Retorno ao Blog depois de um longo tempo em "off" para apresentar a crônica de um amigo.
O Adair, também colega do curso de Letras da UFRGS, faz a disciplina de produção textual e sempre me apresenta seus textos na pausa para o café.
Ele, que possui uma gostosa ironia, fica com aquela carinha simulando seriedade e eu, discreta como ninguém (e já apelidada de "Carlinha Sorriso"), fico dando sonoras gargalhadas no bar do Antônio, passando por louca, enquanto leio suas crônicas. O dono do bar já me olha desconfiado quando chego lá nas quintas-feiras à tarde... Mas tudo bem.
Quando li esta dos pedestres lembrei de cara da Carmen. São poucos os que tem a possibilidade de se aventurar pelo trânsito porto-alegrense de carona com a D. Traça. Olha, é inesquecível. Os comentários, a ira, o sarcasmo e a intolerância para as barberagens alheias chegam a ser literários! Tudo isso porque temos uma larga fauna de pedestres (e lógico, de motoristas!!!) solta nas ruas de Porto Alegre. Mas lendo o texto do Adair fiquei pensando que nós da Traça também temos os nossos "pedestres". Bah, tanto na loja fisica, quanto na virtual, atendemos os mais variados tipos de cliente... mas isso é assunto para uma próxima crônica.
Vocês que não são do Rio Grande do Sul aproveitem este olhar quase etnográfico sobre os transeuntes desta cidade...Vamos dar ao blog hoje uma cor local.
O Pedestre Porto-Alegrense
(por Adair Pereira Souza)
O Dicionário Houaiss, numa de suas definições para o verbete pedestre diz “que ou aquele que anda ou se encontra a pé”. Partindo dessa premissa parece que todos os pedestres são apenas seres que locomovem-se com as suas próprias pernas (e pés), mas a realidade é bem outra. Existem muitas variações desse ser. Examinemos os pedestres em Porto Alegre, por exemplo, cidade onde circulamos diariamente. Em um simples passeio de carro observaremos alguns tipos deles: o pedestre-pedestre, que nunca dirigiu um automóvel (ou se o faz, faz muito mal). Esse exemplar é aquele que ao cruzar uma rua ou avenida não aguarda na calçada, atrás do meio-fio: desce dela, muitas vezes em esquinas perigosas e movimentadas desejando que o trânsito pare ou diminua o seu fluxo para que ele atravesse. O pedestre-bündchen-zulu julga estar desfilando em uma passarela e,ao cruzar a rua, com o semáforo já abrindo para os veículos, além de não apressar o passo o diminui, olhando para os motoristas que aguardam raivosos a sua performance ser completada para arrancar, com aquele olhar lânguido e superior de modelos famosos em uma passarela do eixo Paris-Milão-Nova Iorque. O pedestre-radical, por sua vez é aquele que atravessa avenidas movimentadas esquivando-se por entre os carros, ônibus, lotações, motos, bicicletas com a maior naturalidade. O pedestre-distraído é aquele que só se deu conta que atravessou a rua, sem olhar para todas as direções, quando está do outro lado e sente aquele frio percorrer-lhe a espinha, as pernas bambearem, ficar com vergonha de si mesmo e agradecer a alguma entidade superior por não ter virado uma borboleta branca pintada postumamente pela fundação Thiago Gonzaga. O pedestre-bem-educado, por sua vez, ao ter-lhe sido dada prioridade para atravessar a rua (coisa rara) agradece, seja com um obrigado (perceptível através da leitura labial), seja com um gesto das mãos ou do dedo polegar. O mal-educado, além de não agradecer (mesmo que lhe tenha sido dada uma rara prioridade para atravessar) vocifera palavrões, também perceptíveis pela leitura labial, principalmente da palavra “fi-lho....” que prenuncia outras tantas que se seguirão. O uso dos dedos é opcional, mas certamente não é o do polegar: certamente o indicador será mostrado, quando não o indicador e o médio. O pedestre-ioiô é muito perigoso – para si mesmo e para os motoristas, ainda mais se estiver em grupo. É um tal de vai-vem-vem-vai-vai-volta-volta-vai em frações de segundos. Ele é um forte canditado a virar borboleta branca. O pedestre-fantasma, além de olhar para o vazio, ou para qualquer outro lugar que não seja a rua nem se deu conta de que a atravessou, aliás nem viu a rua. Acha que os carros passarão por ele sem feri-lo. Deve ser um fã de Patrick Schwayze, protagonista do filme “Ghost”. Como Houaiss define “ que ou aquele que anda a pé.....” é um pedestre, temos o pedestre-cavalo, um perigo real para si e para um caminhão, inclusive, o pedestre-gato que, se não tiver sete vidas vai acabar virando tapete de asfalto, o pedestre-pomba que, mesmo sabendo voar segue o mesmo caminho do pedestre-gato virando um amontoado de penas grudadas no chão. Há, entretanto, um pedestre de quatro patas que pode ser subdivido em dois: o cachorro-rueiro e o cachorro-caseiro (se for de apartamento, pior ainda). O rueiro é esperto, pára, olha para os dois lados, aguarda a sua vez, arrisca, volta para a beira da calçada, sobe o meio-fio. Respira fundo, vai. O pedestre-cachorro-caseiro é bobão, fica atordoado com a barulheira do trânsito, não olha para lugar nenhum, que não seja o outro lado da rua. Se não pediu algumas vidas emprestadas para algum gato amigo corre o mesmo risco do pedestre-gato, do pedestre-pomba: vira um amontoado, triste de se ver, sem direito a borboleta.
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