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Série Google
Grande Irmão e Monopólio Editorial
Autor: Rabujo
Data: 31/03/2009
 
Depois de um bom tempo sem  tempo para escrever o blog, estou aqui de volta. E não é conversa mole não. Ando trabalhando de 13 a 14 horas diárias, o que é meio demais para a minha idade e para o meu gosto. Principalmente para o meu gosto.  Não que o trabalho me incomode, pelo contrário, Mas a falta de algum tempo para um pouco de pesquisa,  leitura  e escritura faz falta para o espírito e, no fim das contas, para o próprio desempenho profissional.

Voltei por causa do Google. Como sabe quem acompanha nosso bloguinho, tenho sérias restrições às intenções do Grande Irmão de monopolizar o mercado editorial. Andei escrevendo alguns textos sobre isso, meio que pregando no deserto em meio ao ôba-ôba com as iniciativas espetaculosas do gigante. Pois agora ganhei reforço (olha a tecla SAP!) de dois aliados de peso: o Wall Street Journal e o Slashdot (que, a bem da verdade, há tempos anda desconfiado do Google).

Traduzi (bem livre e rapidamente), e publico abaixo, a matéria do Slashdot repercutindo um artigo de Lynn Chu, de uma entidade que representa escritores, no Wall Street Journal e o próprio artigo original. Amanhã, meus comentários a respeito. Veja também o artigo anterior:

http://www.traca.com.br/main/traca.php?dia=6&mes=2&ano=2009

Slashdot
Posted by kdawson


Já discutimos o acordo do Google com a Liga dos Autores algumas vezes. Agora o assunto é abordado pelo por um editorial do Wall Street Journal afirmando que o acordo arruinará um sistema de copyright que está funcionando, se for ratificado, como esperado, em junho por uma Corte Federal. o leitor daretoeatpeach escreve:

"Isto irá estabelecer um tal Book Rights Registry (Registro de Direitos de Livros)  onde os autores poderão optar por entrar, recebendo 63% da receita, com o resto indo para o Google. Enquanto até agora a Amazon domina o mercado de e-books, a parceria do Google com o a Sony criará uma séria ameaça: 500.000 livros contra os 250.000 da Amazon. Apesar de o Google estar atualmente publicando apenas livros que estão em domínio público, eles planejam vender os 7 milhões de livros que já escanearam (e continuam escaneando mais). Isto levanta uma série de questões sobre o futuro do mundo editorial: Será que queremos uma única empresa (o Google) controlando o acesso a informação? Os editores não devem receber uma parte do dinheiro, já que seus livros estão sendo escaneados? Se, no futuro, mais autores saírem do modelo tradicional de publicação, quando isto afetará a indústria editorial? A indústria editorial aprendeu alguma lição do advento do MP3 e de seu impacto na indústria musical?


Wall Street Journal
Lynn
Chu - Writers Representatives LLC

O Acordo Editorial do Google é um mau negócio para os autores.

Por que permitir que uma única editora destrua um sistema de direitos autorais que funciona bem?

Para atravessar as 385 páginas de jargão jurídico do acordo do Google é melhor ser um juiz do Supremo. A menos de algum upgrade no cérebro, uma pessoa comum entender esta monstruosidade até 5 de maio será difícil.

Esta é a data em que cada autor ou editor nos Estados Unidos deve decidir se opta por aceitar, rejeitar ou ignorar um grande esquema compulsório de licenciamento em benefício do Google. A maioria, em torno de 88% deve "ignorar" o acordo. Isto porque eles sabem que seus direitos de  exposição online têm valor, e a última coisa que querem é serem pastoreados como ovelhas em um gigantesco contrato.

Depois que o Google começou a digitalizar a biblioteca da Universidade de Michigam em 2004. a LIga dos Autores, a Associação das Editoras Americanas e um punhado de autores entrou com uma ação coletiva  por infração de copyright. No último novembro, estes "representates da classe" chegaram a um acordo com o Google que vai, se aprovado pela Corte Federal, permitir ao Google publicar livros fora-de-catálogo para leitura, venda, licenciamento institucional, venda de anúncios e outras atividades online. O acordo dará aos procuradores da ação  US$ 30 milhões; a uma nova, quase judicial, burocracia chamada Book Rights Registry (Registro de Direitos de Livros) US$ 35 milhões e US$ 45 milhões para detentores de direitos infringidos até agora - em torno de US$ 60 por título. O acordo permanece sujeito a uma última audiência, marcada para 11 de junho.

