Pensando em como descrever a situação macroeconômica brasileira sem ser muito técnico ou chato (o que é quase impossível), lembrei da velha imagem da bicicleta, que se equilibra enquanto alguém pedala. Mas a imagem não é boa, pois imaginei o Lula pilotando a bike. Como ele certamente não pedala, e não garanto que se equlibre, a imagem não funciona.
Fiz um upgrade na velha alegoria e concedi uma motoneta a Nosso Guia. Imaginei uma daquelas cincoentinhas, barulhentas e fumarentas. Anda com gasolina importada, é dotada de uma tecnologia antiga e ineficiente e exige quase nenhuma habilidade para ser conduzida. Passa pelos cantinhos, não respeita leis, é divertida, mas perigosíssima. Perfeito.
Enquanto o Guia Genial arrastava a economia brasileira lentamente e acumulando riscos, nossos colegas em desenvolvimento passavam rapidamente em seus modelos modernos, rápidos, com freios ABS e suspensões eletrônicas. Abriram grande vantagem. Cresceram, enriqueceram muito mais do que o Brasil, aproveitaram o vento favorável e o combustível abundante.
Agora o vento virou contra e o preço de nossa gasolina alegórica subiu. Como o consumo da cincoentinha era pequeno, ainda foi possível garantir que ela continuaria andando, enquanto as poderosas 1.100 paravam. Mas o combustível já está pipocando, a motoneta está parando e o condutor, em desespero, está tentando fazê-la andar no grito. Não vai dar.
Abandonando a gracinha e voltando ao papo sério: o governo Lula foi arrastado pelo crescimento da economia internacional, que trouxe dinheiro para o Brasil, tanto investimento como especulativo. O dólar caiu, facilitando as importações, enfraquecendo nossa base de exportações e controlando a inflação. Como a economia crescia, foi possível aumentar os impostos, não só a arrecadação ! Poucos reclamavam, já que suas receitas aumentavam mesmo assim. Com o excesso de arrecadação, foi promovida uma gigantesca orgia de gastos públicos, principalmente em pessoal. Isto foi chamado de responsabilidade fiscal. Simultaneamente, vimos um aumento, tímido, do crédito, mas a taxas altíssimas. Poucos reclamavam, pois com as receitas aumentando era possível pagar mesmo assim.
A operação funcionava, enquanto todas as peças estivessem no lugar. Com a parada da economia internacional, o esquema se desarranjou. A gasolina da motoneta está acabando. Grande volume de moeda estrangeira está deixando o país. O dólar sobe. O investimento cai. O desemprego aumenta. As vendas caem. A inadimplência cresce. As contas do Governo ficarão desequlibradas, já que não há espaço para novos aumentos de impostos. A inflação aumenta. A renda real cai. Da capo.
Estamos chegando a um beco sem saída. Para estimular a economia é necessário baixar os juros. Mas a inflação está subindo, e não se recomenda baixar juros neste caso. Os bancos, com a inadimplência em alta, não emprestam, se é que eles teriam o que emprestar. Os produtores rurais, sem capital, não plantam etc etc, num ciclo realimentado positivamente, o que, em eletrônica, quer dizer que se afasta do equilíbrio. No caso, tende a parar.
Enquanto isso, vejo um governo acuado, recorrendo mais e mais a uma retórica agressiva de esquerda, populista, culpando o resto do mundo por seus erros e logo logo atacando o empresariado nacional, que, precavido, não investe. Querem uma prova? Lula não vai ao World Economic Forum, vai ao Fórum Social Mundial, com Chavez et caterva.
Mas não sejamos pessimistas. Milagres acontecem.
P.S.: O blog de hoje vai como cumprimento a um dos mais lúcidos economistas do país, que acabou de comprar um livrinho aqui na Traça e que, tenho certeza, concorda comigo, embora prefira não o dizer.
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| Comentários... |
| Data:
13/01/2009 |
| Nome:
Renata |
Pois,é Rabujo,aproveitando o clima metafórico,quem sabe um barquinho a vela,que não precisa de combustível,aproveitando a marola,já que um jet ski
necessitaria de combustível? |
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| Data:
13/01/2009 |
| Nome:
Castro |
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Só se a motoneta andar de marcha a ré |
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| Data:
13/01/2009 |
| Nome:
Vermelho sempre |
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Eu sei que a Traça cresceu durante o Governo LULA. Tá reclamando do que? |
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| Data:
14/01/2009 |
| Nome:
livreiro concorrente |
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quem sabe uma análise sobre os efeitos em nosso setor? |
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| Data:
14/01/2009 |
| Nome:
Rabujo Responde |
Caro livreiro,
Como vendemos essencialmente supérfluos, e o livro é quase sempre supérfluo ou facilmente substituível, o impacto deve ser imediato e grande. As vendas neste primeiro semestre serão muito frustrantes. Infelizmente. Dentro de alguns dias produzirei um texto com mais detalhes. |
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| Data:
14/01/2009 |
| Nome:
Inconformado do Candeal |
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É ridículo ter que vir a um site de livraria para ler uma análise honesta da nossa desgraça. |
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| Data:
05/02/2009 |
| Nome:
antônio |
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Texto lúcido, claro e raro. |
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