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| Autor:
Carmen |
| Data:
23/01/2006 |
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Trabalhar com livros é paixão. Certo, mas também é negócio. E, como todo negócio, depende da conjuntura e de tendências de longo prazo. Há muito se fala do “fim do livro”, de sua substituição por meios eletrônicos. As tecnologias até agora lançadas não nos afetaram. As vendas de conteúdo para e-books não atingem sequer 0.1% das vendas de livros convencionais. O Papel, afinal, é uma boa tecnologia, flexível, relativamente barata, durável e reciclável.
Para tentar mudar esta história, e escrever uma nova página na História da Leitura, a Sony está lançando um novo gadget, chamado Sony Reader. O aparelho, que está na imagem aí abaixo, difere bastante de seus fracassados antecessores. Ao invés de um display de cristal líquido ou plasma, utiliza a tecnologia E-ink, que, por refletir a luz ambiente ao invés de ser iluminado por detrás como os monitores convencionais, se aproxima do papel. Esta é a primeira aplicação em larga escala desta tecnologia que, depois de desenvolvida inicialmente no MIT, já está disponível há algum tempo.
A traquitana realmente se parece mais com livros de verdade, consome pouca bateria, tem uma vasta memória e a leitura parece ser bem melhor do que os “readers” anteriores permitiam. Além disso, os grandes editores parecem dispostos a prover conteúdo em quantidade. Basta você entrar no site da empresa, pagar e fazer o download. Muito bom.
Aí começam os problemas. O primeiro deles chama-se SONY. Para quem acompanha a batalha sobre direitos autorais musicais não é novidade. Para quem não acompanha a cena, vou explicar rapidamente. A Sony é conhecida por aliar criatividade com tentativas de “dominar o mundo” com formatos proprietários. Desta vez exagerou. Os Cds vendidos pela Sony BMG vinham com um dispositivo, conhecido como rootkit, que se auto instalava no computador da vítima, gerenciava os direitos autorais (isto é, impedia cópias), encobria sua atuação e não fornecia mecanismos para que fosse desinstalado. Pior que tudo, o infeliz programa tinha fragilidades que poderiam ser facilmente exploradas por hackers, permitindo a invasão do computador. Muitas versões sobre a extensão da invasão de privacidade circularam pela Internet, todas elas muito negativas para a empresa, que foi obrigada a recuar. De qualquer modo, o estrago estava feito. Hoje há, inclusive um movimento de boicote à empresa, ativo especialmente no meio “nerd”. Mas o que isso tudo tem a ver com o Sony Reader? Simples: que direitos você terá sobre o material comprado? Será possível revendê-lo? Será possível passá-lo para outro instrumento de leitura? É possível copiá-lo? Quanto tempo dura?
Como a credibilidade da empresa está em cheque, é provável que muitos prefiram não correr o risco. O problema na verdade transcende em muito o caso particular da Sony. Enquanto o emaranhado legal de direitos autorais não estiver claro, enquanto o consumidor estiver sob pressão, correndo o risco de ser considerado criminoso ao tentar repassar o material já lido, o e-book não vai deslanchar.
Há muitos outras dificuldades ainda. Formato não tão confortável, usabilidade, preço (US$ 400), custo e dificuldade dos downloads, integridade do conteúdo quando da necessidade de manutenção, falta do cheiro de tinta, além da oposição óbvia dos amantes do livro convencional. Mas não vejo razões que impeçam uma adoção gradual do formato. Vejo também uma linha clara de melhorias do produto, que podem torná-lo realmente importante: formatos abertos, integração com computadores, permitindo a leitura direta de sites de maneira mais confortável, mecanismos de busca de palavras no conteúdo em memória, possibilidade de se atualizar versões antigas de livros etc...
Quanto a mim, não vejo razões para temer pelo meu sebo a curto prazo. O processo de adoção do livro eletrônico será relativamente lento, condicionado à questão dos direitos autorais. Conteúdo mais antigo, como o que sebos vendem, não será digitalizado e muito menos disponibilizado em e-book tão cedo. A paixão pelo papel, pela possibilidade de manusear, rabiscar e anotar continuará existindo. O prazer de uma bela biblioteca também. Sem falar no desejo de posse do livro, etéreo no caso do e-book. Há até um possível lado positivo há longo prazo: livros serão raridades...e, portanto, artigos colecionáveis e caros...
Veja mais sobre o assunto em:
http://www.wired.com/news/technology/0,70039-0.html
http://en.wikipedia.org/wiki/2005_Sony_CD_copy_protection_controversy
http://en.wikipedia.org/wiki/Rootkit |
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