Estava eu a folhear uma edição de 1902 de "In illo Tempore", memórias do tempo de estudante do autor português Trindade Coelho, quando me deparo com um capítulo inteiro dedicado às "sebentas". Para quem não sabe ou não lembra, "sebentas" eram as "apostilas" de outrora, usadas na Universidade de Coimbra. Alguns autores acreditam que daí deriva o nome "sebo" dado ao comércio de livros usados.
O texto é delicioso, e aí vai uma amostra:
In illo tempore – no tempo em que eu andava em Coimbra, ainda a boa e immortal sebenta reinava em todo o seu esplendor! Eu nem fazia sequer ideia, ao chegar em Coimbra, do que vinha a ser isso da sebenta; - mas industriado logo a tal respeito, vim a saber que era uma espécie de folhinha lithographada, formato – 8º, que sabia todos os dias compendiando a explicação do lente; que se chama sebenteiro o que a regia; que custava sete tostões por mez cada uma; que eram tres em cada anno, visto as cadeiras em cada ano serem tres; e finalmente, que emquanto o lente explicava a lição para o dia seguinte, só o sebenteiro ouvia o lente, e que os mais, todos, e eu portanto, podiam muito bem ler o seu romance, fazer o seu bilhetinho e passá-lo, ou commentar os que vinham dos outros, - ou então, se preferissemos, dormir ou fazer versos!
Não havia nada melhor! Além d'isso, algumas mettiam também suas piadas; outras davam caricaturas; - e sebenteiro havia que amenisava por tal forma aquella estopada, que até dava versos para o fado no fim da sebenta, e convocava os condiscipulos, em annuncios, para troupes aos caloiros, ou outras pandengas!
As sebentas tinham em geral oito páginas, e cada um ia pelas suas ao cahir da noite, e eram duas por noite; - mas se o lente se tinha alargado na prelecção, ou o sebento era massador, ás taes oito páginas acresciam outras, - e a esse supplemento, que era amaldiçoado, chamava-se o resto!
Ora, mas no meu tempo ainda a sebenta era acatada, e ninguém se lembrava por lá de lhe fazer troça! E como ella, coitada, tinha sido mammadeira dos ursos, e até de muitos o ganha-pão, os ursos, quando se viam lentes, não só a toleravam, mas...inspiravam-na! Havia tal que não confiando no sebenteiro, até lhe dava os apontamento para a fazer; outros escreviam-na ipsis verbis e o sebenteiro tinha só o trabalho de a copiar; e outros havia, e até dos mais carrasquinhos, que recebiam à entrada a aula um exemplar, que o sebenteiro lhes entregava em mão! O Chaver, por exemplo!
Está pois a vêr-se que a sebenta era uma instituição universitaria; - mas ainda assim. Coisa curiosa, cheirava sempre a contrabando; e tudo quanto de mais difficil podia desafiar na aula a habilidade d'um cábula, se era chamado à lição, cifrava-se em manejar a sebenta com habilidade, de modo que o lente não visse...Elle bem sabia que estava lá; mas enfim, era preciso esconder essa imostura com outra impostura, - e isso era um trabalhinho de prestidigitação, em que se alguns eram eminentes, outros, coitados, eram uma lastima!
Bom estudante, em geral, era pois, o que manejava a sebenta com habilidade, - e alguns havia de tal modo peritos, que sugavam em lhe deixar uma gotta, e o lente nem percebia...Ôlho na sebenta, ôlho no lente, passando-a atravez do livro se era preciso voltar as folhas, parecia até que nem tinham sebenta; e os outros menos habilidosos, esses ou a extractavam em pedacinhos de papel onde só figurava de apotamentos, ou então resumiam nas margens o texto das paginas, e deixando as margens fóra d'um livro, ou em geral de um folheto qualquer que se podesse enrolar em fórma de batuta, cantavam a sebenta como uns papagaios, - e ia-se a vêr não sabiam palavra!
...Por isso me diziam uma vez Manuel do Marco da Feira, dono d'uma lithographia, ao ouvir a Cabra tocar para as aulas no dia seguinte, que era o primeiro do anno lectivo:
- “Bem! Começa-se a estudar ámanhã a maneira de se não estudar!” “ |
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