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| Letras e Livros. |
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| Autor:
Carla Maicá |
| Data:
16/02/2006 |
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São poucos os amigos que sabem da minha outra paixão: letras de músicas.
Me reservo muito neste gosto pois são poucas as pessoas que entendem a minha empolgação quando mostro uma letra e digo: “Linda, né?! Percebe como o compositor joga com as palavras? E este refrão? Nossa! Muito inteligente. Viu que imagem ele consegue criar?”. Não raramente me olham e dizem: “Ahã!” Com uma cara de “Coitadinha, pirou de vez”.
Ah, uma alma incompreendida...
Sou uma daquelas maníacas obsessivas que ficam com o encarte acompanhando as letras e que, quando acaba a música preferida, apela para o “rew” uma, duas, três vezes, só para “degustar” o verso perfeito. Isto também é literatura!!! A magia está muito além da “batida”, está na escrita.
A intertextualidade está aí. Compositores fabulosos estão aí. Vozes desconhecidas estão aí. Chico Buarque não é apenas aqueles lindos olhos azuis; Arnaldo Antunes não é mais um Titãs; Luiz Tatit não é só professor da USP; Ná Ozzetti e Adriana Calcanhoto não só interpretam, mas também compõem; Zeca Baleiro faz maravilhas, etc, etc, etc...
O Brasil tem muitas coisas boas na música popular, basta ficar atento. Ir além das primeiras impressões, jogar com o estranhamento e, principalmente, se deixar levar pela poesia.
Foi numa dessas minhas viagens musicais que achei uma composição bem interessante do Caetano Veloso: Livros.
Lógico que eu não ficaria muito longe das estantes!
Segue a letra:
Livros
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou o que é muito pior por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
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