Recebi hoje o email abaixo, do professor Esem Pereira Cerqueira, do Departamento de Anatomia do ICB/USP. Não conheço exatamente a situação, mas é significativa da forma como nossa memória cultural vem sendo tratada. O relato de minhas aventuras e desventuras em São Paulo fica para amanhã.
Manifesto lido aos alunos da Faculdade de Medicina da USP, conclamando-os a defenderem o acervo e o espaço ocupado pelo Museu Histórico Prof. "Carlos da Silva Lacaz". Além disso, no exercício de cidadania, enconrajando-os a defenderem um patrimônio público histórico e cultural do povo e, em particular deles próprios, alunos desta instituição.
Contamos com o apoio e envolvimento de todos vocês, sobretudo do Sr. José Mindlin. Grato, Prof. Dr. Esem P. Cerqueira Professor de Anatomia Humana do ICB/USP e Coordenador do Museu de Anatomia Humana Prof. "Alfonso Bovero" - MAH – USP
MANIFESTO AOS ALUNOS AOS ALUNOS E EX-ALUNOS DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP
Salvem o Museu Histórico Prof. “Carlos da Silva Lacaz”!
“A acomodação contemplativa é a pior forma de covardia humana” (Jorge Forbes)
“Eu ainda prefiro cultuar os meus mortos e as minhas lembranças, porque são eles que me auxiliam a compreender o presente e a construir com maior perspectiva e segurança os dias de amanhã. Bendita a memória daqueles que a morte já imortalizou e que sobre todos, sobre quantos lhes estão continuando o ensino, o exemplo e o apostolado, vibrem unânimes e entusiásticos os aplausos dos paulistas e de todos os brasileiros.” (Prof. Carlos da Silva Lacaz).
Referindo-se ao acervo do Museu Histórico da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o Professor Lacaz segue com as seguintes palavras: “(...), volto o meu olhar para trás e lá diviso os marcos mais afastados que deram origem e rumo ao grande caminho já percorrido. Através dele, vejo todo o meu passado, de estudante pobre às culminâncias da cátedra, procurando sempre ensinar e educar, haurido das lições paternas.”
Com o apoio e a colaboração de professores e ex-alunos, mais uma comissão composta pelos Doutores Duílio Crispim Faria, Dante Nese e Irany Novah Moraes (na época presidente da Associação dos Ex-alunos da Faculdade de Medicina), a diretoria da Faculdade de Medicina da USP, com a deliberação unânime da Congregação cria, em 07 de março de 1977, o “Museu Histórico da Faculdade de Medicina da USP”. É inaugurado em 05 de junho deste mesmo ano, e o Professor Lacaz indicado e aprovado pela Congregação da Faculdade como Diretor Vitalício Honorário do Museu. Em 27 de agosto de 1993, o Museu Histórico da Faculdade de Medicina passa a se chamar Museu Histórico “Prof. Carlos da Silva Lacaz”, em homenagem e reconhecimento pela sua dedicação científica e humanística.
Em exposição permanente, o acervo foi formado inicialmente com doações de famílias de ex-alunos e coleta documental dentro da própria Faculdade de Medicina. Este acervo é exposto de forma temática, enfatizando os aspectos históricos e culturais e destacando os grandes momentos da medicina no decorrer do desenvolvimento educacional, científico, econômico e social brasileiro. O que nos permite, pelo menos em parte, compreender a sociedade como um todo. Incluído a este acervo, encontramos ainda objetos pessoais, instrumental médico, publicações (Honras militares concedidas aos médicos da FMUSP – Revolução de 1932; Bula do Papa Clemente VI – c. 1346), livros raros (Coletânea de livros de Hipócrates – 1657; Os Lusíadas – 1880, de Luiz de Camões; Dom Quichote de La Mancha – 1930, de Miguel de Cervantes Saavedra; As Pupilas do Senhor Reitor – 1880, de Júlio Diniz), pinturas (Tarsila, Portinari, Takaoka e outros) esculturas (São Rafael – séc. XIX , em madeira entalhada) e mobiliários antigos (móveis da Diretoria da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo quando da sua criação).
O Museu tem desempenhado uma função social muito importante através do ensino em espaços não formais, proporcionando exposições temporárias e itinerantes. Procurando atingir diferentes públicos, tem editado livros (o mais recente, intitulado “A Casa de Arnaldo”, Editora Revinter, 2004 foi prefaciado pelo Ex-Governador Geraldo Alckmin) e artigos fundamentados em pesquisas de seu riquíssimo acervo. Ministra cursos extra-curriculares sobre a história da medicina, ocasião em que trata deste assunto em um contexto mais amplo de relação entre ideologias, representações sociais e ciência médica.
A importância deste Museu é, portanto, não só do ponto de vista da salvaguarda do patrimônio histórico da Faculdade de Medicina, mas principalmente do ponto de vista público-social e cultural. Seus visitantes são estudantes, professores, pesquisadores, funcionários e profissionais desta e de outras áreas do conhecimento humano. Pessoas provenientes deste e de outros estados da Federação, assim como de outros países. Desta forma, o Museu Histórico “Prof. Carlos da Silva Lacaz”, de acordo com os Estatutos do Conselho Internacional de Museus (1987), apresenta-se como uma instituição permanente sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, aberta ao público, e que faz pesquisas concernentes aos testemunhos materiais do homem e de seu meio, adquirindo-os, conservando-os, comunicando-os e, especialmente, expondo-os com o propósito de estudo, educação e deleite. Trata-se, portanto, de um patrimônio público histórico e cultural criado há 29 anos por uma instituição pública de ensino superior, e que deve ser preservado e ampliado. Nunca, às custas de qualquer argumento, reduzido ou desfalcado. Sob a responsabilidade da Direção da Faculdade de Medicina, representada pelo D.D. Senhor, Prof. Dr. Giovanni Guido Cerri, e de sua Congregação (fieis depositários de todo este acervo), cabe-lhes zelar e responsabilizarem-se pelo Museu Histórico.
