Moacyr Scliar entrevista E. L. Doctorow

Em entrevista a Scliar, Doctorow postuma: o escritor deve funcionar como a consciência moral de seu tempo; e confessa não gostar de nenhum dos diversos filmes baseados em sua obra, dentre eles Ragtime.

O Profeta Bíblico da Ficção Americana

por Moacyr Scliar

Nomes, de uma certa forma, condicionam destinos. Edgar Lawrence Doctorow não é médico (como talvez sua mãe judia quisesse que ele fosse) mas há, neste escritor cujos 64 anos se traduzem na barba grisalha e nos cabelos que rareiam, algo de doutor. Homem suave, de voz calma (ainda que não lhe falte um tom melancólico), Doctorow é urna presença terapêutica, como descobri da primeira vez em que nos encontramos. Visitei-o em seu local de trabalho, um estúdio no Village, e devo dizer que me sentia ansioso e intimidado diante do famoso autor de "O Livro de Daniel", "Ragtime" e tantas outras obras admiráveis. Ele percebeu a minha perturbação e fez o possível para me colocar à vontade, o que afinal acabou acontecendo: o papo fluiu leve e agradável.

No segundo encontro, porém, eu estava ainda mais tenso. A convite do "92nd Y", tradicional e grande instituição cultural judaica situada na rua 92 em Manhattan, João Ubaldo Ribeiro e eu leríamos nossos livros. A reading session é um hábito entre europeus e americanos, mas não entre nós, e eu me sentia pouco à vontade. Doctorow, que nos apresentou ao público presente, de novo fez o possível para ajudar - e de novo conseguiu: a leitura saiu muito bem.

Neste último encontro mais uma vez eu estava incômodo, e desta vez por culpa minha: tendo lido com grande entusiasmo The Waterworks (no Brasil, "A Mecânica das Águas"), seu último romance, às vésperas mesmo de viajar para Nova York, telefonei-lhe propondo uma entrevista. Ora, trata-se de uma iniciativa não isenta de riscos. Escritores nem sempre são as melhores pessoas para fazer uma entrevista jornalística com outros escritores e eu me dei conta disto no momento mesmo em que lhe fazia a proposta. Era tarde para voltar atrás; mas de novo funcionou a sua aguda percepção, e com aquele tranquilo bom senso que eu admirara nas outras vezes, disse: "Vamos nos encontrar, e aí falaremos sobre o que você tiver vontade". Nesse momento, e por uma instantânea associação de ideias, eu lembrei uma curiosa passagem da minha vida; não literária, médica. Estudante de medicina, eu tinha de colher a história clínica de um paciente baixado na Santa Casa. De posse da ficha clínica com seu longo roteiro, comecei a crivar o pobre homem de perguntas. O residente, que me observava, disse: "Se deixares o homem falar, ele dirá tudo o que tu queres saber". Ora, era exatamente esta a mensagem de Doctorow: se falássemos à vontade, tudo aquilo que eu, sob forma de entrevista, teria indagado, surgiria naturalmente. Doctorow e o doutor tinham algo em comum.

E havia muito do que falar. Doctorow não é apenas um excelente ficcionista; é um intelectual, um homem envolvido com as questões de nosso tempo e com opiniões claramente definidas. Perguntei-lhe o que achava da vitória republicana nas recentes eleições e ele mostrou-se francamente pessimista. Para ele, Newt Gingrich, o líder da maioria republicana no Congresso, é um forte candidato a presidente: "Sabe enganar", comentou com desgosto. E fez uma observação interessante sobre a política de contenção de gastos públicos. Os republicanos, disse, querem fazer economia com saúde e assistência social - mas não hesitam em pedir mais verbas para prisões e orfanatos (uma alusão à proposta de Gingrich, de recolher os filhos de mães em welfare para instituições semelhantes àquelas em que Dickens colocou o pobre Oliver Twist).

Embora não seja um homem de movimentos ou de partidos, Doctorow não deixa de assumir posições - ele acha que o escritor funciona como a consciência moral de seu tempo. Uma espécie de profeta bíblico après la lettre - aliás, ele vê nos Dez Mandamentos certa inclinação esquerdista. Em "O Livro de Daniel", Doctorow faz uma clara alusão a Bíblia - seu personagem chama-se Daniel Isaacson. Mas este Daniel vive nos anos cinquenta e seus pais refazem a trajetória dos Rosemberg, Julius e Ethel, executados na cadeira elétrica por espionagem. Um processo polêmico e sombrio, marcado pela histeria anticomunista e pelo anti-semitismo. A família é um elemento importante na obra de Doctorow. Diferente de Mailer e Roth, que se divorciaram várias vezes, ele continua casado com Helen Setzer, de quem fala com ternura e afeição. No dia em que nos encontramos, aliás, ele estava muito alegre: em breve se tornaria avô.

A dimensão humana é um dos aspectos importantes da obra de Doctorow. Mas não é só por isso que seus leitores são legião. Como outros escritores filhos de emigrantes (Bellow é um exemplo adicional) ele valoriza, mais que muitos americanos de várias gerações, o idioma em que trabalha. Daí os numerosos prêmios que recebeu e o cargo que ocupa, de professor na New York University.

Suas obras se caracterizaram não apenas pelo rigor com a palavra, mas também pela força das imagens. E um escritor muito visual, tanto que vários de seus livros foram adaptados para filmes (o último é Billy Bathgate). O próprio Doctorow colaborou na elaboração de roteiros. Para minha surpresa, contudo, ele diz que nenhum desses filmes o satisfez - nem mesmo Ragtime, dirigido pelo excelente Milos Forman. Ele me conta que até brigou com diretores. "Estou convencido", diz, "que cinema é uma coisa, literatura outra". Certamente ele não serviria para roteirista de novela de tevê.

Aos 64, Doctorow começa a se preocupar com a idade. Mas a sua preocupação se refere basicamente à literatura, não à sobrevivência. Ele pensa numa grande obra, numa obra transcendente. Como todo o grande escritor, não está satisfeito com o que já produziu. Inquietude saudável, modéstia exemplar. Qualidades que não são tão frequentes e que só fazem crescer aos olhos de seus leitores esta figura de escritor que se impõe pelo talento e pela sabedoria.

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