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| Luto |
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| Autor:
Carmen |
| Data:
16/06/2006 |
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A Traça está de luto. Recebemos hoje a notícia de que, já há alguns dias, nosso amigo Benhur se suicidara. Ele não era um conhecido qualquer. Colaborou comigo em duas ocasiões, primeiro na loja e depois aqui no depósito, no cadastramento. Benhur era a própria personificação do espírito crítico. Nada nem ninguém escapava de seu humor, geralmente refinado, às vêzes escrachado mesmo. Detalhista a ponto de se tornar chato, rabugento frequentemente, perfeccionista, intolerante com erros e híper-sensível, era figura de relacionamento difícil. Mas também era uma grande companhia para um chopp, quando, então, deixava sua verve fluir.
Ex-estudante de engenharia, músico, ecologista, tradutor e amante da literatura, era daquelas raras figuras enciclopédicas, ao mesmo tempo generalista e profundo em assuntos de seu interesse. Quando colaborou com a Traça, organizou um belo banco de referências bibliográficas, que usamos até hoje. Também ajudou no desenvolvimento de nossos sistemas, com suas críticas implacáveis e sugestões criativas. Ironicamente, foi a implantação destes sistemas que o afastou de nós. Quando migramos para o Linux, seguiu-se um período de caos. Nada funcionava, os sistemas viviam caindo e o progresso era nulo. Após algumas semanas de sofrimento, numa tarde especialmente difícil, depois de muitas paradas e erros, foi demais para ele. Simplesmente levantou-se e saiu. Nunca mais voltou, nem para se despedir. Ele era assim, sabíamos, e ninguém ficou chateado. Continuava sendo um amigo da casa.
Com esse perfil, aliado a uma solidão quase permanente, não foi exatamente uma surpresa quando recebemos a notícia. Mesmo assim, o dia foi triste por aqui. As conversas baixaram de tom, os risos sumiram. O expediente terminou cedo, a maioria foi logo cedo para casa.
Enquanto olho para um estojo de óculos que ele abandonou aqui, e que guardávamos esperando o dia em que ele adentraria o recinto como se houvesse saído no dia anterior, lembro que Benhur também cometia seus textos e era um grande redator de emails, quando incorporava o espírito do célebre Barão de Itararé. Alguns dos mais espirituosos e divertidos que já recebemos foram de sua lavra. Em sua lembrança, vamos reproduzir aqui um destes emails antológicos, uma brincadeira de fim de ano em Gramado, que mostra um lado brilhante da personalidade de nosso amigo.
Saudade.
Email recebido no Natal de 2004:
Ora, ora, pois este louco aqui quer também que os amigos da Traça tenham todos Boas Festas, com muita música, bebedeira e comilança... (sem colecionar rolhas, por favor...)
O fim-de-ano está sendo muito movimentado com festinhas e formaturas, e a inevitável corrida atrás de roupa (eu só tinha 2 camisas, 1 calça e um passo doble...) e presentes... Dai no final não deu p'ra organizar um horário para meu "expediente" entre os caros amigos lepidópteros.
Liguei p'raí na 4ª-f, 22 as 19h mas já não peguei ninguém. uhm....BOM SINAL :-) :-)
Na 5ª demanhê subi com a família de Dom Pedro II para uma semana de férias na Terra do Nunca, onde a paisagem de vitrines e luminosos entre pinheiros e casinhas de João e Maria deixaram todo mundo com cara de criança e coração mole...
Claro que fui rapidamente reconhecido por meus iguais aristocráticos, que logo me levaram para tomar um champagne no vagão imperial da linha que vai para Quitandinha via Campos do Jordão. E como eu sempre ando na linha.... inevitável que ao chegar acabasse me desentendendo com um monte de ferro-velho que não quis sair da minha frente no desvio de Itararé. E, como aquela altura (parece que 800m acima do mar) já estávamos um pouco "altos", o atrevido me pegou desprevenido e logrou me atirar ao chão! Dom Pedro, com sua caixão Zeiss-Ikon sempre preparada, flagrou o instantâneo:
Graças a Deus tudo não passou de um susto, e a máquina logo se restabeleceu e voltou a fumegar...
Pois é isso..
Um véio gordo em andrajos vermelhos me deu o livro de Santos-Dumont pela Nova Fronteira, maravilhoso! Aliás fiquei surpreso com a quantidade de livros presenteados entre familiares. E lembrou-se também do quanto padeço nos rigores daquelas alturas, e mandou seu São Bernardo me levar um barrilzinho de Dimple 15 anos, que certamente regará também um happy-hour com os amigos (nem que façamos os LGs nevarem...).
então, beijos e braços,
apareço ai logo que tirar o gesso
BdI |
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