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Série Mercado Livreiro
De novo, o fim do livro.
Autor: Carmen Menezes
Data: 04/06/2007
 
Há algum tempo andei escrevendo sobre o impacto das novas tecnologias sobre o mundo do livro.

Argumentei que o fim do livro ainda não havia chegado, que há barreiras legais, tecnológicas, de usabilidade e de credibilidade a serem vencidas. Mas, ao final, reconheci que a evolução do livro se dará na direção da eletrônica, e que isto é inevitável.

Pois bem, neste final de semana me deparei com o competente texto do jornalista Eduardo Nasi, no caderno Cultura da Zero Hora, sobre o mesmo tema. Quem é de Porto Alegre, e tem interesse no setor, já deve ter lido, mas vou reproduzí-lo abaixo para o imenso público de outras plagas. Vale a pena ler.


Zero Hora - RS (02/06/2007)
O livro (ainda) não acabou
EDUARDO NASI


Diferentemente do que anunciava artigo publicado pelo inglês The Guardian e reproduzido pelo último Cultura, novíssimos aparelhos digitais podem sim ameaçar o futuro do livro como se conhece hoje.

Semana passada, o Cultura pôs na capa a chamada: "E o livro não acabou". Faltou o "ainda". Há pelo menos quatro projetos de leitores de livros digitais em andamento. Como esse tipo de projeto geralmente é confidencial, dá para supor que a maior parte dos fabricantes de eletrônicos está criando um. Grosso modo, são iPods para leitura. Nada a ver com aquelas telas de notebook sem teclado, planas e duras, que tentaram vender como livros digitais uns anos atrás - e que, naturalmente, fracassaram antes de chegar às prateleiras. Os novos livros digitais são telinhas mais ou menos da espessura e do tamanho de um livro pequeno. São flexíveis e leves. E os criadores de algumas delas têm o cuidado de pesquisar um sistema em que a tela não emite luz como os monitores comuns. Ou seja: os desenvolvedores estudaram as vantagens do papel e estão transpondo-as, uma a uma, no aparelhinho. O troço vai sair a qualquer momento.

As possibilidades são fascinantes. E estão muito além de carregar uma biblioteca no bolso. Em tese, o leitor poderia armazenar músicas no aparelho, plugar um fone de ouvido e curtir a biografia de Bob Dylan ao som da discografia do roqueiro. Ou, de repente, a telinha pode vir com um dicionário em sua memória - em caso de dúvidas, toca-se na palavra e se tem acesso a uma janela com o significado, mesmo na beira da praia. Talvez venham até com joguinhos literários: o computador escolhe um trecho aleatório da biblioteca virtual, e o leitor tem que adivinhar o significado. E há coisas mais simples: ninguém precisa de uma biblioteca portátil, mas tirar férias e levar vários livros de receita para uma casa na Serra pode ser tentador. Sem falar que livros deixariam de custar R$ 40 e cairiam para a casa dos R$ 2 ou R$ 3. Com os altos custos do exemplar de papel, um leitor razoável recuperaria o investimento em um aparelho de, estimando, R$ 800 em apenas um ano.

Nem tudo é perfeito, claro. A bateria pode acabar - mas a chegada dos livros vai coincidir com uma nova geração de baterias recarregáveis que será usada em celulares e durará em torno de um mês. E, em aviões, a leitura ficará proibida na decolagem e na descida.

A indústria livreira não acredita que o livro vai mudar. Acha que o aparelhinho, mais uma vez, não fará cócegas no vitorioso papel. O que, é verdade, pode acontecer. Mas é curioso que o mercado editorial tenha um comportamento tão parecido com o das grandes gravadoras uns anos atrás. Quando o MP3 surgiu, as majors deram de ombros. Diziam que ninguém ia ouvir música no computador. Mas aí veio o Napster - com música grátis para as massas - e o iPod - MP3 player bonitinho e ordinário, mas com um som perfeito, que se tornou o divisor entre quem era cool e quem não era.

As gravadoras não pararam de vender CDs nem de ganhar dinheiro. Mas, mês a mês, vendiam menos CDs e ganhavam menos dinheiro. O modelo de negócios ficou inviável. Por teimosia, as majors não enxergaram o que estava acontecendo ao seu redor. Demoraram para se adaptar. E pior: por muito tempo, viram o MP3 como inimigo, uma sujeira a ser escondida debaixo do tapete. Só que o pó era, na verdade, um elefante. E ele ficou solto na sala.

