Morreu hoje Bruno Tolentino. Um dos poucos poetas brasileiros contemporâneos brasileiros que consigo ler, é figura quase desconhecida, um maldito. Acusado de elitismo, academismo e vários outros “ismos” ofensivos, era solenemente ignorado pela crítica e pela academia. De fato, tinha vários defeitos: escrevia bem, era rico, descendente de famílias aristocráticas, tinha parentes importantes e famosos, podia não ser bonito, mas era charmoso e teve mulheres muitas e interessantes, era católico e conservador e, acima de tudo, amava uma polêmica. Para piorar, viveu longos anos no exterior, foi professor em Oxford e amigo de intelectuais realmente importantes. Tinha, enfim, um perfil a ser odiado pela crítica medíocre, invejosa e politicamente correta. É a velha falácia ad hominem, confundindo o homem com sua obra.
Não vou tentar aqui fazer crítica literária, vou mostrar um pouco do homem. Encontrei no blog de outro maldito brilhante, Reinaldo Azevedo, uma entrevista à Veja, de 1996, onde nosso polemista brilha e, infelizmente, antecipa-se no tempo. Vou colocar aí abaixo alguns excertos – o texto completo está lá no blog, leiam. Mas que a polêmica não obscureça a obra...
Excertos da entrevista concedida à Veja, março de 1996.
O Brasil é um país vital que está caindo aos pedaços.
É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura.
Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?
A usurpação do poder legal por vinte anos deixou-nos seus legados nas patotas literárias que desde então controlam a entrada em circulação, ou a exclusão pelo silêncio, de livros, autores, obras inteiras. Nas redações dos jornais como nas universidades, prevalece a censura, e o único critério para sancionar uma obra parece ser o bom comportamento do neófito, sua genuflexão aos ícones da hora. Nossa crítica suicidou-se, matando o diálogo, o debate e a polêmica. Mascarados de universitários, esses anõezinhos conseguem dar a impressão de que a inteligência nacional encolheu, de que, em Lilliput, só se sabe da cintura para baixo.
A crítica brasileira não existe mais. Cometeu um haraquiri muito bem pago. Trocou sua independência por cátedras e verbas. É uma gente venal, vendida, que controla as nomeações para as cátedras, bolsas e verbas.
Falar, por exemplo, dos males que a ditadura causou ao país me parece cada vez mais um sintoma do que uma causa. É um sintoma do Febeapá, vem no bojo dele. A imbecilidade já crescia. A ditadura simplesmente institucionalizou a falta de respeito pela realidade, pelo próximo, pela legalidade. A verdade foi substituída pela verossimilhança, a literatura, pela imitação da literatura.
Só entro numa universidade disfarçado de cachorro ou levado por uma escolta de estudantes. Sou um vira-lata muito barulhento. Não vão me convidar para nada porque eu quero acabar com os empregos e mordomias deles. Quero que eles passem por todos os exames de Oxford para ver se sabem mesmo alguma coisa.
A escola pública desapareceu. A fórmula de sobrevivência do país é a trilogia emprego público, de preferência com aposentadoria acumulada, condomínio fechado e plano de saúde.
O departamento de filosofia da Universidade de São Paulo nunca produziu filosofia nenhuma, não por inépcia ou preguiça, mas por um estranho espírito de renúncia parecido ao espírito de porco.
Não espanta que, por quatro décadas, o "rigor" (com aspas) uspiano não produziu outro resultado senão o rigor mortis de uma filosofia que poderia ter sido o que não foi.
A cultura filosófica brasileira é quase nula. Nossos professores gastaram décadas lendo Marx, em vez de Husserl. Aqui só dá o tripé Kant, Hegel e Marx. E onde está a grande tradição escolástica que vai de Aristóteles a Husserl? Isso não é lido nem discutido aqui.
O besteirol, se havia, estava lá longe, nos cantos. Hoje ele está no centro. Tem razões mercadológicas, de dinheiro. Os artistas devem ganhar muito, muito dinheiro, para ir gastar em Miami. Só não é possível que esses senhores usurpem a posição do intelectual. Eles são um formigueiro com pretensão a Everest.
O Brasil que eu conheci, e do qual me recordo vivamente, era um país de grande vivacidade intelectual, mesmo sendo uma província. Não estou sendo duro com o Brasil. Quero saber quem seqüestrou a inteligência brasileira. Quero meu país de volta.
|
|
|