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Série Pessoal
Mao-mau
Autor: Carmen Menezes
Data: 11/06/2007
 
Depois de um fim-de-semana com muita chuva, e um certo receio de que o depósito tivesse sido alagado, uma segunda-feira mais seca e mais generosa, especialmente no departamento das vendas, que foram excepcionalmente bem.

Apesar do resultado até agora positivo do mês, confesso que ando com vontade de fazer um daqueles comentários políticos mais agressivos. Não vejo o Brasil com os filtros cor-de-rosa que agoram são quase obrigatórios. Mas vou me conter, ou quase. Vou falar do "Mao", que terminei de ler ontem.

Sou de um tempo em que as universidades viviam cheias de "maoístas", gente que se pretendia revolucionária e levava a sério o “pensamento do Presidente Mao”. Muitos ainda andam por aí. Sempre achei que aquela papagaiada oscilava entre o infantilismo e o cinismo descarado. Ao longo dos anos fui aprendendo alguma coisa sobre o que de fato havia se passado na China, as grandes fomes, os massacres, os privilégios da elite. Mas sempre via essas coisas como distantes, quase que pertencentes a um outro mundo (possível?).

Mesmo com todo meu ceticismo, ainda acreditava que houve, em algum momento inicial, uma “pureza” de propósitos, que teria se perdido ao enfrentar a realidade dura de um país daquele tamanho. O livro não deixa qualquer espaço para este tipo de concepção ingênua.

O maoísmo já nasceu torto. Mesmo que os autores deixem transparecer um forte viés contrário ao biografado, o quadro que fica é muito forte. Não havia pureza, não havia ingenuidade. Havia método. Havia traições contínuas aos próprios aliados, a sede de poder acima de tudo e o completo descaso com o indivíduo. Havia “povo” como massa de manobra, não havia indivíduos.Os indivíduos eram descartáveis.

Para nós, que estamos em uma livraria, o mais assustador talvez seja mesmo a Revolução Cultural. Concebida como um artifício para iniciar um grande expurgo nos quadros do PCC, instrumentou estudantes contra professores e tentou exterminar qualquer vida intelectual. A Revolução Cultural odiava o prazer, o divertimento, o entretenimento e, principalmente, o pensamento. Foi uma tentativa de criar uma sociedade morta, apática, com as pessoas permanentemente na defensiva, assustadas, indefesas. Mao desejava um deserto, sem arte, sem música, sem literatura. Sobrariam apenas milhões de livrinhos vermelhos.

Leiam o livro. E olhem nosso panorama político – ainda há maoístas por aí, posando de grandes democratas...
 
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Imagens:
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