Ninguém elegeu estes "representantes" , para representar os milhares de autores e editores,  para passar seus direitos para o Google. Nem são idênticos os interesses desta "classe" . Não há nada mais individual do que um livro, um autor, um editor e o valor de um contrato. A geração, já de certa idade, que está agora promovendo este contrato não parece entender que escaneamento em PDF não é grande ciência: é fácil e barato. Livros serão digitados mesmo sem o Google. Mas o acordo do Google eterniza o papel supervalorizado da Internet de hoje, dominada por este grande e magnífico Mago de Oz - o próprio Google.

Parece uma hipérbole? Considere isto: Sob o acordo cada detentor de direitos deverá abrir mão de seus dados contratuais particulares, de toda edição  de todo trabalho que já escreveu - e cada permissão sobre cada excerto já concedida a terceiros - sob o risco de perder o dinheiro que o Google estará ganhando em suas costas. Isto é um peso enorme para todos na indústria editorial, fazendo de todos nós escravos do Google. Em muitos casos, inclusive, estas informações estão perdidas, abrindo uma caixa de Pandora de disputas e declarações sobre quem realmente possui o que.

Os antigos adversários do Google serão pagos com o já mencionado Book rights Registry (BBR), que competirá com o U.S. Copyright Office e a Justiça Federal. O BBR espera ler os contratos de cada um dos participantes para dizer quem deve receber partes da receita do programa - valores líquidos de todos os custos, que certamente serão gigantescos. Todo o nosso sistema atual de contratos individuais, que é dinâmico e contempla mudanças, será então substituído imediatamente por uma base de dados estática, determinações do Google e disputas sobre direitos.

Supunha-se que a Internet eliminaria intermediários, não que criaria novas camadas deles. O BBR é, de fato, apenas o departamento de contratos e negociações do Google. Como em Hollywood, o acordo torna os autores meros subordinados, os últimos da fila a receber os resíduos da receita. Isto inverte a economia atual do mercado editorial.

Os editores de hoje recebem uma parte da receita de vendas porque bancam (e não meramente se aproveitam dos autores) todos os custos de edição, publicação e marketing. A parte dos autores, geralmente metade do líquido, é por sua criação. A parcela do autor cresce em relação à do editor quando os custos de edição são baixos, como no meio digital. Se os autores bancam parte dos custos, a parte do editor diminui ainda mais. Isto não acontece com o Google.

Nós já temos um bom sistema É o sistema da propriedade privada e do livre contrato, feito para indivíduos autônomos - não para centros de comando e controle. A constituição americana garante aos autores pequenos monopólio sobre seus copyrights. O poder de mercado do autor é individual e baseado no talento, não coletivo. Essa ação coletiva desaparece com tudo isso, só em benefício  do Google. Mas a lei não dá a nenhum editor o poder nos conduzir  todos  para sua lista.

Para seu ganho privado, o Google e seus alidos agora procuram destruir a saúde de um sistema que preserva o poder de barganha individual. Disputas, neste esquema do Google, serão  resolvidas por arbitragem, sem acesso à Justiça (que tem mostrado simpatia pelos autores). Os árbitros serão burocratas que tendem a aplicar os contratos estritamente, no padrão "você assinou, agora engula".

Digam adeus a seus direitos para sempre, autores, se esta confusão for aprovada.

 
Comentários...
Data: 01/04/2009
Nome: carlos b.
Sou leitor assíduo da Biofilosofia, um tipo de reflexão difícil de se encontrar em português e hoje descobri o blog. Vocês estão de parabéns pela qualidade das duas iniciativas.
Data: 01/04/2009
Nome: joanna
As iniciativas do Google visam claramente à dominação do mercado de conteúdo como um todo. No mercado, onde trabalho, ninguém parece ver o óbvio ululante e quem vê, nãio dá importância. Embora me pareça que o processo esteja apneas no começo e que falta muito para termos uma situação de quase monopólio, a preocupação é totalmente justifica e temos que reagir agora, não depois do fato consumado.
Data: 01/04/2009
Nome: quica
Cês tão procurando pêlo em ovo. Livro na Internet de graça prá tudo é bom. Se as livrarias perderem, azar o de vocês.
Data: 03/04/2009
Nome: Rabujo comenta
Caso estranho: alguns posts impublicáveis a favor e contra o Google. Linguagem ofensiva não será publicada. E tietagem e puxa-saquismo também não.
Data: 17/04/2009
Nome: Susie
Por mais que se criem formas de exercer direitos sobre obras, a tendência é que cada vez mais os internautas consigam copiar ou acessar, de forma lícita ou ilícita. A questão é controversa mas eu, como leitora/ouvinte/espectadora, acho é bom, tudo liberado, pertencente à humanidade!
 
 
 
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