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Clipping
Entrevista com Cicero Sandroni, presidente da ABL
Autor: Clipex Data do artigo: 14/02/2008
Diário Catarinense - SC (14/02/2008)
"A literatura abre o admirável mundo novo"
Entrevista: Cícero Sandroni - presidente da academia brasileira de letras
Pelo oitavo ano consecutivo o paulista Cícero Sandroni, presidente da Academia Brasileira de Letras desde o dia 6 de dezembro, escolheu a Cachoeira do Bom Jesus, no Norte da Ilha de Santa Catarina, para passar seus 10 dias de férias na companhia da mulher Laura e perto do amigo catarinense Salim Miguel.O descanso, porém, não tem nada de comum. A folga antecede o início de um ano singular na carreira do escritor de 73 anos: ele está à frente da principal instituição literária do país justamente no ano que se homenageia o centenário de morte de Machado de Assis.Nesta entrevista, Sandroni mostra toda sua empolgação com o cargo ao falar dos planos para a ABL, incentivo à leitura e, sobretudo, da importância de se resgatar o exemplo do menino pobre, negro, epilético e gago que tornou-se o principal romancista brasileiro.
O início da carreira
- A minha formação profissional é de jornalista. Eu comecei a trabalhar em jornal no Correio da Manhã, em 1954, e depois fui para vários jornais. Mas o meu interesse pela literatura sempre foi muito grande. Eu lia muito quando era garoto e também fazia as minhas experiências literárias, os meus contos, e também dirigi suplementos literários. Mais tarde fundei um jornal literário, o Rio Artes, tive uma editora e nela resolvi fazer uma revista de contos, a Ficção. Ela teve duas "dentições" - a primeira só com dois números e mais tarde, com a colaboração do Salim Miguel, da Eglê (Malheiros) e do Fausto Cunha, fizemos a revista de 1976 a 1980.
Incentivo à leitura
- Como disse o Monteiro Lobato, "um país se faz com homens e livros". Mais do que isso, com homens que lêem livros. Não adiante ter o livro e não ter o leitor. O pior leitor é aquele que sabe ler e não lê. Você precisa realmente incentivar o hábito da leitura desde criancinha. Mesmo quando a criança ainda não foi alfabetizada é preciso que ela tenha contato com esse objeto, o livro. O Brasil é um país ainda em que se lê pouco em relação a outros países mais desenvolvidos. Na ABL nós temos vários programas de incentivo à leitura, como a nossa editora. Nós publicamos uma média de 20 livros por ano. Esses livros são enviados para universidades, escolas e um diretório de pessoas interessadas em leitura. Nós publicamos geralmente aqueles livros que não estão em catálogo, esquecidos, e que não têm apelo comercial ao ponto de uma editora publicar. Temos também um programa de conferências, de seminários. É um clichê dizer isso, nem gosto muito de falar, mas quando as pessoas se referem à Academia pensam num grupo de velhinhos que se reúnem para tomar chá, falar mal um do outro. Não é nada disso. É claro, a Academia continua tendo chá, mas é hoje uma instituição viva, um palco cultural.
Machado de Assis
- Esse ano nós temos o centenário de morte de Machado de Assis. O ano todo nós temos que lembrar desse que foi um grande escritor e ao mesmo tempo um grande homem. Se você pensar que um garoto pobre, gago, epilético, neto de escravos, nascido no Morro do Livramento, se transformou no maior romancista. Não tem romancista melhor. Ele é o Pelé dos romancistas. Mas como é que acontece isso? Você tem o lado do gênio, mas também muito esforço pessoal, muito trabalho, estudo. O Machado foi não só um grande escritor mas também um excelente funcionário público, um grande jornalista, um homem que nas suas crônicas retratou a vida do Brasil na segunda metade do século 19. Além de tudo, foi também um eficientíssimo presidente da Academia. Machado era um pouco cético em relação à Academia. Já tinham tido tantas academias que não deram certo, essa era mais uma. O grande incentivador - que muitos na ABL consideram o fundador - foi Lúcio de Mendonça Medeiros de Albuquerque. Mas Machado, assim que foi eleito presidente, se tornou o grande consolidador da Academia. Havia uma liderança do Lúcio de Mendonça e o carisma de Machado, que já era o grande escritor brasileiro. Ele já não era o Machadinho dos primeiros romances, das crônicas. Ele se empenha pela Academia, se dedica a aglutinar aquelas pessoas que ou estavam no exterior, ou doentes, ou viajavam, não freqüentavam muito. Tinha reuniões na Academia com cinco, seis membros. Ele insiste e consegue reunir e quando aparecem as primeiras vagas a ABL começa a despertar interesse. A ABL lembra Machado este ano com cursos, conferências, concertos, mostra de todos os filmes baseados na obra dele e o lançamento de livros especiais, como a coletânea de todas as cartas que ele recebeu.
