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BICHOS ESCROTOS?
Autor: Carmen
Data: 10/03/2006
 
Pois é, se você prestou atenção em nossa capa de hoje , a Tracinha acordou mesmo “invocada”. Não ligou para o Bush, mas, depois de assistir aos noticiários de ontem, teve uma crise de indignação, lembrou-se da letra premonitória dos Titãs e me chateou tanto que resolvi escrever alguma coisa sobre nossa situação política.

Nunca pretendi e não pretendo usar este espaço para qualquer tipo de pregação política, mas, como historiadora e ex-militante de movimentos sociais, a política está no sangue. Acredito que sites empresariais, mesmo um blog, não são lugar para atividade partidária. Corre-se sempre o risco de desagradar clientes que não concordem com nossos pontos de vista. Mas o que estamos vivendo ultrapassou, há muito, a política partidária. Trata-se simplesmente de defender os princípios mais básicos da cidadania, e nossos clientes da classe política (que são muitos), que nos perdoem.

Não vou repetir o que todos sabem, apenas citar algumas coisinhas:

- Caixa 2 em campanha política
- Utilização de recursos de estatais para patrocinar eventos privados
- Desvios de dinheiro em todos os níveis do aparelho de Governo
- Tentativas de amordaçar a produção cultural, a produção jornalística e o Ministério Público
- Sonegação de informações por parte de órgãos subordinados ao Executivo
- Emprego do aparato de Estado para intimidar adversários e proteger apaniguados
- Suspeitas de falsificação de dados financeiros e econômicos
- Aparelhamento do Estado por cupinchas
- Destruição da credibilidade do Congresso pelo suborno de partidos inteiros
- Engajamento político do aparelho de Justiça, especialmente o Ministério da Justiça e o Supremo Tribanal Federal
- Retorno às políticas de clientela e coronelismo
- Pressão financeira sobre órgãos da imprensa e jornalistas, levando mesmo alguns a perder o emprego
- O uso da mentira aberta, desavergonhada, repetida continuamente como justificativa do injustificável
- A síndrome do crime sem culpado. Ninguém fez. Ninguém viu. Ninguém sabe. Ninguém ouviu. Ninguém diz nada.

Não vou me estender, já que seria possível preencher várias páginas apenas com uma lista de malfeitorias recentes no setor público. O que quero ressaltar não é propriamente o problema da corrupção, que é grave, mas não é o pior. O que realmente me preocupa é o que está sendo feito das instituições brasileiras. Estamos perdendo a fé no principal “equipamento” da democracia, suas instituições. Isto pode ser compreendido a partir de vários pontos de vista. Alguns vêem o fenômeno como uma gigantesca ofensiva para desmoralizar o Estado como o conhecemos, para substituí-lo por outro, moldado à feição de quem hoje detém o Poder, ou seja, um Estado totalitário com fachada social. Outros o vêem como resultado da ganância das “elites”, que desejam um Estado fraco para dele extrair todas as vantagens possíveis. Um terceiro grupo entende que tudo não passa de efeito colateral da chegada ao poder de um grupo despreparado e ganancioso. Ou ainda, cogita-se que tudo pode ser resultado da atuação da classe política como um todo, sempre corporativa e gulosa.

A origem da doença não vou discutir aqui. Também não vou comentar sobre o Poder Executivo, seria ocioso. Mas é inegável que o Legislativo atingiu um ponto de desrespeito à opinião pública que não é mais desrespeito, é escárnio, deboche. Deputados pregando às claras que o Congresso não deva levar em consideração a opinião da população, ou de parte dela, é quase inacreditável, mas aconteceu. E o Judiciário, sempre protegido por seus ritos e segredos, agora emite opiniões políticas e age conforme o interesse de alguns de seus membros, além de estar atolado em nepotismo e salários milionários.

Mesmo com a cobertura mais que leniente de parte da Imprensa, especialmente de alguns grandes órgãos de comunicação, as notícias certamente chegaram à maioria da população. E qual a reação da população? Quase nenhuma. Como se compactuássemos. Como se não fosse problema nosso. Como se aceitássemos que autoridades da República possam ser autoridades sem saber de nada, sem assumir responsabilidade de nada. Como se fôssemos uma nação de pulhas, ou de malandros, ou de estelionatários, ou de macunaímas. Li um artigo esta semana em que o autor lembrava que, se a situação política se resolver assim, com esta gigantesca pizza, não devemos culpar os Poderes da República, mas sim reavaliar o caráter do brasileiro. Seremos todos bichos escrotos mesmo?


BICHOS ESCROTOS
Composição: Arnaldo Antunes / Nando Reis / Sérgio Britto

Bichos,
Saiam dos lixos.
Baratas,
Me deixem ver suas patas.
Ratos,
Entrem nos sapatos
Do cidadão civilizado.
Pulgas,
Que habitam minhas rugas.

Oncinha pintada,
Zebrinha listrada,
Coelhinho peludo,
Vão se foder!
Porque aqui na face da terra
Só bicho escroto é que vai ter!

Bichos escrotos, saiam dos esgotos.
Bichos escrotos, venham enfeitar
Meu lar,
Meu jantar,
Meu nobre paladar.
 
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