O Brasil é um país de malandros, e você provavelmente é um deles. É difícil saber ao certo, porque nós não vamos admitir que o nosso hábito de tentar tomar o máximo de proveito em tudo na vida constitui uma obsessão, e que isso denota egoísmo. Quem admitiria? Até nisso somos malandros.
Vamos supor, para fins didáticos, que exista um sujeito qualquer, brasileiro, de nome Jorge. Ele é um homem trabalhador. O atual governo poderia defini-lo como “homem de bem”, bastante comportado até. Quando ele era pequeno, sempre colava nas provas da escola; era um hábito quase apaixonado, porque transgredir as regras delimitadas pelo professor era símbolo de esperteza. Quem estudasse, em contrapartida, era considerado um imbecil: “Aquele retardado prefere ficar estudando!”, pensavam os colegas. Anos depois, quando adolescente, o mesmo Jorge levou para a sua cama dúzias de garotas nas quais nada lhe interessava, nem sequer o corpo, porque a humilhação de ter perdido a oportunidade de “pegá-las” seria insuportável. Hoje, quando vai a um bar ou restaurante, ele não vê mal em roubar um copo ou uma travessa que lhe agrade porque, muito seguro, argumenta de si para si que o dono do estabelecimento é um homem rico que explora seus funcionários e clientes. Jorge não sabe, mas é um malandro.
Entretanto, como nós somos todos boas pessoas, não deixaremos que ninguém nos chame de malandro. Eu não deixaria, pelo menos. A quem me dissesse tais coisas, responderia que num mundo como o nosso não se pode permitir que nos passem para trás. O sistema de ensino, por exemplo, é boçal, e nós temos mais é que colar nas provas, mesmo. Afinal, o brasileiro quebra as leis e regras estabelecidas crendo estar combatendo um código opressor, e nem lhe passa pela cabeça estar traindo um acordo pessoal e a confiança de outras pessoas (o que o torna, quem sabe, um mau-caráter). E se me dissessem que sou tão desonesto quanto um batedor de carteiras, quando escondo no bolso o talher caro de algum restaurante, responderia que eu sou um “cidadão de bem” e que, como tal, ainda que estivesse surrupiando dinheiro, eu o estaria fazendo em causa justa.
De qualquer forma, queiramos ou não, o Brasil se constitui de milhões de malandros como Jorge. Quem crê que não talvez pense, também, que nossos políticos são profissionais dedicados e gente de boa fé. Porque, afinal, os políticos são tão desonestos quanto o povo a quem deveria representar, e a existência de um sustenta a condição do outro. A partir disso, temos a situação atual da forma como a vemos, cada qual culpando ao outro e todos passando a perna em si próprios.
O mais irônico é que aquele mesmo Jorge, do primeiro exemplo, ainda que roubando o talher do restaurante para se vingar dos preços altos, é incapaz de reclamar direitos abertamente. É muito fácil ser revolucionário por baixo da toalha. Quando deve expor seu pensamento, demonstrar sua insatisfação ou meramente explicar que não se está concordando com o estado de coisas, Jorge tem vergonha e baixa a cabeça. Assim como ele, o povo brasileiro apanha quieto. É socialmente vergonhoso erguer a voz contra aquilo que nos causa mal. Os serviços públicos, prestados porcamente à população, não cumprem minimamente os seus fins e, ainda que pagando caro por tal ineficiência, quem passará o vexame de levantar a voz? As empresas, por outro lado, tratam o brasileiro como uma criança retardada, com suas propagandas de “indução pelo inconsciente”, comerciais com letras coloridas explodindo, vendedores em horário nobre gritando suas ofertas com uma alegria debilóide no rosto, como se falassem a um chipanzé. A dona de casa moderna e seu marido pós-moderno sentam-se juntos à televisão e assistem aos urros e estouros em silêncio, enquanto as imagens e os grunhidos preenchem os cérebros resignados.
Diante da idiotização (a privada e a estatal), o que faz o nosso Jorge? Nada. Ele não é corajoso, não é muito esperto e prefere acomodar-se às poucas coisas boas que lhe foram tão difíceis de conquistar: um emprego maçante e irracional, que não lhe paga quase nada; a cerveja que o permite ter laços sociais fúteis com amigos superficiais; um pouco de futebol, para distrair as pessoas e dar um significado à vida; e, acima de tudo, a novela das oito. Assim caminha o Brasil.
Qual a solução para tantos malandros? Eles não lutam cara a cara, não enfrentam o que os ataca; eles meramente recolhem as migalhas da boa sorte, na malandragem. É compreensível, e se parece muito com uma autodefesa natural e instintiva que se tenha desenvolvido ao longo dos séculos. Talvez nem seja proveitoso decidir qual será a solução para essa situação, porque nenhum malandro perderia seu tempo com isso. |
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| Comentários... |
| Data:
18/03/2008 |
| Nome:
curupira |
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textinho malandro este |
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| Data:
19/03/2008 |
| Nome:
Geoca |
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Malandragem pode ligar- se intimamente a "lombeira" brasileira. Como diria Macunaíma: Ai que preguiça!! |
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| Data:
01/04/2008 |
| Nome:
Vítor Prates |
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É verdade, o Brasil é sim um país de malandros. Aliás, o que poucos sabem, é que essa é mais uma herança dos portugueses, que além da carolisse e do excesso de burocracia, trouxeram para o Brasil a malandragem logo em sua primeira viagem rumo ao novo mundo. Nos primeiros dias em terra,Pero Vaz de Caminha ao escrever ao El,Rei, D.Manoel, tinha como função descrever a terra encontrada. Em sua carta ao El,Rei, P.Caminha, escreve algumas poucas páginas descrevendo a viajem,a influência da religião Cristâ sob os índios e os aspectos fisicos e geográficos do novo mundo. Porém, ao final de sua carta já no último parágrafo, após inclusive de se despedir do Rei, Pero Vaz C. faz um apelo a D. Manoel dizendo que assim como ele estava disposto a trabalhar em nome de vossa majestade, o seu cunhado,exilado em uma das colônias de portugal também demostrava-se disposto a se redimir e trabalhar enobrecidamente em nome de vossa alteza, ou seja aquele mesmo que lhe trazia boas notícias já incluia em sua carta um pedido em função do seu trabalho realizado em favor do Rei de Portugal, Algarves e do Além mar. É então assim o primeiro ato oficial de malandragem contado e escrito na história brasileira. |
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