que Disney não teve a coragem de colocar a bela cigana casando com o anti-príncipe ideal, Quasimodo). De qualquer modo, é inegável a revolução que o tal animador trouxe para o cinema. Exemplo parecido é o mestre do suspense, Alfred Hitchcock. Fato que poucos sabem é que seus roteiros não eram nem de perto originais, sendo em sua maioria de escritores ingleses relativamente pouco conhecidos. Dizia o diretor que “livros ruins que dão filmes bons”.


Stanley Kubrick era outro que adaptava livros. Desde “Dr. Fantástico”, “O Iluminado” até “2001: Uma Odisséia no Espaço”. “A Laranja Mecânica”, seu mais aclamado filme, é uma adaptação do livro de Anthony Burgess, livro esse cujo capítulo final, obviamente ignorado por Kubrick faz toda a diferença na obra escrita. Obviamente cortado do filme para causar um impacto maior aos espectadores (imagina terminar um filme daquele modo? E ainda mais na década de 70!). Ultraviolência. Certas coisas ficam melhores visualmente se adaptadas e a redenção final do personagem não era uma delas. Enquanto eu creio que é esse capítulo que define o livro.


Tais diretores não devem ser desmerecidos pelo fato de terem adaptado livros ao seu bel-prazer. Tais diretores e muitos outros, afinal, mudaram a linguagem cinematográfica e a técnica do que era feito até então. Mudando aqui e ali conforme ficaria melhor na tela, porque enfim, cinema e literatura são amplamente diferentes. Enquanto o primeiro deve contar, essencialmente e num bom filme, a história através de imagens, o segundo se baseia em palavras.


Em todo caso, não se deve desmerecer essa relação. Muitos bons livros já foram adaptados para o cinema de modo satisfatório e alguns já superaram a obra escrita. “E o vento levou”, o calhamaço de Margareth Mitchell, virou um excelente filme, um épico grandioso e exemplo de filme de 3 horas e meia para os seus sucessores. O filme “Lavoura Arcaica”, outro exemplo de excelente adaptação no panorama nacional. Voltando a Shakespeare, o ator inglês Kenneth Branagh teve o cacife de dirigir uma adaptação de “Hamlet” com o texto completo, sem cortes ou reduções, deixando a obra com quase 4 horas de duração. Temos também a franquia “O Senhor dos Anéis”, cuja transposição para telas rendeu bilhões e 17 Oscar ao total, não deixando praticamente nada a desejar para o livro.
Enfim, muitas vezes o cinema recorre aos grandes literatos para salvar a falta de criatividade em seus roteiros. Cada vez mais, o cinema, não só o Hollywoodiano, mas inclusive o cinema nacional (vide o fenômeno “Tropa de Elite” e o atual “Meu Nome Não é Johnny”, ambos adaptações) se apóia nos livros para conseguir uma boa bilheteria. Cada vez mais eu vejo apenas filmes que são adaptações de livros, filmes que não deixam de ser excelentes, que não deixam de ter seu mérito, ainda mais quando tratam de livros que fazem parte da minha cabeceira. Eu, como aluna de cinema e devoradora de livros, adoro adaptações. Boas adaptações. Recentemente desenvolvi uma paixão incrível pela adaptação de 2005 do livro “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen. E todo santo ano estou lá na sessão de estréia de Harry Potter.


No entanto, é triste perceber que parece que a criatividade para roteiros originais não existe mais. A cada ano que passa, eu penso que o Oscar vai ter que retirar o prêmio de “Melhor Roteiro Original”. Eu olho a lista de filmes lançados na semana e é tudo adaptação! Adaptação de peça, adaptação de livros, adaptação histórica e a onda do momento, adaptação de quadrinhos. A cada mês é um novo super-herói que sai dos quadrinhos para a tela. Não que eu não goste, “300”, por exemplo, foi fantástico.
Dos 5 indicados ao Oscar de Melhor Filme (e o ganhador) desse ano, 3 são adaptações literárias: “Sangue Negro”, “Desejo e Reparação” e “Onde os Fracos Não tem Vez”. É frustrante perceber a dependência criativa do cinema para com os livros. Da necessidade de que se foi um sucesso editorial, TEM que ir pro cinema: “O Código da Vinci”, “O Segredo”, “A Profecia Celestina”, etc. Levar para o grande público, afinal. Por esse lado é até aceitável.


