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Mais Lobato
Autor: Rabujo
Data: 29/04/2009
 
Retornemos ao Lobato.

Além do estilo delicioso, Na Antevéspera traz uma profusão de análises e opiniões sobre o Brasil da época. Lembremos que os anos 20 do século passado foram de grande efervescência política e cultural , com o Modernismo e o Tenentismo (com sua crítica da condução da nação pela velha política do café-com-leite da República Velha) prenunciando mudanças profundas. Nada escapa a Monteiro Lobato, com textos sobre economia, política, religião, literatura,   cultura e condição feminina. Nem da revolução russa ele foge - aliás, a visão de Monteiro é totalmente aberta em relação à Rússia bolchevique, mostrando a ânsia com que se esperavam mudanças também no Brasil. Bom humor e   crítica ácida se alternam com textos analíticos, diagnosticando os males nacionais. Alguns continuam contemporâneos, como aqueles sobre impostos, ineficiência do governo e corrupção política. Infelizmente.

Para completar, aí embaixo vai mais um excerto. Desta vez, de um texto em que Lobato  pensa o afastamento entre o português oficial e o que ele chama de “brasileiro”, a língua efetivamente falada pela população. Argumenta pela inevitabilidade da separação, pela especialização das línguas. Dá o que pensar, especialmente quando acabamos de tentar unificar o português brasileiro ao português europeu e a ao português africano.

Vamos ao texto, mantido na grafia da época:

Os gramáticos hão de convencer-se, afinal, de que a língua portuguesa variou entre nós, como acontece todas  as vezes que um idioma muda de continente. Como o mesmo latim variou em França dando o francês, em Portugal dando o português, em Espanha dando o espanhol. E que continuará a variar, a distanciar-se ainda mais e mais da língua mãe, até que um dia fique em face dela como está ela hoje em face do latim de Cícero. Seria fato virgem no mundo permanecer imutável, apesar da mudança de continente, o instrumento língua – que é eólio e varia até quando muda para um país visinho.

Em casos tais, freqüentes na historia, a regra é a língua velha ir ficando cada vez mais confinada entre os eruditos, enquanto a língua nova se expande no povo. Por fim vence o povo, que é o numero e a força. Nos paises europeus de base latina o latim resistiu quanto pôde, escorado pelos sábios e eruditos – os despresadores da “corrupção” popular. Dia houve, porém, em que toda a resistência foi inútil e d’alto a baixo a língua se tornou uma, pela vitória popular.

Entre nós estamos ainda longe do tempo em que o português  será língua apenas de um ou outro abencerragem feroz e não lido, mas tudo caminha para tal desfecho. O dissídio já está patente. O povo fala brasileiro e os próprios escritores que escrevem em português já o falam em família. Em casa, de pijama, só se dirigem á esposa, aos filhos e aos criados, em língua da terra, brasileiríssima.

Você ficaria com os argumentos da língua viva e dinâmica de Lobato ou com a “comunidade de língua portuguesa” de José Sarney (o verdadeiro pai destes acordos ortográficos) e sua turma de editores (loucos para reescrever e reeditar “tudo” na nova grafia)?
 
Comentários...
Data: 29/04/2009
Nome: Ruana
O tratado ortográfico não passa de um capricho desnecessário. Monteiro Lobato estava certo, as línguas estão cada vez mais diferentes.
Data: 29/04/2009
Nome: Fernando
Sarney? você só pode estar brincando heheheheh!!!
Data: 30/04/2009
Nome: setol
Vamos migrar logo para o inglês rsrs
Data: 05/05/2009
Nome: Evandro
Lobato era mesmo o rei do politicamente incorreto, com frases lapidares e preconceituosas, especialmente sobre a mulher negra, mas tinha também a cabeça aberta por outro lado. Pena que anda esquecido.
Data: 07/05/2009
Nome: docontra
não entendo. Monteiro Lobato era uma leitura obrigatória e chatíssima.
 
 
Veja também:
27/04/2009 Lobato é o cara!
 
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