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| De novo, Net Neutrality |
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| Autor:
Carmen |
| Data:
04/08/2006 |
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Recebi ontem um simpático email me questionando sobre um blog anterior, onde o assunto era Net Neutrality. Dei uma parada no trabalho braçal da mudança e, como o tema continua em debate, aí vai minha resposta:
Bruno,
Sou historiadora de formação. Como tal, minha visão é mais sistêmica do que técnica. A meu ver, o que está em jogo é muito mais do que a fixação das tarifas, ou de quem vai pagá-las. Vou listar alguns pontos que considero relevantes:
A Internet não é só um meio de comunicação. É o ente definidor de nossa civilização daqui para a frente. A extensão e profundidade em que a web vai condicionar nossa vidas ainda não estão claras, mas serão tremendas.
Como o futuro da web ainda é um tanto indefinido, no sentido acima, os grandes players estão se posicionando agressivamente, tentando garantir “espaço” futuro neste ambiente.
A luta pelo domínio na Internet se dá em várias frentes: o de sistemas operacionais, o de telecomunicações e o de controle sobre conteúdo e direitos autorais talvez sejam os mais importantes.
Estes grandes participantes (Google, Yahoo, Microsoft, Amazon, telecoms, etc) não estão preocupados somente com os lucros de curto prazo. A dominância a longo prazo é o verdadeiro objetivo.
É impossível saber a priori os acordos entre eles ou como esperam remunerar seus investimentos. Os grandes “criadores de tráfego” podem ser inclusive remunerados pelas telecoms, como já aconteceu com os provedores de Internet grátis.
Como usuários da Internet, somos todos viciados em velocidade. A banda larga é padrão no mundo desenvolvido, com desempenho cada vez maior. E já há várias novidades tecnológicas apontando para velocidades até 100 vezes maiores do que as atuais. Ninguém espera para ver um site lento. Os lentos são simplesmente abandonados. E este é o ponto principal para se entender as consequencias de uma estratificação da Internet.
Com a “two-tier internet”, ou internet em dois andares, como prefiro chamar, os fornecedores de conteúdo seriam divididos em duas categoria, talvez em várias. Quanto mais você pagar, mais rápido será o tráfego de seu site. De certa forma isto já é assim: servidores compartilhados são lentos; servidores exclusivos são mais rápidos. Mas a diferença pode crescer enormemente, fazendo com que os sites hospedados em servidores compartilhados de provedores com menor largura de banda e utilizando serviços do “andar de baixo” sejam praticamente alijados da rede, já que ninguém vai ter paciência para esperar que as informações cheguem. Note que isto tudo é agravado pela tendência a se misturar áudio e vídeo na Internet, que consomem muita banda.
Os “pequenos”, como blogs, grupos de discussão e pequenos negócios não podem competir financeiramente com os grandes. Teríamos uma realidade semelhante à situação atual dos meios de comunicação: só as grandes empresas anunciam na Globo, por exemplo. A Traça bem que gostaria, mas um anúncio de 30 segundos no horário nobre provavelmente custa mais do que nosso faturamento mensal.
Do ponto de vista econômico, seria um desastre anti-competitivo. A Internet é o principal instrumento de transparência e de comparação de preços . A eficiência da economia como um todo cairia, fortalecendo-se os oligopólios. E milhares de pequenas empresas desapareceriam.
Do ponto de vista cultural seria uma catástrofe, com o conteúdo cada vez mais concentrado em meia dúzia de grandes fornecedores. O fantástico evento da blogosfera, por exemplo, seria prejudicado. Quem vai pagar para emitir uma opinião? Quem vai pagar para fazer um comentário político?
Voltando ao caso do Google: este seria diretamente prejudicado pela emergência de uma Internet de dois andares. O grosso das receitas do Google vem de publicidade de pequenas e médias empresas, no programa AdWords, que muitas vêzes só existem em função da Internet. A Internet de dois andares as liquidaria.
As consequencias desta nova Internet seriam muitas,e quase todas desagradáveis. Talvez seja mesmo o fim de uma era, uma das mais interessantes da História... |
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