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| BIBLIOCLEPTOMANIA |
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| Autor:
Carmen |
| Data:
07/03/2006 |
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Para aquele que rouba ou toma emprestado e não devolve um livro de seu dono, que o livro se transforme em serpente em suas mãos e o envenene. Que seja atingido por paralisia e todos os seus membros murchem. Que definhe de dor, chorando alto por clemência, e que não haja descanso em sua agonia até que mergulhe na desintegração. Que as traças corroam suas entranhas como sinal do Verme que não morreu. E quando finalmente for ao julgamento final, que as chamas do Inferno o consumam para sempre.
Esta inspiradora exortação está (ou esteve) inscrita na biblioteca do mosteiro de São Pedro, em Barcelona. Todos os bibliófilos que conheço a aprovam. Alguns até a consideram branda, prefeririam um sofrimento maior para o ladrão de livros. Por que tanta fúria? No longo período que antecedeu a popularização do livro impresso, seria até compreensível. Livros eram objetos raros, caros, às vezes únicos e muitas vezes insubstituíveis. A posse de um livro único era quase que a posse do passado. O ladrão de livros, de certa forma, poderia reescrever a história. Mas, e hoje, por que tanto ciúme?
Que muitas pessoas estabelecem relações possessivas violentas com suas bibliotecas não é novidade. Conheço muitos “acumuladores”, pessoas que compram livros compulsivamente, não os lêem, ou lêem apenas superficialmente, e os guardam. Alguns chegam a ocupar vários imóveis com seus livros. Um psicanalista talvez dissesse que estas são características de um caráter “retentivo-anal”. Não são estas as pessoas em que estou pensando. Estou pensando apenas no amante de livros “normal”. As teses para explicar o fenômeno são muitas e não vou abordá-las. Quem quiser se deliciar com o assunto que leia “Uma História da Leitura”, de Alberto Manguel. Quanto a mim, que sou também ciosa de meus livros, entendo que o livro representa uma parte de nosso passado. Uma parte visível, que pode ser tocada, cheirada. Um livro lido não é só um conjunto formado por papel, tinta e informações. Acima de tudo, ele nos evoca quem éramos no momento em que o lemos. As esperanças, paixões e sofrimentos daquele momento estão ali. Os universos evocados pela leitura podem ser imediatamente redescobertos quando abrimos o volume. A proverbial mancha de café na capa nos devolve ao exato momento em que o derramamos. Livro como âncora do passado. Ao perdê-lo, perdemos uma referência, vaporiza-se nossa própria história, nos perdemos de nós mesmos.
É, o crime é grave e o ladrão de livros merece mesmo um castigo maior do que aquele que nossos bons monges lhe desejam...
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