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Série Economia e Política
Essas Morenas
Autor: Luciano Gomes
Data: 29/02/2008
 
Uma das grandes questões públicas do nosso tempo é a do crivo do politicamente correto. E não o é por acaso, visto as comuns manifestações de racismo, homofobia e sexismo no cotidiano, inclusive em meios de comunicação de massa, as quais agridem a integridade moral e a relativa liberdade de escolha de muitos cidadãos. Mas fora a boa intenção desta preocupação, notamos, em muitos casos, uma exacerbação e um mau procedimento na análise do que pode ser politicamente incorreto, chegando quase a um estado de paranóia e de caça às bruxas. Se você chamar um deficiente visual de cego, está fadado a não passar pelo crivo do correto; se você disser que “a Coca-Cola é o sangue negro/preto do capitalismo”, você pode até ser chamado de racista (agora só gostaria de saber qual é a cor da Coca-Cola...).

E qual tem sido o proveito de passar as palavras pelo crivo do “politicamente correto”? Qual tem sido o efeito de julgar as palavras a partir de uma normatividade, além de simplesmente banir palavras e manter padrões antigos com nomes diferentes? Acredito ser necessária uma mudança de procedimento para se pensar o quanto as palavras são ou não inconvenientes. Tenho uma pequena tentativa de proposta (coisa comum a todo estudante ligado à área das ciências humanas), que começa por uma reflexão sobre a própria noção de palavra.

A palavra na vida social pode ser pensada a partir do modelo binário de corpo e alma. Enquanto marca gráfica ou sonora, a palavra é essencialmente um corpo sem vida, sem significado em si; mas, ao circular, ao ser pronunciada/ouvida, escrita/lida, na experiência do dia-a-dia, a palavra é significada e re-significada, além de produzir significação, isto é, acaba por ganhar sua “alma”. O signo gráfico/sonoro, corpo mutável ao longo das décadas, mas essencialmente sem vida, carrega consigo algo vivo na dinâmica da comunicação – o significado, sua espécie de “alma” historicamente determinada, que não é a palavra propriamente dita. Pensando desta maneira, parece-me que condenar exclusivamente a palavra não é senão atacar um corpo inerte. Nosso cuidado ético deveria cair não sobre o uso ou não desta ou daquela palavra, mas sobre o regime de significação sob o qual a palavra em questão está inscrita, isto é: a eficácia do significado ligado à palavra sobre a sensibilidade e a capacidade de decisão das pessoas; o posicionamento ideológico, político, racial e sexual de quem se pronuncia/escuta; os jogos de saber e poder; os imaginários e representações historicamente correlacionados à palavra específica. Não são as palavras como “negro”, “pobre”, “mulato” ou “bicha” os alvos por excelência de uma crítica pertinente, mas sim os sentidos possíveis de serem a elas agregados num contexto específico, no nosso caso, num País de origem colonial, construído sob a marca da dominação masculina, branca e oligárquica (isto é, relacionada à casa grande).

É o momento da enunciação da palavra, seu contexto de acontecimento, e não a grafia em si, que deve ser levado em consideração na prática da reflexão. Veja-se este exemplo extremado: dizer bicha em Portugal não tem nada do efeito discriminatório e hierarquizador quando a mesma palavra é aqui, na Colônia, pronunciada. Bicha, em Portugal, significa fila. A palavra, por si, nada diz. E se uma mesma grafia pode ser carregada de sentidos completamente diferentes em contextos diferentes, acredito estar no regime de significação o verdadeiro alvo de reflexão. Quando utilizo o termo negro, o que quero dizer? É um adjetivo referente à cor? À etnia? Ou ao caráter moral de algo ou alguém? A mudança da tradução de Dark Side, da série Star Wars, de Lado Negro para Lado Sombrio, por exemplo, me pareceu muito pertinente nesse sentido, na medida em que se utilizava anteriormente a palavra negro como sinônimo de mal. Mas o caso desse termo, a princípio, é específico de lugares onde a escravização de africanos foi presente, pois possivelmente na China a relação entre mal e negro não existe e, se existir, não deve ferir a nenhuma das muitas etnias lá existentes. As questões étnicas chinesas são outras.

Esta preocupação, de se pensar o sentido das palavras empregadas, me parece uma necessidade diária, visando o refinamento de conceitos banalmente utilizados, para analisar, dar visibilidade e desconstruir certos pré-conceitos por nós naturalizados. Desta forma, haverá possibilidade de diminuir a repetição ou inconsciente apropriação de imaginários e representações que estabelecem uma hierarquia entre os sexos, as classes, as religiões e as etnias. Deve ser uma preocupação por se tratar de motivações internalizadas desde criança, as quais existem de maneira latente no nosso inconsciente, vindo à tona de forma quase despercebida, visto ser tomado por algo quase natural. A atual novela das nove nos presenteou, no dia 11 de fevereiro, com um infeliz exemplo. O senhor feudal do morro, interpretado por A. Fagundes, após resistir às tentativas amorosas da entrevistadora que atua no papel de Guigui, explica sua negativa nestes termos: “Guigui, (...) tu não é qualquer uma pra mim. (...) É muito especial, não é feito como essas morenas por aí não...”. Novamente, é a cor da pele o objeto em questão. No nosso regime de significação das palavras, entre um dos sentidos do adjetivo negro encontramos tanto a relação desta palavra com mal, ruim, imoral, feioe burro, como dos adjetivos negra, mulata, morena com mulher objeto sexual. Não é sobre a palavra que deve se voltar nossa atenção, mas aos significados possíveis de lhes serem agregados.

As preocupações do “politicamente correto” são bem intencionadas, mas, como diz o ditado, de boas intenções o inferno está cheio. Além da boa intenção, faz-se necessário utilizar um procedimento minimamente razoável para tornar visíveis pré-conceitos sutilmente camuflados nas palavras diariamente utilizadas. Parece ser radicalismo pouco fundamentado banir palavras do linguajar quotidiano; mais prudente é tentar perceber quais os contextos de uso em que a palavra pode tomar uma coloração depreciativa, evitando assim a (re) instauração na linguagem de uma naturalidade de hierarquias entre etnias, gêneros e opções sexuais e religiosas, construídas ao longo do tempo. É no dia-a-dia que se dá o espaço das mudanças mais salientes, importantes quando se mantém contato constante com amigos, colegas ou mesmo clientes .
 
Comentários...
Data: 03/03/2008
Nome: só passando
Você está meio confuso, não?
Data: 03/03/2008
Nome: carlos
Depois do papo mulherzinha, esta conversa politicamente correta dentro do politicamente correto. Que turma!
Data: 03/03/2008
Nome: Um Kara!
Heim?
Data: 04/03/2008
Nome: lucie
taí, gostei. não é tão raso quanto as patrulhas gostariam que fosse.
 
 
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