Sempre fui muito econômico com as palavras, ainda quando criança, quando ainda desvendava o mundo e as coisas, minha mãe preocupou-se comigo. Eu era uma criança quieta. As professoras da creche, onde eu ficava, estranhavam meu comportamento solitário, pois, eu não brincava com as outras crianças, me contentava comigo, brincava comigo mesmo, inventava um mundo e acreditava nele. A preocupação de minha mãe foi tamanha que chegou a me levar a um médico, pois, ela e as professoras, desconfiavam que eu sofria de autismo . Fiz alguns exames, mas não deram em nada. O médico disse que eu estava muito bem, e que eu era assim mesmo; quieto. Só mais tarde fui me dar conta de que, diante da minha vida inventada, eu exercia poesia. Soletrava no meu mundo uma espécie de poética do silêncio.
Na semana passada estava almoçando com um grupos de professores, até que um de meus colegas disse para o grande grupo “o Tennório está triste, esta tão quieto”. Senti-me um pouco culpado por não compartilhar do assunto. Mas não havia tristeza em mim, pelo contrário, agradava-me estar ali. Percebi que estamos proibidos de fazer silêncio e que ser taciturno é um atestado de tristeza. A verdade é que tenho muito medo das palavras, quem lida com elas sabe a força que elas tem. Sempre tive a impressão de que a palavra dita, falada, tem grande poder, porque ela vem acompanhada de saliva, de bactérias, de vida. Soletrar uma palavra é um acontecimento físico, as ondas sonoras que emitimos são concretas, espalham-se no ar. Já o silêncio é sensorial, é metafísico.
O escritor Rubem Alves certa vez disse que “é do silêncio que nasce o ouvir, só posso ouvir a palavra, se meus ruídos interiores forem silenciados. Só posso ouvir a verdade do outro, seu parar de tagarelar”. Este “saber ouvir” que Rubem nos fala está esquecido e abandonado por nós, pois, não sabemos o silêncio, não sabemos os seus significados e a sua importância, que o silêncio também ensina, o silêncio também é musica. Quando o poeta alemão Raine Maria Rilke disse num poema que gostaria de ser a pausa entre notas musicais, ele queria dizer que o êxito e a perfeição de uma composição está atrelada aos espaços entre as notas, às centelhas de silêncios. Portanto, é no silêncio que escutamos a vida, é só neste estado que escutamos a sinfonia do mar, os sons das ondas, a orquestra das águas.
Sempre que participo de alguma reunião importante as minhas palavras somem misteriosamente. Assim, quando tenho vontade de falar, muitas vezes a palavra anoitece em minha garganta, então não digo, me aprofundo. Espero por aquilo que fica atrás das palavras, até que, magicamente, elas brotam dos meus alicerces e então me expresso, falo com as verdades que acredito.
Clarice Lispector tinha toda razão quando disse “feliz daquele que sabe que por detrás das palavras permanece o indizível”, pois é preciso saber que a palavra não diz tudo, ela uma tentativa imperfeita de traduzir a realidade. Portanto, aquilo que não é dito, é porque está sendo gerado, aguardando a sua vez de existir.
Este longo aprendizado pelo silêncio me fez perceber que uma amizade só é verdadeira quando o silêncio entre os amigos não incomoda, que o amor só é pleno quando silêncio conforta. È claro que silêncio também machuca, também constrange. Imagine a situação de alguém que espera por uma declaração de amor e recebe um silêncio sepulcral, ou quando eu digo uma anedota para os meus alunos esperando risos no final e recebo um silêncio cruel, mas isso é parte da vida, pois nem sempre o silêncio irá revelar o mistério do outro, entretanto, nem sempre quem cala consente, silenciar é estratégia. Calar também é uma resposta. O silêncio também diz.
Gosto muito de caminhar e quando saio carrego em mim todos os silêncios que me confortam e os que me assombram. Penso muito nos meus espaços, emudeço diante de mim. Procuro não nascer palavras efêmeras. Prefiro gestar minhas palavras no indizível que jogá-las a esmo pelo mundo.
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