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| ENTRE ROSEBUD E A CARTILHA DO PEDRINHO |
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| Autor:
Carmen |
| Data:
18/02/2006 |
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Depois de alguns dias de folga, voltei ontem ao blog. A parada foi obrigatória. Fevereiro é, para mim, um dos meses mais difíceis do ano. É um mês de "vacas magras", magérrimas até. A maior parte das vendas da Traça é ligada ao mundo acadêmico, que está em férias desde dezembro. Fevereiro é estrada, praia e carnaval. Quase nada de livros. Mas é necessário que se aumente o estoque, cadastrando muito material para o início do ano letivo. Resumindo: poucas vendas e muito trabalho interno. Mesmo assim, alguns de nossos colaboradores saem de férias neste período e, os que ficam acabam sobrecarregados. Aí, nada de blog....
Depois da explicação "institucional", vamos ao que interessa...
Esta semana jantei num simpático restaurante italiano aqui nas proximidades, o Vila Amalfi, de onde sou cliente contumaz. Boa comida, preços razoáveis, pessoal atencioso. Na mesa ao lado, um grupo barulhento. Casal de meia idade e três jovens. Falavam sobre cinema, exaltadamente. Impossível não escutar. Os jovens mostravam-se inconformados com o prestígio de Cidadão Kane, filme que costuma frequentar o topo das listas de “melhores filmes da história do cinema”. Segundo um deles: “filme chato sobre uma busca sem sentido por uma palavra sem sentido”. Os mais velhos olhavam condescendentemente. Pois é...
Também sou fã de cinema. Também gosto do Cidadão Kane. Gosto mais hoje do que quando o vi pela primeira vez. E não só pelo refinamento de meu conhecimento sobre cinema, que vem com o tempo. Talvez eu aprecie mais hoje o que há de inovador no filme, os “deep focus” ou os enquadramentos não convencionais. Mas, principalmente, estou muito mais próxima do roteiro do que estive em outras épocas. Para quem não assistiu ainda, explico: o filme inicia-se com a morte do milionário personagem principal, logo após pronunciar a estranha palavra “rosebud” e segue investigando o significado desta palavra. A interpretação corrente é que “rosebud” seria o nome de um brinquedo da infância do personagem. Há outras interpretações, inclusive uma que associa a palavra a uma parte íntima da anatomia da amante de Kane. Na verdade, não importa. Rosebud parece mesmo significar uma passagem para a felicidade perdida, ou talvez para aquilo que o fazia se sentir mais humano. Para algo anterior, ou além, da contingência de sua vida.
Aqui entra minha experência de sebista. Para efeitos de discurso (ou de marketing!) podemos dividir nossos clientes em várias categorias. Uma delas é a dos “resgatadores da infância perdida”. Gente acima dos 40 anos que procura referências de sua infância. Cartilhas escolares, material didático , leituras obrigatórias, livros infantis, álbuns de figurinhas, jogos. Recebemos muitas consultas deste tipo. Muitos se cadastram em nosso boletim e compram o desejado assim que aparece. Outros nos mandam emails simpáticos, ou pungentes. Como o de uma advogada que procurava dedicadamente o material escolar de alfabetização de seu pai, que, aos 90 anos, parecia preparar-se para a morte com as lembranças daquele tempo perdido.
Selecta em Prosa e Verso. O Caminho Suave. Cartilha do Pedrinho. Elementos de Aritmética. Primeiro Livro de Leitura. Livros de Hendrick Van Loon e de Francisco Marins. Atlas escolares. Tudo que remeta de volta ao velhos tempos. Interessante é que estas pessoas não idealizam o passado, nem o querem de volta. Querem apenas revê-lo, como que confirmando que lá estiveram. Continuam não gostando daqueles exercícios de subtração. Mas adoram folhear os velhos livros. Criamos até uma categoria especial na Traça: didáticos antigos.
Pois é, talvez os jovens convivas da mesa ao lado tenham que esperar mais alguns anos para gostar do filme. Enquanto isto, sigo procurando aquela cartilha onde aprendi a ler, aquela do Pedrinho, de capa azul, se não me falha a memória....
http://www.imdb.com/title/tt0033467
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