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Série Livros
Numa dessas tardes ...
Autor: Luciano Gomes
Data: 26/04/2008
 
Numa dessas tardes de trabalho dei um pulinho na área da CTI deste sebo, onde a Lu “cuida” dos livros que precisam de restauração. Havia um livro de capa dura, marrom, detalhes em prata e preto, na caixa de descartes. De bonita aparência, estaria em bom estado se não fosse trabalho executado por cupins, de capa a capa. E como os buracos se concentravam nas primeiras páginas e não impediam a leitura, fiquei com ele. O nome do livro é Fruta do Mato, da autoria de Afrânio Peixoto.

Nunca tivera notícias desse autor até então, mas menos a curiosidade que a simples vontade de ter livros me impulsionaram a apropriação dele, já que seria descartado mesmo. Além disso, a qualidade do livro também foi estimulante para a decisão, por ser uma das ótimas publicações da W. M. Jackson, de 1949.

Sem muitas expectativas, comecei a ler. Aliás, havia expectativas. Nutria comigo aquele típico preconceito, próprio do nosso tempo pós-moderno, que desacredita tudo que é antigo e/ou tem aparência de velho. Talvez até com uma vontade de desfazer esse infeliz sentimento, dei início à leitura. E qual surpresa!

Numa escrita leve, com narrativa em primeira pessoa, o autor dá vida ao Dr. Vergílio de Aguiar, o qual revela as memórias das relações com dois grupos de amigos, um na cidadezinha baiana de Canavieiras e outro na fazenda de um antigo conhecido seu, o Dr. Américo. As conversas giram em torno de três assuntos: a jovem Gracinha, bonita moça em idade de casamento, de interesse de três personagens, incluindo o próprio protagonista; a compra da fazenda do Corre-Costa, à venda por um preço irrisório devido à crença da mesma estar amaldiçoada; e por fim, a misteriosa esposa do Dr. Américo, a Dona Joaninha.

Em linhas gerais, fiquei impressionado (sinceramente impressionado) com o realismo da narrativa, isto é, com honestidade com a qual Vergílio se expõe ao leitor. Apesar do consenso de seus amigos em relação à integridade moral de sua figura, o protagonista toma, por vezes, atitudes não condignas de algo “moral”. Dentre elas: estimular um amigo a iniciativas as quais ele próprio não acredita sucesso possível, dissimular seus próprios interesses e sentimentos, mentir quando “confidencia” seus projetos e, até, trair a confiança de um amigo, sem que este tome conhecimento. De vontades às vezes pouco estáveis, demonstra pequenas frustrações quando seus cálculos não procedem e, inclusive, quando acabam dando certo. Mas não que se deduza destas linhas a imagem de um verdadeiro cretino ou homem confuso. Na realidade, o protagonista revela as incertezas, má vontades, projeções, incômodos morais, pequenos prazeres, divagações, pontos de vista e sentimentos comuns a todos, mas sem usar os disfarces do hábito. O conflito entre vontade e dever, por exemplo, é descrito de uma forma muito leve no seguinte trecho:

Nessa luta silenciosa e talvez trágica em que o meu sentimento espontâneo e o meu senso refletido se vêm debatendo há dias, não é menos triste a atitude de minha consciência que assiste a tudo, não direi indiferentemente, mas parcial, indignamente parcial, quando deviam alarmá-la os escrúpulos de amizade, os deveres da hospitalidade, as imposições da moral. Daí deduzo que o que chamamos consciência não é a razão moral, é apenas a justificativa do instinto. Não posso ser mais explícito. Disse demais, e disso me envergonho.

Estas linhas, na minha leiga opinião, tornam explicito o mérito do autor: conseguir falar de coisas bastante difíceis de uma maneira leve, simples, franca, indo direto ao ponto, sem “mascaramentos”.

Além disso, uma especificidade da história me chamou a atenção: o período. O ano da narrativa é o de 1889, um pouco depois do “canetaço” da Princesa Isabel, motivo pelo qual as personagens se debruçam sobre o tema da escravidão, discutindo moralidade deste sistema econômico e, mais interessante, contando causos. As conversas causam certo fascínio, mostrando pontos de vista possivelmente correntes na época, inesperados para alguém do século XX. Não faltam também as discussões políticas entre liberais, monarquistas e republicanos, nas quais o protagonista não demonstra muito interesse.

Fica aí a sugestão: passe na biblioteca mais próxima e desencalhe esse livro (possivelmente empoeirado) da estante. Vale a pena! E, para terminar, mais uma palinha, um pouco longa, nas palavras críticas de Zoroastro, amigo do protagonista, destinada aos literatos em geral:

Pode brincar, mas é assim mesmo... As figuras que vocês imaginam e descrevem são absurdas, porque tal é herói, tal ladrão, tal ciumento, tal hipócrita... mas hipócrita, ciumento, ladrão ou herói exclusivamente... E a vida nos mostra que há assassinos de nobres qualidades, bandidos de bom coração. Pode o sonso ser excelente pai de família, e a faceira, honestíssima senhora. Um homem ou uma mulher não representam a vida, como nos romances, uma virtude ou defeito... É só por isso que havendo tantos, não há dois sujeitos iguais. As chamadas criações literárias são entretanto reduzidas. Otelo e Iago, Dom Quixote e Sancho Pança, Tartufo e Harpagão... todos juntos, antigos e modernos, não dão um milheiro de tipos humanos. A humanidade é bem maior. É que a imaginação que os criou é limitada, e a vida que os outros vivem, infinita. Quando os leitores procurarem a realidade na arte, haverá menos personagens brilhantes, excessivas, magníficas, odientas, miseráveis... haverá mais homens e mulheres alternativamente bons e maus, grandes e mesquinhos, bravos e covardes, e nos quais essas qualidades se anulam ou se compensam, dando a imensa maioria dos que não têm caráter, mas que nem por isso deixam de viver e fazer a vida nossa e dos outros. Por isso, o enrêdo que vocês literatos arranjam é artifício, jogo obtido com pedras e cartas imaginárias, que só visam o feito a produzir, soluções bonitas ou horrorosas, esplêndidas ou nefandas, para impressionarem os leitores de agora, que também, pouco se importam com a verdade, e apenas com seu prazer passageiro... A vida é outra coisa... não se enquadra nas suas patranhas presumidas, contos da carochinha para meninos grandes...
 
Comentários...
Data: 29/04/2008
Nome: Marianne
Crítica literária das melhores,transmitindo de forma clara (também leve) e agradável de ler, o estilo de A. Peixoto. Outro livro interessante do mesmo autor
é "Bugrinha",
narrando na primeira pessoa, as memórias do relacionamento de um ex-estudante de medicina da classe abastada, com uma humilde bugrinha apaixonada por ele.
Embora no espaço incorreto, aproveito para parabenizar Luciano Gomes e sobretudo a Carmem Menezes, por essa Traça apaixonante.
Sucesso sempre!
Data: 29/04/2008
Nome: luci
Tem também o Coelho Netto, absolutamente esquecido.
Data: 29/04/2008
Nome: lilico
Isto é o que se espera de um site sobre livros. Um pouco de arqueologia também...
 
 
Veja também:
12/04/2008 Caos e Reparação
09/04/2008 Roda do Tempo
 
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