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Série Economia e Política
As Caras do Brasil
Autor: Geordana Cavalheiro
Data: 20/05/2008
 
As Caras do Brasil

Há uns dias na tentativa de organizar a bagunça dos meus livros, encontrei uma pilha de revistas diversificadas, revistas de moda, música, culinária e de crítica de arte e literatura, entre elas uma edição de dezembro de 2006 da Revista Entre Livros que trazia na capa a seguinte chamada: “50 Personagens que são a cara do Brasil”.
Lembrei do momento em que li parte do “dossiê” Brasil da revista. Eu estava iniciando a leitura de Os Sertões para um seminário de leitura e normalmente inicio certas leituras assim, busco informações a respeito, material de apoio e crítica e depois passo à obra ou leio a obra e depois passo à crítica. Talvez seja uma maneira errada de ler, mas acho que já virou mania...
Então sabendo que Euclides da Cunha traça um perfil do brasileiro em seu livro, achei que seria interessante ver o que a Entre Livros teria a dizer sobre a cara do Brasil naquelas páginas. A apresentação do dossiê, feita por Manuel da Costa Pinto, não deixa nada a desejar a professores de literatura e Oscar Pilagallo apresenta os critérios que foram utilizados pela redação para elaboração da lista. A lista das 50 personagens é dividida de acordo com o período literário e histórico. Três dos critérios são obviedades que não poderiam ser desconsideradas: opinião da crítica. representatividade da personagem para o período e popularidade do mesmo. O quarto critério foi o que fez a diferença: a diversificação dos perfis.
Depois de ler, dessa vez a reportagem completa, fiquei pensando novamente na questão da identidade brasileira. Temos a cara de quem? Seriam as brasileiras vistas como eternas Carolinas de Joaquim Manoel de Macedo, sempre “adoravelmente” sedutoras? E os brasileiros, seriam excelentíssimos Leonardos Patacas, de Manoel Antonio de Almeida? Ou ainda, seríamos todos inocentemente preguiçosos e sexualizados Macunaímas? Essa necessidade de afirmação de identidade seria a ausência da mesma e portanto a impossibilidade de afirmá-la? Muitas questões surgiram, a maioria sem respostas exatas, mas muito boas para refletir sobre qual nosso verdadeiro lugar e se ele realmente existe.
Lendo as características de cada personagem selecionado percebe-se que ao redor das mulheres brasileiras construiu-se uma “aura” de sedução e beleza que, ou trouxemos da literatura ou a literatura nos trouxe, quanto aos homens, lembrando o texto do colega Paulo Irineu (vale a pena reler) sobre malandragem, publicado no blog da Traça no dia 18/03/2008, certamente são vistos como malandrões, sabichões (que palavra antiga!) e se por ventura fizerem o tipo honesto, como paspalhos (outra bem antiga!).
Cada um dos personagens citados, de Iracema, Gabriela e Solange a Peri, Leonardo Pataca e Mandrake, mesmo em uma lista surpreendente, se recortarmos detalhes de cada um, encontraremos certamente as características citadas no paragráfo anterior em todos eles. Citando alguns dos surpreendentes (e aproveitando a deixa para sugerir a leitura das obras a que pertencem): Macabéia, de A Hora da Estrela; Sérgio, de O Ateneu; Naziazeno Barbosa, de Os Ratos e para mim os mais “diferentes”, a narradora de A Casa dos Budas Ditosos; Nelsinho, de O Vampiro de Curitiba e Emilia, do Sítio do Pica-Pau Amarelo.
Entretanto, o que mais me chamou a atenção foi exatamente o “valor” dessa representatividade identitária das personagens literárias na cultura brasileira (parece um assunto inesgotável, ainda mais em tempo de “assujeitamento” como o nosso). Não lembro de ter encontrado críticas, ensaios e afins que definissem Akaki Akakievitch, de Nikolai Gógol ou mesmo o homem do subsolo de Dostoiévski como “a cara da Rússia”, mais ainda, pode-se considerar Usher de Edgar Allan Poe como a identidade de alguma cultura?
Entendo e vejo a importância que essas questões tiveram e ainda têm para a cultura brasileira, por isso acredito que sempre vale a pena refletir sobre tais.
Acho que a lista podia contar com só mais uma personagem, bastante surpreendente também: Teleco, o coelhinho de Murilo Rubião. Um mutante, que transforma-se, transfigura-se, que busca incessantemente por seus desejos. Teleco é um misto de coisas e sentimentos, como qualquer indivíduo em qualquer parte do mundo.
Vale a pena revisitar aquele clássico da literatura brasileira que está lá no fundinho da estante e (re)descobrir aspectos que não foram vistos antes.


 
Comentários...
Data: 22/05/2008
Nome: carlos
A cara do Brasil: Macunaíma!!
Data: 22/05/2008
Nome: Joana Silveira
Entrando no clima - cara do Brasil: Capitu! Mentirosa...
Data: 23/05/2008
Nome: Renan
Voto no Macunaíma
Data: 23/05/2008
Nome: Roberto
Não é tão simples, mas uma votação assim até que seria engraçada, no espírito "quem achamos que somos". É claro que o número de votantes seria minúsculo, já que pouquíssimos leram estes livros mesmo.
Data: 23/05/2008
Nome: Joana
Sendo assim, votemos logo em personagens de novelas da Globo. Meu palpite: Sassá Mutema na cabeça!!
Data: 24/05/2008
Nome: justo
A cara do Brasil é o Lula
 
 
 
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