Muitos filmes adaptados de livros eu vi antes de ler e desenvolvi a curiosidade pelo livro. Por outro lado, existem filmes adaptados que eu vejo e penso que não vale a pena, tal como “Eragon”. Já ouvi muitos amigos dizerem que os filmes do Harry Potter já estão ali, então pra que ler? Sendo que o livro é mil vezes melhor que todos os filmes juntos. Muitos já me disseram que não tiveram coragem de ler o livro de “O Senhor dos Anéis” porque era muito longo, logo, foram ao cinema. Nos Estados Unidos é extremamente comum os alunos não lerem seus livros obrigatórios e irem nas locadoras alugarem as adaptações.


Na minha faculdade, é freqüente se dizer que “nenhuma história é original, apenas o modo de contá-la”. Partimos do princípio de que todos os sentimentos humanos já foram retratados, mas que a diferença surge em como tratá-los, como fazê-los mais verdadeiros ao atingir o espectador. Válido. Afinal, a maioria das pessoas lê e assiste filmes porque está atrás de sentimentos sinceros e histórias que elas nunca viveriam. E é nesse momento em que surge a linguagem, tanto a cinematográfica quanto a literária. O modo de retratar. O modo de contar aquela história. No cinema, são os planos, enquadramentos, movimentos de câmera, a música e o conjunto que faz com que aquilo nos deixe arrepiados. Nos livros, são as palavras, a estrutura da frase e a linguagem que fazem toda a diferença. Não sou estudiosa de escrita ou algo assim, mas pelos muitos livros que já li, eu sei diferenciar algo bem escrito de algo mal escrito. Algo que me dê prazer em ler ou que até mesmo seja difícil de ler, mas que mesmo assim, traga aquela sensação de que as palavras estão exatamente onde deveriam estar. E isso, bem, isso nenhum movimento de câmera consegue copiar.
 
Comentários...
Data: 05/03/2008
Nome: Flavio Maranhão
Concordo plenamente com a opinião da Júlia, prova disso são os "neos" que colocamos antes das palavras, neo-punkie, neo-liberal, neo-alguma-coisa, onde está a originalidade? resgatemo-a já.
Data: 05/03/2008
Nome: carlinhos
enfim alguém falando de livros por aí. bom texto.
Data: 05/03/2008
Nome: Diana C
Será que o problema não está do lado do público? Será que o público não é intelectualmente preguiçoso e não prefere o fácil o já conhecido?
Data: 06/03/2008
Nome: Geordana Cavalheiro Martins
Júlia, Júlia... Muito bom! Concordo contigo em muitas das tuas interpretações. Acredito de verdade que estamos caindo num vazio, num esgotamento da criatividade. Não temos o novo há muito tempo. O que se diz novo no mundo pós- moderno (agora o blá blá blá dos filósofos) na verdade é retorno... hum... isso não é plagio não, é "citação", Mircea Eliade diz isso em seu livro O Mito do eterno retorno, porém referindo-se a Grécia Antiga, enfim...
Arte para mim tem que ser assim, tem que deixar a gente "babando" seja de raiva, de descontentamento, de emoção, de admiração, de "nada" também serve.
Quanto às adaptações, creio que é mais fácil adaptar Shakespeare, por se tratar de uma peça teatral, do que um Machado de Assis (apenas pela pela questão estrutural da obra, que fique claro).
Não tenho medo de páginas como diz uma professora muito querida minha, os livros me atraem muito, sejam calhamaços ou não. Acho que o cinema, a literatura, a música, as artes em geral se completam, e para todas as artes, para todas as interpretações, é preciso imaginação, afinal somos "inventores de idéias" mesmo que simples, o tempo todo.
 
 
Veja também:
18/03/2008 Malandragem?
 
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