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Série Pessoal
O fim do nominimo e o estado das coisas
Autor: Carmen Menezes
Data: 30/06/2007
 

Quero saber quem seqüestrou a inteligência brasileira. Quero meu país de volta.

Encerrei um blog recente com esta citação do poeta Bruno Tolentino. Em particular, me perguntam se concordo. Sim, concordo. A seguir, me questionam que país seria este. Bem, aí, a resposta é mais longa...

Em primeiro lugar, não sou Tolentino. Não tenho o conhecimento que ele tinha, não penso como ele pensava e, principal e infelizmente, não escrevo como ele. Também não descendo de famílias aristocráticas (apesar de resquícios do velho patriciado gaúcho por parte de pai) nem tenho amigos importantes (Belchior!).

Feitas as ressalvas, vamos ao que interessa. O país que quero de volta era, essencialmente, menos rombudo. Havia espaço para um refinamento do pensar, para uma delicadeza de intenções, para o debate, para o contraditório. Não, não idealizo nosso passado, só me parece que o presente é pior. Me refiro principalmente a duas cenas, a política e a cultural.

No universo político, vivemos a liquidação gradual das instituições republicanas. O próprio uso da palavra “republicana” está virando um acinte, pelo uso grotesco que dela têm feito alguns personagens de nossa tragicomédia (mais para tragi do que para comédia). Estamos caminhando para o completo afastamento entre as instituições, que servem basicamente a si próprias e a seus operadores, e o resto da população. A apropriação de partes do Estado por grupos de interesse agora é feita grosseira, aberta e desavergonhadamente. O últimos resquícios de pudor estão desaparecendo. A opinião pública, manobrada continuamente pelo aparato de comunicações, apenas se afasta. A sensação de anomia se alastra.

A cena cultural praticamente morreu. Onde estão as polêmicas? Onde estão as vozes discordantes? Tudo se resume à busca por patrocínio. Melancólico. Desestimulante. Querem provas? Pois lhe dou uma quentinha: o fechamento do site nominimo , um dos raros sinais de inteligência e convivência democrática que tínhamos. Era um dos poucos lugares onde podíamos ler interpretações radicalmente opostas dos mesmos eventos. Acabou, morreu. Tirado do ar por um grande portal (IG), oficialmente por falta de resultados financeiros. Ficamos ainda mais pobres e patéticos.

Ontem, um amigo de mais de vinte anos me visitou aqui no escritório e, reconhecendo em livros antigos eventos que foram importantes em nossa formação, comentou que já éramos história. Pois é, aquela esperança de um maravilhoso país do futuro também é só história. A esperança não se concretizou e parece cada vez mais distante. O pior de tudo é que as gerações mais jovens já carregam este cinismo. Para muitos deles, o melhor do Brasil é o aeroporto, quando funciona. Aeroporto Internacional, e só com a passagem de ida.
 
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