Engraçado como os discursos de algumas “feministas” pós- modernas que defendem a posição da mulher na sociedade com igualdade de direitos com os homens agem no contra-discurso. Acredito que há uma grande distorção do que é ser feminista e ser feminina, isso mesmo, as duas coisas ao mesmo tempo.
A cada vez que tentam firmar certas idéias, como quando tratam de um dos assuntos mais em voga da atualidade – sexualidade e relacionamentos - tendem a fragmentar e afastar ainda mais a idéia que querem passar. Além disso, segregam a própria mulher: “mulherzinhas” pra lá, “mulheres modernas” pra cá.
Quem freqüenta academia, faz luzes no cabelo, tem namorados machistas e usa roupas provocantes são as mulheres “atrasadas”, que se deixam levar pelo discurso chauvinista e antiquado de que a mulher só tem a função de ser feminina.
Mulheres modernas não, elas estão contentes com seus corpos, usam roupas “modernosas”, não se prendem em namoros, curtem relações abertas e gostam de estar só.
No entanto, todas nós, sejamos mulherzinhas, sejamos modernas, quase todos os dias, cada uma a sua maneira, temos os mesmos anseios. É progesterona!
Tenho uma idéia quase infantil de que tudo que é, não tem necessidade de se reafirmar sempre e sempre (Obviamente, isso não é uma regra!). Ou seja, se estou realmente feliz com o fato de estar só, não há necessidade de argumentar, afirmar e procurar “n” vantagens de se estar só.
Costumo brincar muito com uma amiga quando repetimos uma certa coisa duas vezes: “Se tu disser mais uma vez, tu estás tentando convencer a ti mesma”. Deve haver alguma explicação psicanalítica séria para isso!
Neste último final de semana resolvi ler um livro de crônicas da jornalista Martha Medeiros, Geração Bivolt. Há muito assisti entrevistas e ouvi falar muito bem e também muito mal de suas crônicas. Nunca havia lido nada de Martha. Quis conhecer para tirar as minhas próprias conclusões.
A aba resenhada por Augusto Nunes diz muito mais sobre o livro do que as 30 crônicas reunidas nele. Martha é uma mulher muito inteligente, isso é inegável, todavia parece que escreve na contramão de sua personalidade.
As crônicas falam de ciúme, traição, namoro, solidão, casamento... nada de novo.
Sei que possivelmente eu não tenha “estrada” para fazer críticas às crônicas de uma conceituada jornalista. Entretanto, posso, na condição de mulher, falar desse universo que Martha apresenta (e que diga- se aqui me sinto completamente fora).
Não acredito que seja preciso fazer meu namorado sentir ciúme de mim para que ele “me valorize”, também não acredito que seja melhor estar só por que “a solidão é silenciosa quando você está assistindo à televisão”.
Acho que estas sim são idéias atrasadas e me soam como se fossem idéias de mulheres da década de 60 que não sabiam o que realmente fazer com tanta liberdade, tantas alternativas, tanta “igualdade”. É praticamente um discurso de livro de auto- ajuda, desses que tentam te convencer de que tudo no seu mundo é maravilhoso.
Acredito sim que é preciso se estar bem com o que se é, seja uma dançarina de axé namorada de um milionário jogador de futebol, seja uma tradutora ainda em início de carreira. É preciso se sentir feliz no trabalho que se realiza, caso contrário, dinheiro nenhum tirará o peso do desânimo de seus ombros. É preciso equilibrar as emoções diárias, digo equilibrar por “ninguém consegue ser alegre o tempo inteiro”, parafraseando Wander Wildner e contrariando as crônicas de Martha.
É muito confortável falar do senso comum, mas e as diferenças?
A verdade é que não evoluímos a ponto dos nossos discursos. Falamos daquilo que não conseguimos realmente internalizar. Ao afirmar a posição de mulher “moderna” segregamos e hostilizamos as “mulherzinhas” e vice - versa.
Um exemplo disso sou eu mesma, quando me sinto triste ou sensibilizada por algo costumo dizer para meu namorado que “estou mulherzinha”. Dias depois, tudo volta à normalidade. Quanta incoerência!
Eu lembro de meu professor ídolo de crítica literária dizendo em aula: “O sujeito pós- moderno é incoerente, desconfio daquele sujeito que diz ‘ eu sou coerente”
Por isso essas crônicas me soaram tão estranhas. Por isso me decepcionaram.
Nas entrevistas, Martha Medeiros me parece fascinante. Escrevendo... eu esperava mais do que uma dúzia de linhas ultra lineares. Coerentes entre si.
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| Comentários... |
| Data:
23/02/2008 |
| Nome:
Júlia |
Acho que, sim, todos somos incoerentes e todas nós temos dias "mulherzinha" e "mulher moderna". Dias de vontade de fazer luzes e dias de queimar o sutiã...Não digo que todas as pessoas são assim, mulheres normalmente são mais (correndo o risco de parecer contra o meu sexo, é o que eu acho). Acho que dá pra culpar a progesterona ou qualquer outro hormônio, mas o fato é que todas fomos criadas com a crença no príncipe encantado e crescemos num mundo onde mulheres se tornam presidentes. Enfim, olha eu colocando a culpa no Walt Disney.
E concordo plenamente com a tua idéia de se precisa dizer muitas vezes é porque tu tá tentando te convencer de algo que não é verdade.
