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| Reciclagem |
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| Autor:
Carmen |
| Data:
13/04/2006 |
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Ontem compramos um caminhão de livros. Não é brincadeira nem sentido figurado – recebemos mesmo um caminhão cheio de livros. Não era assim um grande caminhão, era mais um caminhãozinho. Mesmo assim, eram muitos os livros. Vinham de uma biblioteca municipal que havia renovado seu acervo. Caixas e caixas de papelão cheias de livros. Amontoadas, sem qualquer ordem, sem qualquer lógica. Pobres livros, tratados como se já fossem papel velho.
Estranha sensação, caminhar sobre livros. Me causou um desconforto sensível, vago, de que algo estava profundamente errado. Fomos em três garimpar em meio ao caos de papel. Havia de tudo: enciclopédias que já foram orgulhosas, belas encadernações um dia douradas, modestíssimos didáticos, livrinhos caça-níqueis. Muito material colorido, infantil. Curiosas justaposições de capas. Autores que jamais conversariam entre si estavam ali, promíscuos, amontoados. E eu tentando caminhar sem fazer peso, tentando manter ainda um respeito para com os caídos. Consternação por aqueles que logo iriam voltar a seu estado inicial, que logo voltariam à pasta de celulose primordial. Pena dos que virariam papel higiênico.
Entre tantos, conseguimos ainda salvar alguns, uns 2000 felizardos que terão mais uma chance de serem lidos. Porque livros são seres oferecidos, gostam de ser manipulados. Encontramos algumas belas edições antigas, muita literatura e algum material técnico ainda bastante procurado. Sem salvação mesmo ficaram as velhas coleções e enciclopédias. Desatualizadas, inúteis, tristes em sua pompa encadernada. Também os testemunhos de velhas tecnologias não puderam ser salvos: manuais de datilografia, por exemplo. Centenas e centenas de autores desconhecidos, que um dia estiveram esperançosos de encontrar a glória com seus livrinhos simples, foram encaminhados também à reciclagem.
Feita a seleção possível, despachamos os rejeitados para o depósito de papel velho. Como em algum velho filme classe B, fiquei olhando o caminhão se afastar. Ficou uma sensação estranha, algo adstringente. Sempre penso se não haveria um destino melhor para tais livros. Parece que não. |
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