O exemplo de Machado
- É impressionante o que um indivíduo nas condições sociais e econômicas precárias como as dele conseguiu por esforço próprio. Ele leu todos os clássicos, aprendeu francês, aprendeu inglês. Machado se construiu através da leitura, da literatura, dos jornais, da conversa, até da sociedade petalógica (uma espécie de clube dos mentirosos freqüentada pela intelectualidade da época) . Esse leitor ávido ao lado de um funcionário público exemplar. Teve um momento em que ele ficou um pouco agastado com o ministério quando o ministro da época resolver dar a ele uma espécie de disponibilidade - ele recebia o salário e não precisava trabalhar. Isso deixou ele muito constrangido. Ele queria trabalhar.
O melhor livro
- É difícil. Mas eu ainda gosto mais do Memórias Póstumas de Brás Cubas. Agora, o Dom Casmurro é um livro incrível. Se você pensar o Dom Casmurro como um retrato de um triângulo amoroso é pensar um pouco no clichê, no "traiu ou não traiu". E há uma série de outras coisas nesse livro que são misteriosas. Por exemplo, o amor de Bentinho por Escobar. Está flagrante no livro, embora o homossexualismo fosse um tema tabu na época, da pra ver que Bentinho amava Escobar. Mas, pessoalmente, talvez porque eu tenha trabalhado muito com jornalismo político, Memórias Póstumas de Bras Cubas para mim, é um livro que fala mais de uma realidade e da história do Brasil nos últimos anos do Império e do começo da República.
Educação
- A educação é transformadora, sem dúvida. Mas hoje no Brasil se você pensa que na época do Machado de Assis havia 70% de analfabetos e 3% a 4% de pessoas alfabetizadas acho que aos trancos e barrancos a situação melhorou. Mas ainda é muito ruim. Seria fundamental que houvesse uma política coordenada de incentivo à leitura, que hoje ainda não é eficiente, não é coordenada. Não existe uma política educacional que prepare a professora do Ensino Fundamental a ensinar leitura. Os salários são aquelas misérias e elas não têm acesso a uma produção editorial destinada a crianças. Isso complica muita coisa. Não há uma política de massificação da leitura. Hoje o nível de analfabetismo caiu muito, mas o pior analfabeto é aquele que sabe ler e não lê.
Sistema editorial
- No passado, nós tivemos vários programas para salvar o sistema financeiro brasileiro e até hoje não existe um programa para melhorar a distribuição de livros no Brasil. Não há um programa que permita que um livro publicado em Santa Catarina seja comprado lá no Norte. Daí dizem "ah, mas o mercado resolve". O mercado resolve coisa nenhuma. Em relação à indústria editorial não se pode deixar que o mercado só resolva. Não estou falando em incentivo de alguma espécie. Estou falando de política coordenada, de tentativa de melhorar nossa capacidade gráfica, nossa capacidade de produção de papel e a nossa capacidade de distribuir o livro. E isso o mercado não resolve.
Bibliotecas Públicas
- O Brasil não tem uma política de biblioteca pública. O meu querido amigo Muniz Sodré está trabalhando nisso na Biblioteca Nacional mas ainda está no começo. Nós, na academia, temos duas bibliotecas à disposição do público. Mas você sabe quanto custa para nós uma biblioteca? R$ 1 milhão por ano. E isso nós estamos fazendo com o nosso dinheiro. Para nós é um esforço, agora, para o governo federal... Tem que ter um superávit primário né? Tem que pagar os juros. Mas tem que ter dinheiro pra isso também. A única maneira de ajudar o país a se desenvolver é fazer com que as pessoas leiam, se eduquem. Não há uma consciência de que um país se faz com homens e livros. O velho Monteiro Lobato tinha toda razão. Não adianta fazer uma usina hidroelétrica se você não tem mão-de-obra para tratar dos grandes projetos. Mão-de-obra se faz através da leitura. E como você vai ter o hábito de ler, de estudar? É através da leitura prazerosa, que mostra o estranhamento do mundo. Cada romance, cada conto que você lê te transforma um pouco. Quando você chega na grande literatura transforma as pessoas às vezes até fisicamente. A literatura abre o admirável mundo novo.
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