Por fim, acho que não ter "estrada" não significa nada para poder criticar alguém. Ou algo te atinge ou não te atinge. Se não atinge, não é bom e vice-versa. Sei lá, detesto Paulo Coelho e detesto Dan Brown e não nem 1% do dinheiro deles. |
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| Data:
25/02/2008 |
| Nome:
do contra |
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Você só quer é abrir uma polêmica com a Martha Medeiros... |
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| Data:
25/02/2008 |
| Nome:
Um Kara! |
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Concordo que o universo criado por Martha em suas crônicas, muitas vezes se afasta da realidade da maioria das mulheres de hoje em dia. Mas temos de considerar que, ainda podemos encontrar as tais "mulherzinhas" vivendo felizes por aí... E quanto às colocações do inicio do texto sobre aparência, academia e afins, acho que é sempre válida a tentativa de melhora, quem não gosta de se sentir bonito? Qual o problema em se cuidar um pouco? Discordo da colocação "mulheres atrasadas" ao falar principalmente em relacionamento. Tanto homens quanto mulheres tem o direito de namorarem, de se relacionarem da forma que lhe for de bom grado. Particularmente, creio que estar só jamais seria sinônimo de modernidade. |
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| Data:
26/02/2008 |
| Nome:
Fernando |
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No meu modo de ver, o movimento feminista (ou movimentos?) incialmente denunciava tanto as relações de gênero no capitalismo, quando as do comunismo. Trabalha-se com o conceito central de emancipação através da ação comunicativa, a saber, uma crítica política e cultural da sociedade. Condordo com Júlia quanto ao "sermos incoerentes", um aspecto da modernidade tardia é a fragmentação do sujeito e, principalmente, o fato de estarmos cotidianamente exercendo rupturas com definições arbitrarias. O mundo social não tem nada de exato! |
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| Data:
27/02/2008 |
| Nome:
Popoulus |
Oscilar entre os humores de "mulherzinha" e "mulher moderna" tem a ver mais com as variações de personalidade do que com incoerência. Porque, afinal, não se trata de ser coerente ou não - isso não é um jogo de lógica, as pessoas não precisam ser coerentes como se estivessem representando um papel.
O fato é que a mulher pós-moderna (oh, outra vez a pós-modernidade!) é fragmentada (hahaha!), varia de humor, varia de interesses. Acho que, sendo sincera consigo mesma, ela vai descobrir que não há problema em variar de humores, variando assim também a sua postura diante do mundo. Não é um problema! É da natureza das pessoas ser flexível, e isso, sim, é uma flexibilidade, não uma derrapada no caráter.
Não querendo ser piegas, mas a postura de cada pessoa pode e deve mudar conforme seus humores e disposições; admitir isso pode levar a uma tranqüilidade maior com relação a quem se é, sem cobranças de coerência. Afinal, ser "mulher moderna" não é uma ideologia. Não é um marxismo para moças.
Aliás, aguardem o lançamento do meu primeiro livro de auto-ajuda, "O Meu Eu Mulher". Em breve nas livrarias. |
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| Data:
27/02/2008 |
| Nome:
Fernando |
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Concordo, a incoerência não é negativa, muito pelo contrário. Formamos nossas identidades a partir de fragmentos de grandes ideologias do passado. A pós-modernidade em países colonizados como o nosso se torna um termo vazio. Volto a salientar que todas as classificações são arbitrárias! hehehe |
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| Data:
28/02/2008 |
| Nome:
DOUGLAS FERNANDO CROVADOR |
Olá Geordana.
Não tenho tanta cultura crítica para avaliar plenamente um discurso ou um livro. Mas quero destacar meu feliz Viva! relativamente ao teu escrito. Estou de pleno acordo. Creio q o movimento e as feminista se perderam em algum lugar de sua jornada. Que levantaram bandeiras e questões válidas, não se discute. Mas sempre acreditei q elas mais contribuiram para intensificar o xauvinismo (é assim q se escreve?) e/ou machismo pelo modo como tentaram combatê-lo e destrui-lo. Os homens, claro, aplaudiram tudo o que elas disseram e fizeram pq no íntimo era esta liberdade e liberação que eles esperavam das mulheres para as usarem sem culpa e à vontade. Acredito q as mulheres cairam nesta armadilha. Mas, coisa boa, vozes como a tua tem se levantado e tentado por as coisas nos devidos lugares, reconhecento os direitos,a capacidade, a femilidadade e as diferenças, benditas diferenças, entre os sexos e que precisam ser levados em conta. Meu aplauso a vc e minha admiração pela bravura em remar contra a maré. |
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| Data:
16/04/2009 |
| Nome:
Alessandra |
Mulher,mulherzinha,mulherão....são tantos adjetivos,tantas explicações,acusações,análises comportamentais,etc.
O que falta é acima de tudo RESPEITO.Livre escolha,arbítrio....
Respeito por mulheres que decidiram se entregar a carreira e postergaram a decisão do casamento e filhos,quando os fazem.Respeito por mulheres que abandonam carreira por filhos.Respeito por mulheres que decidem não serem esterótipos de capas de revistas.Respeito por mulheres que acreditam que ser capa de revista é tudo!Respeito por usarem salto,por preferirem rasteirinhas,por gostar de maquiagem,por viver de cara limpa.
E sabem quem mais desrespeita a mulher?A própria...Não adianta pedir direitos(e deveres) iguais aos dos homens,sendo que as mulheres,enquanto "iguais" se degladiam e sabotam a si mesmas. |
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