Tradução, arte e recriação

Tradução, arte e recriação

No final do mês passado li, por acaso, em uma revista antiga, um artigo de 2020 sobre o lançamento de Escritos da casa morta, de Dostoiévski. O título foi escolhido para encerrar a Coleção Leste, resultado de um ambicioso projeto de traduções diretas do russo empreendido pela Editora 34 desde o ano 2000. A leitura me trouxe lembranças de experiências pessoais com traduções. Como hoje, 30 de setembro, celebramos o Dia Mundial do Tradutor e o Dia Internacional da Tradução, achei interessante compartilhá-las.

O primeiro livro que me despertou para o valor de um bom tradutor foi Os dublinenses, de James Joyce (no original, Dubliners). Nunca havia lido nada dele, e o título me foi recomendado com a promessa de ser o mais acessível para começar. Admito que minha expectativa era alta. Ao terminar a leitura, no entanto, achei o livro tão insosso que fiquei frustrada. A leitura em nada me acrescentou. Mais grave ainda: o livro não me “disse” nada. Tenho para mim que todo livro lido “conversa” com o leitor. Podemos concordar ou discordar do autor, isso não importa. O essencial é que essa conversa aconteça.

Durante anos alimentei certa implicância com uma frase de Fernando Pessoa (um de meus autores preferidos, e uso a palavra “autor” de propósito, pois o admiro não só como poeta, mas também como pensador, ensaísta e tradutor): “O essencial na arte é exprimir; o que se exprime não tem importância”. Hoje entendo que a potência transformadora de uma obra vai muito além da intenção inicial do autor. Mas confesso que levei tempo e várias leituras para compreender isso.

Voltando a Joyce: terminei Os dublinenses com a sensação de tempo perdido. Alguns anos depois, assisti ao filme Os vivos e os mortos, último e premiado trabalho de John Huston (pelo qual Anjelica Huston recebeu o Independent Spirit de Melhor Atriz Coadjuvante). O filme é baseado no conto “Os mortos”, que integra justamente o livro de Joyce. Fiquei intrigada: o que eu não havia sido capaz de apreender na leitura?

Resolvi tentar de novo. Dessa vez tive a sorte de pegar outra tradução, sorte mesmo, porque não foi intencional (estamos falando da minha adolescência). Era outro livro. Essa foi a primeira impressão. A diferença era enorme. Só então consegui adentrar o universo joyceano. Foi como se uma nova dimensão literária se abrisse diante dos meus olhos.

Quando somos capazes de reconhecer a “voz” do tradutor em uma edição, é como perceber um outro matiz numa cor que sempre esteve ali. Descobrir as maravilhas de uma boa tradução é revelador: a terceira pessoa vem à luz, aquele elemento oculto que estava secretamente presente. Tal como em O pássaro azul, de Maeterlinck.

A partir de então passei a prestar atenção aos tradutores e a tudo o que envolve o universo da tradução. Descobri curiosidades que antes me eram desconhecidas. Soube, por exemplo, que Edgar Allan Poe, pouco reconhecido em vida e quase esquecido após a morte, foi redescoberto graças a Baudelaire, que o traduziu para o francês e o tornou o primeiro autor norte-americano mais popular na Europa do que em seu próprio país. Descobri também que Lívio Xavier obteve do próprio Trotsky autorização para traduzir Minha vida. Outra curiosidade: o escritor francês Maurice Druon, autor da série Os reis malditos e de O menino do dedo verde, era bisneto do brasileiro Odorico Mendes, importante tradutor de Homero e Virgílio.

Mas meu maior ganho foi, sem dúvida, a descoberta da literatura russa, e aqui retorno ao ponto inicial.

Minha primeira tentativa foram os Contos de Tchekhov, na edição da coleção Clássicos Jackson (volume XXXVII). A seleção e o prefácio eram de Henrique de Campos; a tradução, de Costa Neves. Assim como na primeira leitura de Joyce, achei o livro sem graça. Anos depois, já mais familiarizada com a literatura russa, li sobre o projeto da Editora 34, que iniciava a Coleção Leste com Memórias do subsolo, de Dostoiévski, traduzido diretamente do russo pelo professor Boris Schnaiderman. Lembrei-me daquela primeira edição de Tchekhov e fui investigar. Descobri que, naquela época, a maioria das traduções de obras russas não era feita a partir do original, mas de versões francesas ou inglesas. Eu havia lido a tradução da tradução. Me senti enganada. Pode parecer exagero, mas, para uma leitora ingênua como eu era então, foi exatamente essa a sensação.

Em A tradução vivida, Paulo Rónai explica que a palavra “traduzir” vem do latim traducere, que significa guiar alguém pela mão até outro lugar. A partir disso, ele considera dois métodos possíveis: se o objeto a ser guiado for o texto, o tradutor o transporta para outra língua; se o objeto for o leitor, o tradutor o toma pela mão e o conduz a um território linguístico que não é o seu.

Aqui deixo meu mais sincero agradecimento a Pepita de Leão, que traduziu, entre tantas outras obras, os contos de Andersen em cinco volumes para a Editora Globo, leitura essencial para despertar em mim, desde cedo, a paixão pelos livros.

“Traduttore, traditore”. O antigo provérbio italiano resume o menosprezo que os tradutores sofreram durante muito tempo. Afirmar que todo tradutor é um traidor ignora a possibilidade de uma boa tradução. O ideal, claro, é ler no idioma original. Mas quando isso não é possível, dependemos deles, figuras tão importantes e, ainda assim, tão subestimadas.

Hoje sei que deveria ter sido grata àquele primeiro tradutor de Tchekhov. Ele me deu acesso a uma literatura rica, densa e profundamente humana. Isso ficou claro anos depois, quando li A dama do cachorrinho, na edição da Editora 34, traduzida diretamente do russo na Coleção Leste. Depois de Dostoiévski, Górki e Gógol, a descoberta do lirismo cotidiano de Tchekhov foi extremamente prazerosa.

Poderia falar muito mais sobre tradução e suas curiosidades, mas é melhor deixar que o leitor descubra por si, sob a proteção de São Jerônimo. Despeço-me com a promessa de voltar a este tema tão vasto e com o poema de Ferreira Gullar.

Traduzir-se

Uma parte de mim  
é todo mundo:  
outra parte é ninguém:  
fundo sem fundo.

Uma parte de mim  
é multidão:  
outra parte estranheza  
e solidão.

Uma parte de mim  
pesa, pondera:  
outra parte  
delira.

Uma parte de mim  
almoça e janta:  
outra parte  
se espanta.

Uma parte de mim  
é permanente:  
outra parte  
se sabe de repente.

Uma parte de mim  
é só vertigem:  
outra parte,  
linguagem.

Traduzir uma parte  
na outra parte  
— que é uma questão  
de vida ou morte —  
será arte?

Por Maira Machado

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