Chega a ser inocente imaginar que boa parte do público leitor não migrará para os novos livros digitais. Hoje mesmo, há muita gente lendo já na tela do computador. E já há até um sistema de distribuição de pirataria armado. Com a retirada de circulação da biografia de Roberto Carlos, o livro ganhou uma versão digital ilegal e acabou se tornando o primeiro fenômeno de downloads do Brasil - circula em blogs e correntes de e-mails. Nos mesmos sites que permitem o download ilegal de séries de TV, MP3 e filmes, há espaço para livros piratas.

Numa área muito mais próxima dos livros do que o audiovisual, as revistas em quadrinhos, também impressas, são escaneadas e distribuídas de graça na web. No Japão, há duas semanas três adolescentes foram presos por publicarem na Internet um mangá pirateado. A prática é comum inclusive no Brasil, onde hordas de fãs traduzem HQs inéditas e publicam-nas em blogs e fóruns antes mesmo de elas serem editadas legalmente no país. A mensagem é clara: mesmo sem um aparelho apropriado, a leitura em tela já é uma realidade para um nicho. (E aqui dá para propor um teste: ofereça hoje a um fã de Harry Potter o último livro da série em um arquivo de computador e veja se ele não lerá as centenas de páginas na tela mesmo.)

Esses leitores provavelmente serão o que a indústria de tecnologia convencionou chamar de early adopters - os primeiros consumidores de um produto, responsáveis pelo começo da cadeia de adoção dos gadgets. E, para popularizar o livro digital, a indústria certamente contará com outros aliados, menos cultuados que os livros. Jornais e revistas, mais descartáveis que romances, podem promover um grande impulso para os aparelhos. Há indícios de que o gigante de mídia norte-americano Hearst estaria planejando lançar um leitor digital para seus jornais. O conglomerado nega, mas outros jornais e blogs de lá afirmam ter pistas sólidas. As vantagens para o consumidor são várias - o jornal, como um site de notícias, pode ser atualizado na hora em que o leitor quiser. E também poderá ser customizado de acordo com os interesses do usuário - que pode escolher esportes e economia, mas dispensar o resumo de novelas.

Para o Brasil, o cenário de um livro digital tende a ser ainda mais grave, a não ser que as editoras e livrarias comecem a se mexer muito rapidamente. Por um lado, as grandes editoras de capital brasileiro raramente estão ligadas a grandes grupos de mídia, ao contrário do que se vê nos Estados Unidos e na Europa. E ainda enfrentam as multinacionais, como a Planeta, que entraram no mercado daqui dispostas a tomar espaço. Por outro, as editoras brasileiras trabalham com tiragens iniciais baixas, atualmente em torno de 2 mil exemplares (versus, muitas vezes, 50 mil nos Estados Unidos). Com a difusão do livro digital, qualquer perda é significativa - 100 livros podem significar a diferença entre lucro e prejuízo. Se há queda nas tiragens, o preço naturalmente sobe, o que motivaria mais gente a pagar um pouco mais caro por um aparelho de leitura.

As baixas tiragens se relacionam diretamente com uma remuneração relativamente baixa do autor brasileiro. E, aqui, há uma coincidência feliz. No mesmo dia em que o Cultura publicou o artigo de John Crace, do Guardian, afirmando que a Internet não dá dinheiro para quem trabalha com livros, outro inglês, o escritor e quadrinista Warren Ellis, enviou aos leitores de seu boletim um texto elencando formas de autores se autopublicarem e lucrarem na web. Como sugestões de fontes de renda, aparecem a inclusão de anúncios do Google nos sites, parcerias com comércio eletrônico como Amazon (no Brasil, Livraria Cultura e Submarino possuem o mesmo sistema) e o site Café Press, em que o autor pode criar e vender quinquilharias como camisetas e canecas com o tema de sua obra. (De novo, o exemplo apoteótico de Harry Potter - imagine se J. K. Rowling tivesse feito isso.)

É instigante imaginar o impacto das transformações de um leitor com uma biblioteca na mão. Vai que ele se torna um ser mais ansioso, tentando ler mais obras mais rapidamente - contos em vez de romances. Ou que a nova tecnologia atraia gente que há tempos não toca sequer em uma noveleta. Será que os sebos ficarão entupidos de velhas bibliotecas a preços baixíssimos, à espera de quem hoje não tem dinheiro para comprar sequer um livro usado?

Assim como a música não acabou com a chegada do MP3, nada indica que a literatura terá seu fim com a aposentadoria do suporte de papel. E, por enquanto, parece que teimar contra uma transformação da leitura é, no mínimo, sinal de ausência de curiosidade e de imaginação - por sinal, características e pré-requisitos para qualquer bom leitor.

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