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Em busca do livro perdido
Autor: Jeferson Tenório
Data: 30/01/2006
 
Sabemos que o homem é um colecionador nato. Coleciona tudo; broches, borboletas, latas de cervejas importadas, bonés, carros, aviões (para os mais abonados, é claro). Há também colecionadores mais excêntricos, pois há quem colecione sorrisos, como os palhaços, há quem colecione tristezas e dores, como Virgínia Wolf, há quem colecione amores como Vinicius de Moraes e Pablo Picasso, e há até quem colecione frases como fazia o crítico alemão Walter Benjamim. Mas creio que nada se compara ao prazer de colecionar livros (talvez eu esteja enganado). Para o colecionador de livros, muitas vezes, a leitura se torna secundária, pois ter o objeto-livro em mãos, possuí-lo, tornar-se dono de seus poderes intelectuais é o que dá êxtase ao colecionador. Acho que toda pessoa que tem a suas estantes abarrotadas de livros já deve ter escutado, alguma vez na vida, a seguinte frase “Puxa! Mas você leu todos esses livros”. Bom, se não me falha a memória (pois sou um bom colecionador de esquecimentos) o escritor italiano Umberto Eco escreveu um livro sobre o tema e que dá várias respostas possíveis para essa pergunta. Uma delas é a seguinte: “Não, eu não li todos estes livros, os que eu li estão num apartamento que aluguei só para eles”. Ótima! Jorge Luis Borges também gostava do assunto pois em algum lugar ele teria dito mais ou menos assim “Ao contemplar uma estante sei que morrerei antes ler todos eles, mas sempre há a possibilidade de lê-los, a qualquer momento. E esse é um dos grandes prazeres que a literatura nos dá”.

Mas o melhor mesmo é conviver diariamente com eles, digo isso por experiência própria, pois trabalhei por algum tempo num sebo de livros, no caso a ex-libris. Ora, quem tem uma paixão incondicional pelos livros o fato de estar trabalhando entre eles é degustar uma pontinha do paraíso. E não é exagero meu, pois, eu trabalhava no setor de cadastramentos, isto é, minha função era descobri-los, conhecê-los, saber sua data de nascimento, sua cidade natal, o pai, ou melhor, o autor, depois mergulhava em seu conteúdo, descrevia o número de páginas. E eu quase podia ser um pouco dos livros, sim estar entre eles era um pedaço do paraíso. Mas havia o mais difícil; descrever o seu estado de conservação. A paixão é cega. Pois no início, para mim, todos os livros estavam bem de saúde, mas aí, com tempo, com experiência do tato e da visão, a paixão serena e fica mais crítica.

Trabalhar com livros é como despetalar uma pessoa, porque ninguém conhece uma pessoa apenas olhando para ela, ou simplesmente cumprimentando-a, é preciso visitá-la, aos poucos, conhecer seus mistérios, residir em seu íntimo, sem atropelamentos. O livro é a mesma coisa, por isso procurava conhecer suas páginas, respeitava o seu tempo (sim porque cada livro também tem seu tempo), quanto mais informações você tem de um livro, mais interessante ele se torna para quem vai adquiri-lo. E depois dessa relação de pura intimidade com a obra ela era colocada à venda. Não sei precisar quantos livros passaram pelas minhas mãos, mas posso afirmar que cada um me deixou alguma coisa, pois como diria Drummond “de tudo fica um pouco”.

Claro que estou tendo um visão romântica da minha experiência de cadastrador, até porque numa relação de paixão nem tudo são flores. Havia aqueles livros que vinham sem título, sem autor, sem assunto, sem data, sem nada, sem vida. Ou então livros técnicos e que julgava chatíssimos, então eu pensava “como uma pessoa pode gostar disso, ora Baudelaire ou Pessoa dizem muito mais do que estas teorias complicadas”. Pura arrogância minha. Guardei as palavras da D. Traça (apelido dado à Carmen, proprietária da ex-libris), “qualquer livro é interessante, se não é para você, pode ser para alguém”. Depois dessa experiência passei a ter uma outra relação com os livros, tomei consciência de que todos carregam a história do mundo, que todos fazem parte de uma biblioteca universal, babilônica, infinita.

Para o colecionador sempre haverá um livro a conquistar, sempre haverá alguém em busca do livro perdido, busca incansável, vertigem bibliográfica. A busca pode durar dias, meses, anos, pode durar uma vida inteira, por isso, encontrá-lo significa não apenas possui-lo, mas sê-lo em cada vão momento.
 
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