Na defesa da tradição da Faculdade de Medicina, o Professor Lacaz referia-se sempre aos danos causados à tradição desta instituição, advindos da reforma universitária (1968-1969). Dizia ele: “Homens pobres de idéias e de ideais sacrificaram esta grande Casa de Ensino, fazendo tabula rasa dos costumes e tradições que, se existem, é porque representavam, de algum modo, uma realidade.” “(...) O Museu Histórico da ‘Casa de Arnaldo’ é hoje uma esplêndida realidade, mostrando a grandeza de uma instituição que alguns iconoclastas atingiram de maneira fria e antipatriótica.”
Hoje, outra reforma. Não exatamente nos moldes daquela à qual se referia o Professor Lacaz, mas que também veio para dar algumas modificações físicas internas ao prédio da Faculdade. Importantes, claro, mas que garantisse o não comprometimento do espaço e acervo do Museu Histórico Prof. “Carlos da Silva Lacaz”. Os Laboratórios de Investigação crescem em número e tamanho. É necessário mais espaço! Fala-se em salas e banheiros novos. A REFORMA, finalmente chega à porta da última guardiã da tradição da Faculdade.
Quem visitou o Museu Histórico nesta segunda semana de abril pode sentir o desalento e a aflição de seus funcionários. Foram avisados de que a qualquer hora a transportadora Granero retirará todos os livros do museu, sem nenhuma assistência técnica especializada para transporte das obras raras do acervo. Sem saberem para onde irão Hipócrates, Camões, Cervantes, Júlio Diniz, Perugino e outros (em um momento são informados de que irão para a biblioteca; em outro, dizem-lhes que tudo irá para um depósito), impotentes, restam-lhes as lágrimas.
Outra mudança sutil está no papel timbrado para a correspondência do Museu Histórico. Anteriormente, como aprovado pela Congregação da Faculdade (27/08/1993), tínhamos a seguinte grafia: Museu Histórico “Prof. Carlos da Silva Lacaz”; hoje, por determinação de alguém que talvez tenha, por ignorância ou má fé, desautorizado a Congregação, ficou simplesmente “Museu”. Então, quem seriam, na concepção do Professor Lacaz, os “aríetes da demolição e os reformadores (ou deformadores) iconoclastas” de hoje? Quais os homens ou mulheres pobres de idéias e de ideais a sacrificaram agora o Museu Histórico?
Segundo um conceituado jurista, Professor da Faculdade de Direito da USP, Prof. Sérgio Marcos de Morais Pitombo (in memoriam), não existem testemunhas isentas.Para ele só há duas alternativas: ser cúmplice, ou contrário ao ato observado ou suspeito. Não há tempo a perder...Resta-nos agir rápido, tomando medidas eficazes. 1. Preventivamente, o Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina da USP, como representante legal dos interesses dos alunos desta Instituição, deverá dirigir-se ao Ministério Publico Estadual para, imediatamente, entrar com um pedido de liminar impedindo que se mexa no acervo. Alegando para isto, suspeita de cuidado inadequado com o patrimônio público histórico e cultural da Universidade de São Paulo. 2. Comunicar o fato às instâncias da USP responsáveis pela proteção do patrimônio desta Universidade como o Centro de Preservação Cultural (CPC) da USP, Rua Major Diogo, 353, tel. 3106 3562. 3. Ouvir a comunidade (alunos e ex-alunos, professores e funcionários), recolhendo o maior número possível de assinaturas para juntar ao processo, provando ao Juiz o interesse desta comunidade em preservar o Museu onde e como ele está, assim como também a sua identidade original (Museu Histórico “Prof. Carlos da Silva Lacaz”).
Qualquer auxílio jurídico necessário poderá ser obtido junto ao Departamento Jurídico (DJ) da Faculdade de Direito da USP. 4. Contatar a imprensa escrita e falada e a Associação dos Ex-alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. 5. Contatar o Departamento de Museus e Centros Culturais – demu@iphan.gov.br. junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. 6. Procurar a Direção da Faculdade de Medicina, a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão ou mesmo a Reitoria para juntos encontrarem a solução definitiva desta questão. 7. Tomar outras medidas que o Centro Acadêmico julgue necessárias.
Bom, mas se nada disso funcionar, prevalecendo a instalação dos banheiros, salas ou qualquer outra coisa em detrimento do espaço e acervo do Museu Histórico, é sinal de que, definitivamente, fizeram tabula rasa dos costumes e tradições desta Instituição. A tal ponto, que não se estranhará se alguém, em seguida, propuser que os livros retirados do acervo, para se tornarem úteis, sejam REFORMADOS em papel higiênico. Será o fim da grande Casa de Ensino. Aquela à qual costumava referir-se o Professor Carlos da Silva Lacaz.
São Paulo, 21 de abril de 2006 Prof. Dr. Esem Pereira Cerqueira Professor do Departamento de Anatomia do ICB/USP e Coordenador do Museu de Anatomia Humana “Prof. Alfonso Bovero” – MAH
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