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Biblioteca Mindlin
Autor: Carmen
Data: 04/05/2006
 
Pois é. Estive semana passada em São Paulo e quase nada falei a respeito. Reclamei do aeroporto e foi só. Depois veio o feriadão e o lançamento do Artes da Traça, e o comentário sobre a viagem foi ficando para depois. Mas ao menos dois eventos têm que ser lembrados: minhas visitas a José Mindlin e a Odilon Cavalcanti.

Comecemos por José Mindlin. Nos conhecemos já há algum tempo, desde que promovemos aqui em Porto Alegre o lançamento e a sessão de autógrafos de Memórias Esparsas de uma Biblioteca na Feira do Livro de 2004. O lançamento foi conjunto com o lançamento de Memórias de Uma Guardadora de Livros, de Cristina Antunes. Hoje é impossível falar de Mindlin sem falar de Cristina. Cristina é a guardiã da grande biblioteca, é quem a opera de fato. Mas vamos devagar...

O Dr. José Mindlin mora em uma casa antiga, em um bairro tradicional de São Paulo. Mora lá há 56 anos. Neste longo período muita coisa mudou em sua vida, tornou-se um empresário importante, um dos pioneiros da exportação de produtos industriais no Brasil e secretário estadual da Cultura. Não ter mudado de endereço já diz alguma coisa (ou muita) de sua personalidade. Não é homem de ostentações ou deslumbramentos. Hoje, vive para os livros.

Estive lá com dois objetivos. Convidá-lo para participar da Feira do Livro de Porto Alegre, a convite da Câmara do Livro do Rio Grande do Sul e conhecer sua biblioteca. O convite foi feito e aceito, e logo começou a parte ralmente interessante da visita. Com grande gentiliza e espantosa memória, Dr. José foi me conduzindo pelas maravilhas que lá estão. Na sala mesma da casa, duas especialmente me seduziram: uma primeira edição aldina e um livro de horas. Por edição aldina entendem-se as obras editadas por Aldo Manuzio, o homem que definiu o que hoje entendemos por edição e por livro. E está lá o livro, com mais de quinhentos anos, lindo. Livros de horas são livros de devoção, produzidos manualmente na baixa idade média contendo elementos do breviário utilizado pelos religiosos. Eram feitos um a um, de acordo com os gostos de seu comprador. Os mais ricos os tinham luxuosos, com iluminuras douradas esplêndidas e serviam também como atestados do poder de seu proprietário. O que vi era um destes, com iluminuras brilhantes e fortemente coloridas. Quando penso em Idade Média sempre lembro de tons escuros, cinzas carregados, pastéis “sujos”, marrons fechados. Imagino o contraste representado por este livro de horas...

Mas isto foi só o começo. A biblioteca propriamente dita fica em um prédio ao lado, construído especialmente. Não sei se pela cor, com detalhes em vermelho, ou pela iluminação, mas o prédio me lembra o MASP. Lá fiquei aos cuidados da Cristina. Creio que lá estão TODAS as primeiras edições de obras relevantes da literatura e de estudos brasileiros. Pense em Castro Alves - está lá. Pense em Machado de Assis – está todo lá. Pense também em autores importantes não brasileiros, mas importantes para o Brasil, como Camões – a primeira edição dos Lusíadas também está lá. E muitos, muitos outros: viajantes, ilustradores, crítica – está tudo lá. Não vou descrever, nem conseguiria. Para mim, traça impenitente, foi absolutamente emocionante.

Vou terminar citando duas “coisinhas” que me emocionaram especialmente: manuscritos do padre Vieira (cujo texto é absolutamente contemporâneo) e a Flora Brasiliensis.
A Flora brasiliensis é, como o nome diz, uma compilação ilustrada da flora brasileira. Foi produzida entre 1840 e 1906 por Carl Friedrich Philipp von Martius, August Wilhelm Eichler e Ignatz Urban, com a participação de 65 botânicos de vários países. Traz 22.767 espécies e 10.367 páginas, no que é considerado o melhor trabalho do gênero já feito. Até aí, tudo normal. O que é anormal é a qualidade das ilustrações, que é, apenas, inacreditável.

E assim, entre fofocas sobre velhos livros e histórias de garimpagem em sebos pelo mundo, o dia passou. Não tenho como agradecer ao Dr. José e à Cristina por um dia como esse. Aí vão algumas fotos desse dia agradabilíssimo.
 
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