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Net Neutrality III
Autor: Carmen
Data: 08/08/2006
 
Volto hoje a meu diálogo com o jornalista Bruno Neumann e ao assunto Net Neutrality. Segue o email em que ele questiona meus pontos de vista e, depois, minha resposta.

Carmem, se tu me permites, vou fazer um pouco o papel de advogado do diabo.

Os tubos pelos quais circulam a informação na Internet devem passar por uma renovação, devem ganhar em qualidade e principalmente velocidade. A idéia de quem é contra a Neutralidade da Rede não é a de passar o custo desta evolução àqueles que podem pagar (Google, Amazon...), em vez de destribuir uniformemente entre os consumidores individuais?

Usa-se muito a expressão pay to play. Ou seja, quem quer utilizar conexões mais rápidas, deve pagar por isso. Faz sentido?

Bate-se também muito na tecla do perigo que seria um controle governamental da rede. Justamente por sua natureza democrática e aberta, seria contraditório que se aplique qualquer tipo de regulamentação sobre o seu funcionamento.

O tráfego na rede atingiu tal volume que se faz necessário algum tipo de priorização do conteúdo (nesse caso, fica a questão de quais seriam os critérios para esta priorização. Dinheiro, presumo)

Com a Neutralidade da Rede, todo o conteúdo seria entregue a uma mesma, lenta velocidade

Procurei listar alguns dos argumentos mais frequentes de quem se coloca contra a Neutralidade da Rede, pra que a nós possamos estabelecer uma dialética.

Do ponto de vista hstórico, tu consideras a cubercultura análoga ao movimento de contracultura que se viu na década de 60? Nos seu aspecto libertário, e sua proposta de caminhos alternativos aos colocados pelo sistema, tu achas que isso faz sentido?

Muito obrigado, Bruno Neumann

Perdão, mas no último mail esqueci de acrescentar uma questão: a recente mudança da AOL, que resolveu que vai oferecer a maioria de seu conteúdo de graça, em busca de receita de anunciantes, como funcionam os outros grandes players, diz o que no meio desta discussão? É um indicativo de que, de fato, o dinheiro que há pra ser feito na Internet não parte do consumidor final, que não está disposto a pagar pelos serviços que utiliza, mas sim da propaganda?



... a seguir a minha resposta, um tanto mal-humorada:

Ironicamente, nosso provedor está com sérios problemas desde domingo, e o resultado é uma lentidão enorme do site, quando funciona...

Como você sabe, estamos ainda em meio a uma atividade frenética para voltarmos a funcionar normalmente, depois de uma mudança radical, de espaço e de processos. O que quer dizer: respostas curtas!

É importante notar que há muitos argumentos fora de lugar nesta discussão toda, especialmente os econômico/financeiros. O que estamos tratando no tema Net Neutrality não é a equação financeira, quem paga o quê e quanto. A rede vai condicionar totalmente nossa civilização nas próximas décadas. É uma questão de fundo, mais próxima de um debate sobre Constituição do que sobre regulamentação de telefonia. Os argumentos financeiros são simplesmente falaciosos, centrados no curto prazo e muitas vezes usados de má-fé. Note que vários economistas de fama mundial (em oposição aos lobistas das telecoms) se manifestaram a favor da igualdade de condições na rede. Ninguém nos US debate os pontos fundamentais da Constituição, a liberdade de expressão ou a necessidade de manter uma competição justa e impedir os monopólios. A igualdade de acesso ao ciberespaço, a meu ver, está no mesmo nível.

Este argumento de que os grandes (Amazon, Google etc) devem pagar a conta é patético. De onde sai o dinheiro? Dos consumidores...

Pay to play faz sentido no curto prazo. No longo prazo, neste caso, inibirá a competição. Estamos tratando de longo prazo. Besteira lobista, portanto.

Um dos papéis fundamentais do Governo é garantir a concorrência justa. Garantir a concorrência não é regulamentar...argumento de profunda má fé...apela aos sentimentos básicos anti-governo dos norte-americanos...

Quanto ao volume de tráfego na rede, outra besteira. Há excesso de banda e a tecnologia está se adaptando rapidamente às grandes demandas por áudio e vídeo. Em cinco anos, ninguém se lembrará de que “faltou banda”.

Quanto à cibercultura: até o momento gerou mais dinheiro do que todos os hippies da contracultura juntos conseguiriam sonhar. Se isto é “alternativa ao sistema”...leia-se o jovem Marx: o sistema se adapta e engloba tudo...

O dinheiro, por enquanto, está mesmo na publicidade. Tenho uma tese algo incomum a respeito: acredito que uma das dificuldades de se cobrar por serviços na rede está na complicação do processo. Você tem que abrir seus dados, inclusive e principalmente de cartão de crédito, a toda hora, em condições de segurança apenas razoáveis. Quando houver algum tipo de “conta internet” que funcione sem atormentar os usuários, com a qual você possa pagar valores pequenos facilmente, esta atitude deve mudar, ao menos em parte.

Vou publicar esta nossa discussão também. É relevante.

Abraço!

Carmen Menezes
Traça
 
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