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| EU SEI TUDO? |
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| Autor:
Carmen |
| Data:
09/01/2006 |
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Calor senegalesco. Adoro a expressão. Detesto a realidade que ela traduz. Pois hoje vivemos aqui em Porto Alegre um calor senegalesco. Quem vive mais ao norte tende a pensar no Sul como um lugar de clima temperado, mais ameno no verão. Engano! Muito calor com umidade alta são comuns por aqui e explicam o êxodo que a cidade sofre nos meses quentes. Quem pode, foge para as praias. Mas, como na célebre crônica do Luís Fernando Veríssimo, estes talvez sejam os melhores meses na cidade. Não tem engarrafamento. Os restaurantes que funcionam (alguns fecham nesta época!) não tem filas. Ir ao cinema volta a ser um ato civilizado. Para trabalhar, no entanto, a época é cruel. Fico trancada no ar condicionado, não me arrisco muito lá fora...
Mesmo assim, colocamos no ar a primeira parte da exposição sobre a revista Eu Sei Tudo. A mostra ainda receberá alguns aperfeiçoamentos, como legendas das imagens e controles da apresentação de slides. A preparação desta exposição está sendo paradoxal. Por um lado, um certo deslumbramento com a publicação, tão diferente do que temos hoje. Uma certa “finesse“ misturada com ingenuidade. A curiosidade de ler sobre os “avanços científicos” da época. A crônica da Guerra. O início de uma cultura de celebridades. Pedaços de boa literatura e a divulgação acintosa e impune de anúncios de produtos fantasiosos, com poderes “maravilhosos”.
Por outro lado, ao tentarmos pesquisar sobre a publicação, pouco, quase nada, encontramos. Não há ensaios, dissertações ou teses sobre a revista. Aparentemente, para nosso meio acadêmico, é como se a publicação, que durante quarenta anos foi muito lida e ajudou a formar gerações de cidadãos não tivesse existido.Ninguém tentou analisar seu discurso, seu posicionamento político ou seus méritos literários. As poucas referências que encontramos tratam da divulgação científica feita pela revista. O contraste entre a importância real da revista, sendo comprada e lida por milhões de pessoas, e sua falta de importância em nossa reflexão intelectual e acadêmica me faz pensar. Será que nós (e aí, eu, como historiadora, me incluo) não nos afastamos mesmo da realidade, fugindo para o limbo da tal torre de marfim acadêmica, discutindo questões de uma “estética superior” e esquecendo o país verdadeiro? Será que esta postura não ajuda a explicar alguns fenômenos recentes, como o absoluto fracasso da “intelligentsia” em lidar com a crise política que vivemos?
Não vou me alongar por esta seara pantanosa. Vamos continuar pesquisando e mostraremos aqui o que encontrarmos. Está em nossos planos expor as capas e índices do período 1917-1930, bem como algumas páginas de especial interesse, como o tratamento dado às mulheres e às descobertas científicas. E, naturalmente, não vamos resistir a publicar muitas páginas com os deliciosos anúcios da época.
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